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CRÍTICA | Dinheiro Suspeito, de Joe Carnahan (The Rip, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 5 horas
  • 4 min de leitura

Em Dinheiro Suspeito, Joe Carnahan comanda Matt Damon e Bem Affleck em divertido thriller de ação despretensioso com a cara da Netflix, entre mistério, investigação e reviravoltas, tudo centrado em um único local.

 


Recentemente, muito tem-se falado em orientações dadas pelos executivos da Netflix para os produtores e roteiristas de projetos financiados pela plataforma, no sentido de buscarem, sempre que possível, por explicações verbais dos acontecimentos em cena, até mesmo por mais de uma vez, para garantir a compreensão do espectador médio, permitindo-o desfrutar das produções, se quiser, como uma espécie de “segunda tela”, executando outras atividades do dia a dia enquanto assiste a um filme ou série.

 

Não se trata necessariamente de subestimar o espectador, ou emburrecê-lo – apesar disso acontecer –, mas tentar se adaptar à realidade de um mundo hiper conectado que nunca descansa. Cinematograficamente falando, é um péssimo caminho a se seguir, rumo a um verdadeiro buraco artístico quando, a depender da tolerância da gigante, projetos mais complexos e intrigantes podem perder o brilhantismo ao tornarem-se mais simples frente a essa medida e demanda que o streaming pretende atender. Mas não necessariamente, por outro lado, isso tornará todas as produções ruins ou de baixíssima qualidade – dependerá do caso a caso.

 

Reunindo elenco estelar, e surfando na onda de tudo aquilo que mais faz sucesso no catálogo da Netflix – e por isso, leia-se thrillers policiais, ação e reviravoltas –, Dinheiro Suspeito mostra que, pelas mãos de profissionais competentes, e com boas ideias a serem seguidas, essa “simplificação” dos roteiros não necessariamente fará muita diferença. Como um thriller de ação despretensioso, o roteiro de Joe Carnahan e Michael McGrale, mesmo se explicando em excesso, entre conceitos e (muitos) flashbacks, se mostra eficaz ao convidar o espectador a adentrar no mistério no qual os detetives Dumars e Byrne – vividos pela dupla de amigos fora das telas Matt Damon e Ben Affleck – se envolvem.

 

Em cenários limitados, e desenvolvido essencialmente no interior de uma casa nos subúrbios de Miami, a direção de Joe Carnahan trabalha sob a base da inversão do estilo e clima da cidade consolidado por filmes como Scarface, séries como Miami Vice ou jogos como GTA: Vice City, ao retratar uma Miami escura, sem delinear o maniqueísmo, brincando com a linha tênue do “bem e do mal”, e jogando para nós a dúvida de quais dos policiais estão comprometidos com a lei e a ordem, e quais estão envolvidos em esquemas criminosos.

 

O sentimento de paranoia é o principal artifício empregado pelo cineasta na construção de um ambiente de desconfiança. As informações duvidosas passadas de uns para os outros, e a câmera sempre à espreita das atividades suspeitas coloca cada um dos personagens na berlinda da possibilidade de ser um traidor. Ameaçados por uma voz misteriosa ao telefone da residência, o confinamento dos agentes no interior da casa torna o clima ainda mais pesado, quando sempre na iminência de um ataque.

 

Por detrás do cenário investigativo, um pano de fundo é estabelecido ao colocar toda a polícia da cidade em crise, e na mira dos agentes federais, com o desmantelamento de departamentos por razões de corrupção, e junto do recém-homicídio da capitã da equipe tornam a operação um verdadeiro tudo ou nada, no qual os verdadeiros culpados tendem a se revelar.

 

No fundo, Dinheiro Suspeito é um filme de ação com menos cenas de combate do que se espera do gênero, e ainda mais por ser um longa assinado por Carnahan. Mas quando parte para elas, o diretor se adequa ao clima de tensão, e, durante boa parte do tempo, busca não materializar os antagonistas, a partir de ataques surpresa com uma enxurrada de balas, na qual a câmera apenas se movimenta entre os “mocinhos” e busca abrigo atrás de objetos ao lado dos personagens, demonstrando medo e apreensão em ser atingida, agindo como se uma pessoa fosse. A decupagem trêmula, e a fotografia escura colaboram para esse clima de proposital incompreensão da violência por parte dos policiais, em um aspecto realista muito bem-vindo a atmosfera adotada pela narrativa.

 

Dessa maneira, ainda que por vezes explicado em demasia, e cheio de reviravoltas esperadas, ao maior gosto do público, Dinheiro Sujo encontra espaço no catálogo do streaming enquanto filme de ação despretensioso, construído a partir da atmosfera apreensiva, e elaborando um mistério até engenhoso, deixando pistas para o espectador desvendar, sem necessariamente subestimá-lo com soluções mirabolantes. Ademais, é sempre divertido assistir a Matt Damon e Ben Affleck, enquanto amigos de longa data, colaborando, ainda mais quando a narrativa encontra na química e relação de seus personagens a força motriz para o desenrolar da trama, entre a verossimilhança e os carisma dos intérpretes na medida em que contracenam.

 

Avaliação: 3.5/5

 

Dinheiro Suspeito (The Rip, 2025)

Direção: Joe Carnahan

Roteiro: Joe Carnahan e Michael McGrale

Gênero: Ação, Thriller

Origem: EUA

Duração: 113 minutos (1h53)

Disponível: Netflix

 

Sinopse: Um grupo de policiais de Miami, passando por uma enorme crise de corrupção no departamento, descobre um esconderijo com milhões de dólares em dinheiro vivo e ilícito, o que causa desconfiança entre eles, e as intenções de cada um, fazendo-os questionar em quem confiar.

 
 
 

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