CRÍTICA | Extermínio: O Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple, 2026)
- Henrique Debski

- 20 de jan.
- 5 min de leitura
Sob um ritmo mais lento e menos voltado à ação, Nia DaCosta assume as rédeas de O Templo dos Ossos, na continuidade do amadurecimento de Spike – agora preso no conflito entre religião e ciência na loucura da solidão de um Reino Unido preso no tempo e fadado ao passado.

A confiança da Sony para uma nova trilogia do universo de Extermínio (agora, 28 Years Later, no título original) me parecia uma aposta arriscada, à princípio, dado o aspecto nichado dos longas anteriores, e o sucesso especificamente restrito ao país de origem – qual seja, o Reino Unido. Ademais, a pergunta maior era exatamente em que Danny Boyle e Alex Garland apostariam para este retorno em suas parcerias, depois de tantos anos.
O primeiro longa, Extermínio: A Evolução, no ano passado, foi uma generosa surpresa, porquanto reajustava o cânone da franquia, ao restringir a epidemia ao Reino Unido, uma região do mundo isolada, desabitada, e presa ao tempo dos eventos do primeiro longa (início dos anos 2000), enquanto o restante do planeta seguia a pleno vapor sem as criaturas contaminadas pelo vírus da raiva. E mais do que isso, trata-se de uma verdadeira história de amadurecimento, por parte do protagonista Spike – vivido com brilhantismo pelo ainda adolescente Alfie Williams -, nos cuidados para com a mãe doente, e a fuga de uma realidade segura rumo à busca por uma cura, em meio à violência da devastação, o encontro de almas bondosas (vide o Dr. Kelson) e o testemunho de atos horrendos praticados por outros homens, não infectados, e até a reta final não materializados fisicamente, mas apenas nominado como “Jimmy”. É a perspectiva de realidade pelos olhos de um jovem que nela nasceu, sem qualquer conhecimento de uma verdadeira sociedade, mas tão somente daquele mundo involuído ao ponto de assemelhar-se a uma fantasia medieval pós-apocalíptica.
O segundo longa da trilogia, assinado pela talentosa cineasta Nia DaCosta, rompe de certa maneira com o estilo de Danny Boyle impresso no primeiro longa. Na contramão de tentar emular sua experimentação formal com as filmagens feitas utilizando-se de iPhones, ou as coreografias de ação acelerando a imagem e “brincando” com a taxa de quadros, a cineasta opta por colocar os pés no chão na ilustração do conflito entre a fé e a ciência nessa Grã-Bretanha presa ao passado, que se estabelece no decorrer de todo O Templo dos Ossos, das referências aos Teletubbies à inexistência de tecnologias.
Ao materializar Jimmy e sua turma como os autores de uma violência desmedida, o roteiro de Alex Garland não demora a revelar um aspecto de fanatismo religioso nos discursos do personagem, que encara seu grupo como devotos fiéis a sua figura, “herdeiro” de uma força que chama de “Old Nick”, com Spike nos servindo como testemunha enquanto adentra ao grupo. Por outro lado, Dr. Kelson, já conhecido desde o filme anterior, recebe maior atenção com um arco destinado apenas a ele, e uma relação surpreendente que estabelece com um infectado alpha, a quem chama de “Sansão”, em razão da força e dos longos cabelos, de quem trata das feridas enquanto anestesiado por um dardo, e aos poucos busca por uma “cura”.
Nessa proposta de oferecer uma expansão da mitologia de Extermínio, Garland aproveita uma oportunidade, nesse pequeno arco dedicado a um infectado alpha, e vai além, de não apenas dar a chance de um “zumbi” protagonizar algumas cenas, mas também buscar por seu olhar para o mundo ao redor. É o que Nia DaCosta faz ao colar sua câmera ao rosto do personagem, a fim de explorar suas feições com relances de lucidez, e, mais ainda, tentar entender o que faz com que ele ataque os “vivos” (não infectados), a partir de seu ponto de vista, e daquilo que vê, como ameaças raivosas, que potencializam seus instintos mais animalescos.
No primeiro plano, no centro da narrativa, e desse contínuo processo de amadurecimento do personagem Spike para além dos muros de sua comunidade segura, encontra-se ele diante de um dos mais antigos debates da humanidade, entre a fé (representada por Jimmy) e a ciência (na figura de Kelson), a qual se firma muito antes do encontro entre os personagens, no clímax, mas especialmente no legado que deixam para com o mundo em que vivem – algo que se apresenta desde A Evolução. O garoto, que conviveu com ambos durante certo tempo, está em posição privilegiada com vistas na exploração dessa discussão de ordem moral, permeada por doses de insanidade frente ao isolamento e à maneira repentina como a infecção se desenrolou, interrompendo todo um mundo conhecido, agora em ruínas e afundado no caos.
Ainda que uma premissa batida, a maneira como filmada e arquitetada entre dois filmes, pensados juntos, desde o prólogo do primeiro, na icônica cena do ataque e o esconderijo na igreja, até toda a explicação sobre o templo dos ossos, somado ao cenário pouco convencional para o debate, reforça uma perspectiva de semelhança nas atitudes de uma nova sociedade, caótica e sem regras, carregada – e quem sabe, até impulsionada – pelos vícios dos momentos anteriores à epidemia, como a manipulação das mentes (considerando ser Jimmy, afinal, um pregador, tal como seu pai, um pároco); ao passo em que ainda há esperança, depositada nas boas pessoas, em seguir adiante rumo ao progresso e enfrentamento do caos, com a lenta busca por uma cura.
E assim, através de personagens excêntricos, com Jack O'Connell na pele do psicótico Jimmy Crystal, e especialmente Ralph Fiennes retornando como Dr. Kelson (já em uma das melhores atuações do ano, agora com mais tempo de tela, carregado por emoção no olhar profundo de alguém que aceita o mundo em que vive, na tentativa de melhorá-lo, e especialmente, protagonista de uma das melhores cenas do ano, na reta final do longa), O Templo dos Ossos vai além do cumprimento de um papel de intermediário entre dois filmes de uma trilogia, ao expandir a realidade em que se situa a partir do debate entre religião e ciência no pós-apocalipse, ao mesmo tempo que também busca por um olhar para a visão do infectado, e a construção detalhada de um Reino Unido isolado, que não teve a oportunidade que sair dos anos 2000. É um filme que recicla boa parte dos cenários e ambientação do anterior, é verdade, mas sob outro enfoque, ritmo e proposta, ainda que envolvendo, em boa parte, os mesmos personagens, agora menos voltado à ação, e interessado na construção das diferentes perspectivas para sobrevivência no contato entre seres humanos e as marcas que deixam por sua passagem na Terra.
É mais um grande acerto de Nia Da Costa como diretora, que se consolida cada vez mais como uma das melhores cineastas de uma geração mais jovem, ao passo que Alex Garland demonstra, novamente, o interesse pelo olhar na maldade e na violência humana em ambientes sem regras, de sociedade frágil, tal como fez em seu recente, e excelente, Guerra Civil. Nos resta agora aguardar, curiosos, para o terceiro longa, no fechamento da trilogia, e dos arcos deixados em aberto.
Avaliação: 4.5/5
Extermínio: O Templo dos Ossos (28 Years Later: The Bone Temple, 2025)
Direção: Nia DaCosta
Roteiro: Alex Garland
Gênero: Thriller, Terror, Drama
Origem: EUA, Reino Unido
Duração: 109 minutos (1h49)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Dr. Kelson se envolve em um novo relacionamento surpreendente com um infectado, cujas consequências podem mudar o mundo como ele o conhece; enquanto o encontro de Spike com Jimmy Crystal e sua turma se transforma em um pesadelo do qual ele não consegue escapar.





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