CRÍTICAS | COMPILADO (ed. 01/26) – “A Empregada”, “Incomplete Chairs”, “Last Night I Conquered the City of Thebes”, “Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo”, “Virtuosas”, “Ameaça no Ar” e+
- Henrique Debski

- há 59 minutos
- 9 min de leitura
Críticas curtas/comentários sobre alguns lançamentos recentes, para não deixar passarem batido por aqui!

Cena de A Empregada.
A Empregada (The Housemaid, 2025)
Direção: Paul Feig
Origem: EUA
Avaliação: 3/5
Nos cinemas.
Adaptado do best-seller de Freida McFadden, A Empregada em diversas oportunidades soa como uma grande fanfic escrita no Wattpad de algum outro romance, mas que deu certo, agora adaptada como um filme quase do nível das produções do canal Lifetime, só que com maior orçamento, elenco conhecido e direção de Paul Faig, que tem se especializado nesse tipo de produção.
Com uma história naturalmente apelativa, o longa reúne elementos óbvios capazes de atrair a atenção do grande público dos anos 2020, com mistério, suspense, relacionamentos, sexo e um elenco composto por estrelas consideradas bonitas em frente à câmera, para trabalhar sob uma estética artificial e melodramática as relações repletas de reviravoltas, enquanto subestima a capacidade do espectador médio a partir de um universo simplesmente inverossímil. Pois é muito difícil acreditar em uma quantidade tão gritante de coincidências subsequentes, e problemas resolvidos com a facilidade desejada pelo roteiro, sempre que necessária.
As vezes até há até uma tentativa de disfarce desse caminho mecanizado pelo qual segue a narrativa, mas ineficaz quando seguida por uma situação ainda mais absurda, e explicações para a realidade feitas das piores maneiras possíveis, através de flashbacks com narração em off, ou simplesmente uma exposição verbal.
Por outro lado, não consigo negar o quanto me diverti com o filme – não pelo thriller tenso que busca, sem esforço, ser, mas pela forma como, ao se levar extremamente a sério, se torna uma verdadeira comédia involuntária. Quando era para me deixar nervoso, eu simplesmente estava rindo, pois a pior surpresa que o filme tem a oferecer parece ser sempre a próxima. É um daqueles longas que resume a máxima “tão ruim que é bom”, como se desse uma grande volta e se torna divertido, caso o espectador consiga se abstrair da seriedade e encará-lo como a piada que no fim é. Desde já fico curioso para ver a sequência, e as próximas adaptações de obras da autora.

Incomplete Chairs (インコンプリート・チェアーズ, 2026)
Direção: Kenichi Ugana
Origem: Japão
Avaliação: 3.5/5
Exibido no Festival du Nouveau Cinéma Montréal 2025. Em breve nos cinemas japoneses.
Em julho de 2025, Kenichi Ugana manifestou sua paixão pelo cinema de terror no excelente I Fell in Love With a Z-Grade Diretor in Brooklyn (crítica completa aqui), e alguns meses depois, no mesmo ano, com a première em festivais de Incomplete Chairs, provou seu ponto, em um longa de terror de humor perspicaz, cujo timing cômico se concentra justamente na maneira como se leva à sério, de maneira autoconsciente. Na esteira de protagonistas medíocres que se acham os deuses do universo (vide Psicopata Americano ou A Casa que Jack Construiu), Kujo não é mais do que um sujeito que não leva jeito para o negócio em que se encontra – seja como suposto fabricante de cadeiras, ou seja como um assassino em série.
No decorrer de um banho de sangue, o explorar pelo cineasta de seu protagonista e suas pífias motivações de vida nos fazem enxergá-lo como um produto da alienação de um mundo hiper conectado, de pessoas que, por meio da internet, frente a um deslocamento para com a própria realidade, compram para si causas que não lhes dizem respeito como forma de sentirem-se lutando por algo, ainda que não se importe de fato com a causa em si, e tampouco lute por ela, como acredita. Ao invés de optar por um drama político, por exemplo, o diretor caminha para o extremo por meio do horror, e se levando a sério, ironiza uma realidade através da indústria de cadeiras. É provocativo como um filme de Takashi Miike (possivelmente uma das inspirações, sobretudo no uso da violência, do body horror, e do incômodo pelos caminhos extremos), e original à sua própria forma enquanto propõe uma discussão sobre a sociedade da internet, das redes sociais, de maneira exagerada e, claro, muito divertida.

Last Night I Conquered the City of Thebes (Anoche conquisté Tebas, 2025)
Direção: Gabriel Azorín
Origem: Portugal, Espanha
Avaliação: 4.5/5
Exibido na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza de 2025. Indisponível.
No decorrer de Last Night I Conquered The City of Thebes, Gabriel Azorín estabelece uma conexão entre o passado e o presente que vai muito além de um mero espaço geográfico. A partir da conversa sincera em tom de desabafo, e até tomando certos sutis caminhos homoafetivos (na forma da famosa "brotheragem") de Antônio para com seu amigo Jota acerca da vida que leva, dos medos daquilo que reserva o futuro e dos caminhos que pretende seguir, o cineasta nos conduz em uma viagem ao passado sob as mesmas circunstâncias, mas em contexto diversos, construindo uma ideia, verdadeira, de que, não importa a época, o ano ou a geração, tendemos, como seres humanos, a nos sentir da mesma forma quando projetamos nossos caminhos adiante, tementes à imprevisibilidade do futuro, e obrigado a fazer escolhas (e por que não também sacrifícios e renúncias?).
Azorín explora essa conexão por meio de planos longos, uma mise-en-scène quase teatral, no melhor dos sentidos, e um elemento de experimentação quando se usa da tecnologia para tratar do céu, planetas e do universo desconhecido, como forma de mostrar o quão ínfimos somos nós e nossos problemas frente a toda a realidade ao redor, na Terra ou na galáxia como um todo. Os diálogos, praticamente sem cortes, soam autênticos enquanto o elenco se expressa com calma, e bem dirigidos, com uma voz que nos leva às mais profundas inseguranças.
É uma produção pequena, simples, atenta aos detalhes, capaz imergir o espectador em um abismo de milhares de anos a partir da imaginação do tempo passado, cujos elementos linguísticos, como o latim, colaboram na viagem. Nada mais é, então, do que um filme sobre a vida - escolhas, renúncias e o encarar daquilo que está adiante de nós, no futuro, do qual jamais escaparemos.
Como já canta Toquinho, em sua canção Aquarela (1983):
“E o futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar
Não tem tempo, nem piedade
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença, muda a nossa vida
E depois convida a rir ou chorar”

Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo (Idem, 2025)
Direção: Wesley Pereira de Castro e Fábio Rogério
Origem: Brasil
Avaliação: 4/5
Vencedor da Mostra Aurora da 28ª Mostra de Tiradentes (2025). Indisponível.
Existe uma construção muito genuína, e sobretudo aberta, de Wesley Pereira de Castro acerca de si. Em uma colagem de filmagens esporádicas, em sua própria casa, de momentos diversos durante o difícil momento de confinamento ocasionado pela pandemia, no documentário Um Minuto é uma Eternidade para Quem Está Sofrendo o cineasta explora um fragmento de sua pessoa, entre os momentos de depressão e as conquistas do dia a dia, da vida no cotidiano daquele momento de isolamento do mundo.
Da mesma maneira, Wesley abre-se também à própria arte, inspiração enquanto cineasta e crítico de cinema, e especialmente seu interesse pela nudez, pela exploração do corpo e completa falta de discrição para com as próprias partes íntimas, a todo tempo de frente para a câmera, como um dos elementos centrais de sua personalidade.
Não é um retrato pedante ou fantasioso, como poderia ser – e como igualmente costuma, nesse tipo de projeto –, e tampouco apelativa, pelo contrário, exala sinceridade, sem pudor em mostrar seus momentos de maior fragilidade, como um ser humano de fato, sem se colocar como vítima, mas protagonista da própria vida, enquanto experimenta com a imagem e a montagem, e conversa com a câmera, abrindo os próprios sentimentos e intimidades, como uma espécie de diário. É um grande documentário, assinado por alguém que conhece a linguagem com a qual trabalha, e dispõe-se a testar os limites do cinema e, sobretudo, do espectador enquanto parte de uma sociedade.

Rain Fell On the Nothing New (Regen fiel auf nichts Neues, 2025)
Direção: Steffen Goldkamp
Origem: Alemanha
Avaliação: 2/5
Exibido no Karlovy Vary International Film Festival 2025 e Filmfest Hamburg 2025. Indisponível.
Para além de uma dose de experimentação formal no conduzir da narrativa a partir de elementos naturalistas, retratando as dificuldades de um jovem alemão em se reintegrar ao mercado de trabalho após sair da prisão, Rain Fell on the Nothing New tem um título que cai como uma luva ao ineditismo de sua proposta - qual seja, praticamente nenhum.
Como mais um longa que aborda essa mesma temática – das dificuldades de recolocação no mercado de trabalho após a saída da prisão –, Steffen Goldkamp não parece conseguir encontrar uma via para dar personalidade ao seu projeto. Apesar da atuação dedicada de Noah Sayenko, o protagonista David sempre soa como um estranho ao espectador. O acompanhamos durante oitenta minutos sem praticamente nada saber acerca dele, sua história, ou como chegou àquele ponto na vida, apesar de podermos inferir algumas coisas a partir do entorno.
Talvez até seja a ideia do filme, que sempre filma o personagem afastado da câmera, muitas vezes de longe, e praticamente nunca com o corpo inteiro dentro do quadro, e brinca com a razão de aspecto entre as cenas na prisão (mais claustrofóbica) e na cidade (mais aberta).
Ainda assim, a ideia de mistério em seu entorno nada mais é que uma barreira, e pior, renega o projeto a um rol de filmes genéricos, que contam sempre os mesmos tipos de história de pessoas tentando se encontrar no mundo, sem quase nada mudar, em um grande ciclo vicioso. É como praticamente um tipo de filme europeu que já vi em outras oportunidades, quando nem mesmo da fórmula se dedica a tentar esquivar.

Virtuosas (Idem, 2026)
Direção: Cíntia Domit Bittar
Origem: Brasil
Avaliação: 3.5/5
Exibido no Festival do Rio 2025 e na Mostra de São Paulo 2025. Em breve.
Ainda que o desenrolar da narrativa de Virtuosas não escape a um formato relativamente esquemático, especialmente na maneira como contrapõe a construção e desconstrução moral de seu ambiente, a proposta crítica de Cíntia Domit Bittar, na forma de uma sátira, é precisa e vai direto ao ponto enquanto mergulha no universo das mulheres conservadoras cristãs.
Influenciada pela onda de autoajuda conduzida por pessoas sem um pingo de noção ou experiência naquilo que falam, e usando da religião como chamariz, o filme pouco a pouco desconstrói as crenças vazias de pessoas devotadas a uma personalidade que admiram, sem se dar conta da personagem que mascara a verdadeira Virgínia - excelente na pele de Bruna Linzmeyer.
A partir de uma mulher consciente da realidade, atuando como jornalista "infiltrada", a diretora direciona o olhar do espectador para o sarcasmo daquelas crenças absurdas e completa ausência de pensamento crítico das pessoas ao redor. Em diversas oportunidades, a artificialidade das relações é evidente, sobretudo em algumas situações mecanizadas, que soam como uma lembrança de como tudo aquilo atua, na prática, como uma fachada para o ego, com uma antagonista que cresce diante da câmera na medida em que se revela como verdadeiramente é.
As soluções absurdas, especialmente na reta final, são divertidas pelo rumo que a história toma afinal, com um desfecho que, apesar de um tanto óbvio, combina com todo o direcionamento dado rumo à essa sátira, e ao caminho mais árduo de uma sociedade adoecida pela crença em “falsos profetas”, péssimos líderes e maus exemplos – inclusive, proposital ou não, o nome Virgínia à personagem mais questionável diz muita coisa, nesse mundo repleto de péssimos “influencers”.

Eternidade (Eternity, 2025)
Direção: David Freyne
Origem: EUA
Avaliação: 3.5/5
Disponível para alugar/comprar nas plataformas digitais.
Até determinado ponto, gosto muito do caminho pelo qual segue Eternidade - desde a construção desse universo pós vida, a ideia de um destino definitivo e a completa rejeição de um ambiente pautado em qualquer religião, mas arquitetado completamente sob as vestes do capitalismo, até a encruzilhada na qual se encontra a personagem de Elisabeth Olsen, dividida entre os dois maridos.
Acontece que o filme parece não saber, ou temer a tomada de uma decisão definitiva, e prefere se alongar numa longa jornada desconstruindo, de maneira óbvia e bastante hollywoodiana, soluções interessantes que havia anteriormente estabelecido, redirecionando a narrativa para uma grande volta em torno do próprio eixo rumo a obviedade.
Confesso que me senti decepcionado com a maneira como boas ideias acabaram sendo abandonadas por um grande clichê de vida em conjunto, ainda que eu tenha me divertido bastante, e dado boas risadas, sobretudo com o trio protagonista, e com a Da'Vine Joy Randolph roubando a cena. Ainda creio que poderia ser muito mais se tivesse coragem de sustentar algumas escolhas, antes de rumar a uma desconstrução bastante típica do cinema norte-americano, que torna o filme excessivamente conformista aos costumes do país e do cinema local.

Ameaça no Ar (Flight Risk, 2025)
Direção: Mel Gibson
Origem: EUA
Avaliação: 1.5/5
Disponível no Prime Video.
Não vou negar que Flight Risk é um filme divertido, mas involuntariamente, como uma comédia.
Fruto de uma ideia batida, e um roteiro que amontoa a maior quantidade de clichês que consegue pensar, sem um grande orçamento, não há espaço e menos ainda interesse em sair de um caminho óbvio como um thriller de ação claustrofóbico em espaço limitado, incapaz de ir além das interações superficiais e arquétipos de personagens vazios, resumidos a breves memórias que verbalizam traumas e arrependimentos sem profundidade, como características em uma ficha de papel, dada aos atores para dar vida às suas composições.
Mel Gibson até tira leite de pedra em passagens de ação visualmente interessantes pela mise-en-scène no interior do avião, que o texto assinado por
Jared Rosenberg, muito segmentado em blocos de tensão artificias, exageradamente controlados, faz com que não surtam efeitos (como em mortes, ferimentos ou destruição de objetos-chave dentro do avião), quando precisa que tudo se encaminhe de maneira específica para o final, igualmente óbvio, como se ainda respondesse ao crivo do Código Hayes.
Do CGI ruim às ideias absurdas e montagem atrapalhada, sobretudo na sequência de ação final, a única de maior dimensão, o melhor a se fazer é rir do absurdo que se acha sério, e de um Mark Walhberg atuando em um modo surtado, tentando encarnar um Nicolas Cage em A Outra Face, sem o mesmo espaço ou carisma pra isso (quem sabe esse não seria um papel do Cage em outros tempos?).






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