CRÍTICA | Hamnet, de Chloé Zhao (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- há 2 dias
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Ainda que belo e capaz de emocionar, Hamnet se ancora em excesso num formato intimista típico do cinema norte-americano, se estendendo além da conta, e perdendo a organicidade no caminho.

A trajetória de Chloé Zhao como cineasta é muito singular, pela maneira como ao longo dos anos alavancou a própria carreira rumo a filmes de maior orçamento, mas sem necessariamente perder a essência e o estilo que a consolidou no meio. É o caso de seus primeiros longas, independentes, que flertam entre o documentário e a ficção, roteirizados, protagonizados por não-atores interpretando a versões de si mesmos, através da própria realidade, como em Songs My Brothers Taught Me e The Rider. O seguinte, Nomadland, seu melhor filme até então, deu um passo além ao eleger Frances McDormand a protagonista de uma jornada introspectiva em uma realidade concreta e verdadeira, cercada de pessoas reais, que assim como sua personagem, vivem como nômades viajando através dos Estados Unidos.
A passagem na Marvel fez nascer uma outra versão de Zhao, completamente fora de sua zona de conforto, com um orçamento em mãos na casa da centena de milhões, uma enorme quantidade de fundos azuis, efeitos digitais e uma caminhada pelo cinema de ação, de uma produção da qual não tinha exatamente total controle. O aspecto intimista de seu cinema manteve-se presente enquanto explorava aquele mundo e personagens através de uma linguagem mais acessível e comercial, ainda que com algum traço de autoralidade – o que nem sempre acontece com os diretores no estúdio.
Agora em Hamnet, Zhao mantém-se com os pés na ficção, adaptando para as telas o drama romântico homônimo de Maggie O'Farrell (a qual assina em conjunto o roteiro), que fantasia passagens da vida de William Shakespeare sob o olhar de sua esposa, Anne, construída, na obra, através do nome Agnes. Há preocupação com o estabelecimento do espaço e tempo em que situa a narrativa, de uma sociedade conservadora no interior da Inglaterra do século XVI, do início de uma paixão, do preconceito, da formação de uma família, e no momento mais difícil da vida do casal, da perda de um filho, ainda criança.
O olhar da diretora, ao longo do primeiro ato, em poucas oportunidades busca por uma aproximação concreta com os personagens que retrata. Em uma proposta que pende ao estilo naturalista, se esforça para observá-los a certa distância, com encanto e paixão pela forma como decupa suas cenas na tentativa de captar os sentimentos do casal protagonista em seus primeiros encontros, reforçando a paixão e dando-lhes especial privacidade para se conhecerem.
A medida em que se aproximam e tomam a decisão de formar uma família propriamente, através do casamento, a vida no interior da residência leva a câmera, e o espectador, à proximidade de Agnes e William, especialmente em seus momentos difíceis. O roteiro de Zhao e O’Farell faz questão de desconstruir a ilusão de uma vida perfeita enquanto, na contramão do romantismo, dá ênfase aos momentos mais árduos de Agnes no cuidado dos filhos, e nas dificuldades em lidar com William e sua personalidade temperamental, mas colocando como verdadeiro desafio a distância e o tempo em que ficam separados, anualmente, enquanto ela cuida da casa e ele vive em Londres, inicialmente fabricando luvas para o teatro, e posteriormente escrevendo as peças.
Em meio à delicadeza, o ápice dramático é trabalhado com criatividade pelo filme quando abordado por meio de elementos fantásticos, que materializam, e intensificam, juntamente à caprichada trilha sonora assinada por Max Richter, a dor de Agnes frente à perda de um filho. A cumplicidade que se estabelece nas relações familiares, sobretudo entre os gêmeos, é crucial para que se faça o espectador sentir aquilo que acontece, o peso do ambiente, e a dor sentida pelos personagens, mães, pais, irmãos e avós, com a perda de um membro.
Os sentimentos, então, se transformam novamente nos instantes finais, através da homenagem realizada no palco do teatro. O ápice do filme, construído milimetricamente para culminar no desfecho emotivo, amarrando todas as pontas, tem seus sentimentos sintetizados pela excelente atuação de Jessie Buckley na pele de Agnes, a partir do transtorno, da tristeza e da dor convertidas em uma grande surpresa. É quando Paul Mescal, cuja proposital ausência no decorrer da narrativa é sentida, igualmente demonstra o luto do personagem à própria maneira, na profundidade de seus olhos e nos arrependimentos enquanto um pai pouco presente, convertendo essa dor em uma força para a escrita de uma de suas maiores peças, na qual faz uma homenagem póstuma ao filho.
E ainda que Hamnet seja um filme dotado de beleza singular, especialmente pela direção de Chloé Zhao e seu característico estilo observador, por vezes senti, e ainda sinto, que se trata este do “Oscar bait” que deu certo na temporada. Não que seja algo ruim, até porque tal enquadramento não mede a qualidade de um filme, mas por vezes soa como um filme óbvio demais até mesmo para a própria diretora. Ainda que exista preocupação com a decupagem, a aproximação da câmera e a cumplicidade com o espectador, fala-se de um filme muito “quadrado” na maneira de conduzir o drama por meios intimistas, que as vezes se estende em demasia, a fim de dar ênfase às atuações, manejadas mais ou menos à maneira como a Academia costuma prestigiar. Não é algo que tire méritos do filme – até porque todos os anos muitos outros tentam, e alguns mal chegam perto de conseguir algo –, mas parece jogar demais no seguro, mesmo que saiba onde e como pretende chegar em seus destinos. Hamnet é belo e capaz de emocionar, mas poderia tentar ir além de apenas um drama intimista com a face do cinema norte-americano.
Avaliação: 3.5/5
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025)
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O'Farrell, adaptado de Maggie O'Farrell (livro)
Gênero: Drama
Origem: EUA, Reino Unido
Duração: 125 minutos (2h05)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI.





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