CRÍTICA | Marty Supreme, de Josh Safdie (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- 12 de jan.
- 5 min de leitura
Josh Safdie articula Marty Supreme no entorno de desconstruções, tanto do gênero biográfico quanto do próprio personagem, em uma das melhores atuações de Timothée Chalamet até então.

É muito interessante pensar que os irmãos Josh e Benny Safdie, após anos trabalhando juntos, e consolidando-se com pelo menos dois grandes filmes de sucesso, que os colocaram no radar de muitos e firmaram um estilo claustrofóbico e provocativo muito próprio, decidiram, ao menos por ora, se separar para dar asas aos próprios projetos. Curiosamente, ambos lançaram, em um mesmo ano, duas cinebiografias esportivas, que, cada qual à sua maneira, reconstrói convenções do gênero, e nunca se deixa cair no lugar comum ao explorar seus personagens pelas características humanas que os define.
Benny, que também vem dedicando atenção à carreira como ator, ajudou Dwayne Johnson a sair da zona de conforto em The Smashing Machine, e ainda que seguindo quase à risca as convenções do gênero, esquivou-se das tradicionais biografias “chapa-branca” ao adentrar-se nas vulnerabilidades de Mark Kerr como campeão de UFC, extrapolando do recorte profissional para sua vida conjugal, em meio ao relacionamento tóxico e vícios que superou no decorrer dos anos.
Já Josh Safdie, por sua vez, propõe algo diferente de Benny, ao experimentar uma mescla de cinebiografia com o estilo de thriller que o consolidou, junto do irmão, em Bom Comportamento e Joias Brutas. Reunindo quase a mesma equipe de profissionais, e baseando o protagonista Marty Mauser no campeão de tênis de mesa Marty Reisman, o cineasta, em Marty Supreme, explora elementos de similaridade entre os dois – como as conquistas em campeonatos, a personalidade narcisista, e até mesmo a história de seu amigo e agente, sobrevivente do Holocausto –, ao mesmo tempo que constrói Mauser como um sujeito que confunde a ambição com a sua arrogância e o ar detestável, tentando crescer em cima de todos para alavancar a própria carreira.
A bem da verdade, Marty Supreme encontra diversão ao transitar habilmente entre suas duas propostas centrais, na medida em que, ao longo de seus instantes iniciais, parece caminhar na direção própria de uma biografia, sem nos deixar notar uma série de elementos que insere disfarçadamente para serem reaproveitados posteriormente. Enquanto Marty vende sapatos e treina tênis de mesa nas horas vagas, e pouco depois vai para a Inglaterra disputar o campeonato mundial, questões como o dinheiro na loja, a ideias das bolas em cor laranja, e não branca, ou a reclamação do hotel em que ficou na viagem, que num primeiro momento parecem demonstrar ambição e a luta por algo, posteriormente se voltam contra o próprio personagem quando sua vida começa a desmoronar perante a si, diante das escolhas questionáveis que fizera – não necessariamente “o que”, porém “como”.
Se talvez, em um primeiro momento, o enxergamos como alguém verdadeiramente ambicioso, e disposto a correr atrás dos próprios sonhos, como sempre costuma dizer para qualquer pessoa disposta a trocar palavras com ele, o roteiro de Josh Safdie e Ronald Bronstein faz questão de desconstruir essa ideia na medida em que nos aproximamos – literalmente – do protagonista. Quando o caos assume as rédeas da narrativa, torna-se um thriller de corpo e alma, e enxergamos a verdadeira face de Marty como uma pessoa incapaz de se sustentar sem pensar impulsivamente, sempre a buscar por atalhos no caminho seguido e querer tudo de mão beijada, se aproveitando dos outros para seus próprios interesses, como um sujeito manipulador e dissimulado, a direção de Safdie torna-se claustrofóbica em seus planos fechados no rosto de Marty, no suor frio das enrascadas, e na própria maneira como articula sua mise-en-scène jogando os efeitos de suas próprias escolhas contra si. É o caso das bolas laranja, por exemplo; ou mesmo do cachorro, e tantos outros elementos que representam, paulatinamente, a derrocada do personagem, motivada primordialmente pela péssima personalidade arrogante que demonstra.
E diferentemente da abordagem anterior com o personagem de Adam Sandler em Joias Brutas, por exemplo, como um homem de coração bom, mas repleto de vícios e perdido no mar do desastre financeiro que tornara a própria vida, a ingenuidade existente em Marty é autoconsciente, refletindo suas tentativas de contorná-la através de jogadas maliciosas, mescladas com seu ar narcisista e manipulador, pautada essencialmente em um sonho que, por culpa própria, se torna cada vez mais inalcançável.
O tênis de mesa, por sua vez, se encontra a todo tempo no entorno do protagonista, em sua fala, pensamentos e objetivos, ainda que nem sempre a frente da câmera. Isso não significa, porém, que não assume o protagonismo junto de Marty, especialmente diante de momentos nos quais o desfecho de um jogo pode se tornar decisivo para o decorrer da trajetória do personagem, decupados certeiramente pela direção, e igualmente bem construído na montagem de forma a gerar tensão, sobretudo na reta final, como em um bom drama esportivo.
Para muito além da excelência do trabalho desempenhado por Josh Safdie enquanto diretor, diante de suas escolhas formais, a interpretação de Timothée Chalamet é certamente o maior ponto alto de Marty Supreme (tal como Dwayne Johnson no recente filme de Benny Safdie, e também Adam Sandler no último longa da dupla). Deixando um pouco de lado a face amigável que o consagrou em outros projetos, Chalamet abraça de boa vontade o aspecto detestável de seu protagonista, que, usando de seu charme, atua como uma espécie de doença por onde quer que passe, contaminando as vidas de todos aqueles ao seu redor. Em se tratando de uma pessoa nada disposta a mudar – e quem sabe até incapaz disso –, mas, pelo contrário, interessado em manter esse ar de arrogância e tentando sair na vantagem a qualquer custo, a maior punição que sofre o personagem ao longo de toda a sua jornada talvez resida no fato de viver preso a si ao longo de toda a vida. Mesmo que eventualmente saia vitorioso de algumas situações, não demora a entrar em outras, e quem sabe até mesmo em atrair pessoas semelhantes, provando, assim, do próprio veneno. E essa expectativa sobre o como sairá das enrascadas é parte da força motriz de Marty Supreme, que nos faz olhar para nosso protagonista com certo encanto por seu aspecto charmoso, mas igualmente incomodados com suas atitudes, em um sentimento ambíguo que apenas cresce a cada minuto, capaz de nos deixar sem saber se torcemos contra ou a favor dele.
Dessa maneira, ainda que bastante agitado e claustrofóbico, mantendo um aspecto “atiçador de ansiedade”, Marty Supreme diminui um pouco o ritmo comparado aos demais projetos do cineasta, mas não de maneira ruim. Ao mesclar-se com uma proposta “biográfica”, se diverte subvertendo a linguagem do gênero a partir da ambiguidade que oferece quanto a atração do público pelo protagonista, reforçado pela excelente atuação de Chalamet, ao passo que, de maneira bem-humorada, também oferece um retrato curioso de uma sociedade norte-americana em meados da década de 50, nas quais o racismo e o próprio antissemitismo eram normalizados. É um projeto tão ambicioso quanto diz ser seu protagonista, promovendo desconstruções na linguagem cinematográfica e no seu personagem como forma de encontrar a própria identidade em uma imensidão de filmes similares e “quadrados”.
Avaliação: 4.5/5
Marty Supreme (Idem, 2025)
Direção: Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein
Gênero: Drama, Thriller
Origem: EUA, Finlândia
Duração: 149 minutos (2h29)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Na década de 1950, o jovem Marty Mouser persegue o sonho de se tornar o maior campeão de tênis de mesa de todos os tempos, e nada o irá impedir de rumar ao estrelato, custe o que custar.





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