CRÍTICA | Para Sempre Medo, de Osgood Perkins (Keeper, 2025)
- Henrique Debski
- há 37 minutos
- 4 min de leitura
As ótimas escolhas visuais de Osgood Perkins em Para Sempre Medo não conseguem salvar o filme da mediocridade, com uma narrativa que apenas recicla ideias, e se mostra incapaz de construir uma mitologia inteligível, ainda que sonhe com isso.

Ao som de Love is Strange, nas vozes de Mikey & Sylvia, Para Sempre Medo se inicia com uma montagem paralela, intercalando cenas envolvendo diferentes mulheres, em distintas épocas, presas a relacionamentos conturbados. Todas começam alegres, dançarinas, livres e apaixonadas, apenas para terminarem suas vidas da mesma maneira, gritando desesperadamente enquanto sujam seus rostos com o próprio sangue, como se algo ou alguém as atacasse brutalmente. Não demora a percebermos que essa introdução nada mais revela do que os caminhos traçados pela protagonista Liz, a provável próxima vítima, que tenderá a ser juntar a esse grupo de mulheres assassinadas violentamente.
A ida de Liz, junto ao namorado Malcolm, para uma cabana isolada na floresta já oferece certo desconforto quando retratada da mesma maneira que aquelas do estranho prólogo, feliz e apaixonada – para além, é claro, de todo o clichê. O jeito simpático e carinhoso impresso por Rossif Sutherland ao seu personagem no trato com a protagonista acende uma luz no desconfiômetro do espectador, porquanto tornam-se nítidas suas más ou duplas intenções, sejam quais elas forem.
O estabelecimento da residência de Malcolm igualmente reforça esse clima de dúvida, vez que estamos diante de uma casa grande, isolada, repleta de quartos, subidas e descidas, quase labiríntica. A direção torna o espectador paranoico, não apenas através do silêncio e calmaria, mas principalmente pelos planos distantes, que filmam as janelas e os personagens pelo lado de fora, no interior da casa, com tamanha nitidez ao ponto de torná-los vulneráveis a qualquer ameaça externa. É um ambiente desprovido de privacidade, que aos poucos passa a se tornar o lugar perfeito para uma armadilha.
Sem desconfiar de algo mais profundo, o maior receio de Liz é Malcolm possuir uma família, e fazer dela uma amante sem saber. Aos poucos, o filme concede elementos para que ela acredite nisso, apesar de nos fazer testemunhas de algo diferente. Os vultos passando de um lado para o outro, o bolo misterioso, e outras aparições esporádicas revelam a presença de algo sobrenatural, do qual a protagonista sequer desconfia.
Apesar de criar muito clima e tensão para o que está por vir, no entanto, a inventividade de Para Sempre Medo morre após o formalismo da direção de Osgood Perkins. Para além da claustrofobia do cineasta, e o excelente trabalho com o ambiente interno da casa, sempre passando por reinvenções através dos planos incomuns, que reforçam o terror a partir do desconhecido, e de ameaças cada vez mais próximas, surgindo por lados e lugares inesperados, a narrativa encontra muita dificuldade para sustentar seu mistério no decorrer de noventa minutos.
Em que pese a introdução interessante, e o alerta de desconfiança ativo desde os momentos iniciais, o roteiro de Nick Lepard nunca sabe exatamente como se desenrolar a partir de elementos novos, recorrendo constantemente a vultos passando em frente à câmera, palavras escritas no vidro, e, mais próximo da reta final, um longo flashback explicativo com uma narração de fundo. Não existem soluções orgânicas às problemáticas propostas, e tampouco uma simbologia bem desenvolvida. É de se notar um apreço do roteirista pelos símbolos que tenta estabelecer no decorrer da história, mas por outro lado nunca sabe o que fazer com eles.
Com isso, na medida em que avança, Para Sempre Medo passa a se tornar um filme confuso, e não de forma intencional, mas justamente porque começa a se questionar até onde deseja ir. Quando decide, recai em tamanha obviedade ao ponto de, apesar da temática diversa, reciclar parte das ideias trabalhadas por Jordan Peele em Corra! (2017), e retrabalhadas por outros diversos filmes depois, tal como a reviravolta de Shyamalan em O Sexto Sentido (1999) serviu de base para tantos outros longas nos anos 2000.
Dessa maneira, Para Sempre Medo só não é tão genérico em razão dos esforços de Osgood Perkins em conferir personalidade ao projeto a partir de sua direção, ainda que nem isso seja suficiente para tornar o filme genuinamente memorável ou sequer interessante de fato. É uma pena que a excelente atuação de Tatiana Maslany tenha se perdido em meio a essa grande reciclagem de ideias batidas, tal como as criaturas assustadoras representem tão pouco de fato, ainda que estejam entre as melhores partes do filme. É um daqueles filmes que se encerram com um amargor, no mau sentido, já que se percebe a existência de potencial, mas nunca atingido em razão de escolhas medíocres e óbvias por uma narrativa que deseja soar poética sem saber como, mesmo que no aspecto visual ainda exista inspiração.
Avaliação: 2.5/5
Para Sempre Medo (Keeper, 2025)
Direção: Osgood Perkins
Roteiro: Nick Lepard
Gênero: Terror, Thriller
Origem: EUA, Canadá
Duração: 99 minutos (1h39)
Disponível: Cinemas
Sinopse: O casal Malcolm e Liz viaja para uma cabana isolada para uma celebração romântica. Quando Malcolm parte inesperadamente para a cidade, Liz é confrontada por uma presença sinistra.

