CRÍTICA | Dois Procuradores, de Sergei Loznitsa (Two Prosecutors, 2026)
- Henrique Debski
- há 1 dia
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Sergei Loznitsa transforma Dois Procuradores em um lento thriller de espionagem protagonizado por um jovem promotor, em clima paranoico e hipervigilante, nas entrelinhas da repressão estatal.

Desde seus primeiros minutos, Sergei Loznitsa estabelece um ponto de vista muito claro e objetivo da história que pretende contar, enquanto fixa o espectador como uma testemunha observadora de uma cadeia de eventos que, possivelmente, se repetia ciclicamente naquele tempo e espaço. Situado majoritariamente no interior da finada União Soviética, no ano de 1937, Dois Procuradores esclarece, nos créditos iniciais, tratar-se aquele de um dos períodos mais conturbados da história do país, no auge da repressão do governo Stalin, e sob uma onda de violência velada por parte do Estado contra a população, em suas mais variadas formas.
Uma câmera estática dedica uma parcela de tempo a acompanhar o trabalho de um prisioneiro, encarregado de queimar cartas em uma sala escura de um presídio. Pedidos de recursos das prisões arbitrárias, escritos pelos próprios presos, nunca chegam às autoridades, transformando-se em cinzas antes mesmo de sair do prédio, ou sequer serem lidas por quem quer que fosse, senão pelo responsável por apagá-las do mundo, um cidadão que provavelmente se encontra na mesma situação, com a diferença que, consciente do sistema, não alimenta esperanças, sabendo que dali nunca sairá. Suas leituras, calmas e vagarosas, se dão como forma de, para além do saciar da curiosidade, oferecer um pingo de dignidade àqueles que se arriscaram escrevendo para rever suas condenações, como um ato de solidariedade.
No entanto, uma dessas cartas, de alguma forma, chega à promotoria local, para cair nas mãos de Kornev, um jovem promotor, recém-formado, idealista, e crente na transparência e funcionamento do Estado de sua pátria, ao qual serve de bom grado, assumindo a função de responsável pelo controle e fiscalização dos presídios locais.
O conhecemos com sua chegada ao respectivo presídio, no qual busca conversar com o diretor. A entrada no estabelecimento não esconde a rispidez de um local frio, burocrático como toda a União Soviética, mas pior, em um aspecto sujo e desumano, como se quem ali estivesse não fosse merecedor de um mínimo existencial. Loznitsa reforça, por mais de uma vez, que a presença do protagonista no local não é bem-vinda. O natural excesso de protocolos, de passagens por guardas armados a portas e senhas soa como uma arma utilizada pelas chefias do local para fazê-lo desistir de seus objetivos, o submetendo a longas horas de espera. Tão longa é a paciência de Kornev como é também o olhar do diretor, fixo em pontos específicos, com uma câmera enrijecida, e ao som do relógio como fator determinante para induzir o espectador ao sentimento de tédio proposital, como uma provocação à imersão.
Na medida em que o personagem se envolve na investigação, ele enfrenta uma nova realidade. O que se tratava, inicialmente, de um procedimento padrão, relacionado às próprias funções, começa a se encaminhar rumo as profundezas de um sistema corrupto. Enquanto no papel e nos documentos oficiais tudo se parece regular, o plano concreto mostra uma face completamente distinta, de uma União Soviética que Kornev não conhecia. Antes que pudesse perceber, sua simples tarefa, a qual tantas pessoas tentaram impedir que fosse cumprida, com respaldo em protocolos diversos, aqui e acolá, se torna uma verdadeira missão de espionagem, de levar à tona a verdade às autoridades superiores, arriscando-se num campo minado burocrático, onde ninguém é confiável.
A partir de um longo diálogo, a virada de chave na visão de Kornev ao seu entorno vem acompanhada, também, de um sentimento paranoico. Com todos os olhares direcionados a ele, em ambientes antes de respeito, mas agora hostis com o mero conhecimento que obteve, a câmera fixa do diretor abandona um aspecto paciente, e assume a forma da urgência. Nos mesmos moldes, Loznitsa continua a filmar a jornada do protagonista, agora uma espécie de “agente secreto” com o mesmo olhar, mas muito mais interessado em explorar o que se encontra ao redor, antes ignorado. De repartições públicas lotadas a pessoas andado de um lado para outro na capital do país, a desconfiança reside em cada canto, regada pelo individualismo, em uma enorme contradição ao coletivo que a ideologia socialista tanto buscava vender em suas propagandas institucionais.
A tensão constante, mesmo com uma câmera parada, evoca referências típicas à literatura de Kafka, em seu O Processo, mas referencia de verdade a vigilância interminável de Orwell com seu profético 1984, trocando as onipresentes teletelas por olhos e ouvidos invisíveis, no clima de intensa competição e desconfiança no próximo. O sentimento de apreensão ao ser observado sem perceber cada vez assola o protagonista, e materializa-se na realidade, ainda que não possamos comprovar, mas tão somente considerar como uma forte possibilidade.
O mais interessante de Dois Procuradores não é só a forma como o longa coloca em xeque a hipocrisia de um Estado em relação a suposta ideologia que defende, mas também constrói todo um ambiente de tensão e hipervigilância sem nunca precisar materializar, durante boa parte do tempo, todos esses elementos. Loznitsa mantém intactos os mais típicos atributos de seu cinema (os planos longos, poucos cortes e a câmera fixa) em um thriller que reúne Direito, política e espionagem a partir dos olhos de um burocrata entrando em crise, ao desconstruir, internamente, a própria noção de realidade. É um filme que pode incomodar em razão de seu ritmo lento, é verdade, mas a paciência é uma virtude que o faz valer a pena, especialmente pelo ciclo que estabelece, em um desfecho catártico e inesquecível.
Avaliação: 4.5/5
Dois Procuradores (Two Prosecutors / Zwei Staatsanwälte, 2026)
Direção: Sergei Loznitsa
Roteiro: Sergei Loznitsa
Gênero: Drama, Thriller
Origem: França, Alemanha, Letônia, Países Baixos, Romênia, Lituânia, Ucrânia
Duração: 118 minutos (1h58)
Disponível: Cinemas (via Retrato Filmes)
Sinopse: Na URSS de 1937, o promotor Kornev descobre uma carta não destruída de um prisioneiro que revela corrupção no NKVD. Sua busca pela verdade, e justiça, se torna cada vez mais perigosa quando não consegue visualizar a dimensão do problema.

