CRÍTICA | Jay Kelly, de Noah Baumbach (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Em Jay Kelly, Noah Baumbach aborda a paternidade através de um ator de sucesso, mas um pai decadente, questionando as próprias escolhas, relações que não construiu, e imerso em uma crise de vida e identidade crescente.

Depois de uma aposta arriscada recentemente, com a comédia satírica Ruído Branco, também para a Netflix, Noah Baumbach optou por um retorno à temática mais tradicional de seu cinema, e sobre a qual melhor se debruçou, até o momento: a família. Também retomando a ideia da metalinguagem, trabalhada há alguns anos na excelente comédia Enquanto Somos Jovens (2014), o cineasta coloca o espectador na pele de um ator veterano na casa dos sessenta anos, reflexivo sobre a própria vida e carreira após perceber que, ao longo de seus últimos trinta e cinco anos, colocou o trabalho à frente de tudo, e abandonou algumas das coisas mais importantes de sua vida.
Talvez para um diretor do calibre de Baumbach, Jay Kelly possa soar uma aposta fácil ao próprio cinema, e quem sabe também uma espécie de “Oscar bait” para a temporada de prêmios - afinal, para além de uma base relativamente comum, ainda toca em temas fáceis para agradar a crítica, e especialmente a indústria cinematográfica, ao falar de si. Da mesma forma a escalação de um ator como George Clooney também reflete precisamente essa ideia, enquanto um reforço à metalinguagem e uma oportunidade de refletir acerca de si e ao próprio trabalho desempenhado ao longo das últimas décadas (não a toa a retrospectiva, nos instantes finais, é composta por cenas de filmes estrelados pelo próprio Clooney).
Entretanto, se para alguns tais ideias reunidas possa parecer apenas um conjunto feito para agradar votantes de prêmios, e com uma boa dose de indulgência para com a própria indústria, buscando uma identificação com outros atores que possam refletir os sentimentos de Jay Kelly sobre as próprias vidas, há de se enxergar muito mais profundidade na narrativa construída, e sobretudo, no aprofundamento gradual do protagonista, e seu agente, muito bem vivido por Adam Sandler, que novamente prova versatilidade na interpretação de papeis dramáticos.
Talvez a idealizada vida com tudo recebido de mãos beijadas, como o momento em que Jay se encontra, não seja tão perfeita como se espera. O excelente diálogo travado pelo protagonista no trem França-Itália é uma reflexão sobre as visões de um público quanto a vida de um artista. Enquanto alguns o veneram, e enxergam sua vida como algo próximo à perfeição, sempre acompanhado por inúmeras pessoas ao entorno, e com dinheiro sobrando, outras, mais ácidas, talvez consigam sentir que a idealização não necessariamente é a verdade - pouco existe privacidade, e as renúncias feitas para chegar àquele ponto talvez tenham sido bastante caras a longo prazo.
Em sua jornada reflexiva, quando, por meio da fantasia, acessa as memórias e retorna para momentos específicos do passado, Jay percebe um rastro de caos que deixou ao longo dos anos. Ele “roubou” o papel de seu amigo mais próximo, na juventude, que hoje é um homem frustrado; recusou ajuda ao homem que deu início a sua carreira; e abandonou as pessoas a quem realmente deveria ter dedicado atenção – suas filhas. Seus personagens no cinema, em parte, refletem a mentira sobre a qual viveu, às vezes em que escapou de sua realidade, do ser a si mesmo, para viver realidades fictícias e controladas.
A paternidade ocupa um buraco vago em seu coração, quando olha para trás e percebe as lacunas de seu trabalho enquanto um pai na vida real, ausente à família e que, até o presente, apenas se importa consigo e somente fala de si. Ao mesmo tempo, na medida em que tenta resolver as questões com sua família, percebe ser tarde demais, e que, ao final, acabou por tornar-se o que mais temia: um ser igual a seu próprio pai, egoísta e egocêntrico.
Mas o filme de Baumbach vai além do olhar desse ator, ao passo que dedica atenção, também, a todos os que estão em seu entorno. Em que pese o pagamento possa valer a pena, percebe-se que o protagonista exige que todos igualmente renunciem às próprias vidas para que cuidem de si. É compreensível que, até certo ponto, seja parte do trabalho deles, mas seu aspecto infantilizado, a todo tempo exigindo cuidados, torna o ambiente insalubre, notando que, no avançar dessa trajetória, não nutriu ou sustentou quaisquer amizades ao longo de anos, e questiona a sua pequinês diante do mundo, enquanto não é, de verdade, o centro das atenções a todo momento.
E a direção é muito enfática e, como de costume, habilidosa, enquanto estilisticamente trabalha com essas ideias no plano da imagem, em uma floresta sombria e vazia como reflexo da solidão, ou mesmo na altura do próprio elenco, na transição entre passado e presente, como forma de ilustrar os sentimentos dos personagens em cena quando Jay é acusado de “roubar” a carreira de seu antigo amigo de faculdade.
Ainda que possa parecer uma aposta segura até para o próprio Baumbach, Jay Kelly é uma demonstração do que há de melhor em seu cinema, enquanto um drama familiar reflexivo sobre a paternidade ausente pelo ponto de vista de um pai arrependido pelas escolhas, e incapaz de consertar todos os (muitos) erros cometidos e escolhas feitas ao longo dos últimos trinta anos de vida, esquivando-se de ser a si mesmo. Por isso, impossível é fazer mais uma tomada, quando se está imerso na realidade, e não escondido no refúgio seguro de um set de cinema.
Avaliação: 4/5
Jay Kelly (Idem, 2025)
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach e Emily Mortimer
Gênero: Drama, Comédia
Origem: EUA, Reino Unido, Itália
Duração: 132 minutos (2h12)
Disponível: Netflix
Sinopse: O astro do cinema Jay Kelly confronta seu passado e seu presente em uma jornada caótica pela Europa com seu dedicado agente. Ao longo do caminho, os dois precisam confrontar os relacionamentos com pessoas queridas e o legado que vão deixar.





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