CRÍTICA | Avatar: Fogo e Cinzas, de James Cameron (Avatar: Fire and Ash, 2025)
- Henrique Debski
- há 5 dias
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James Cameron deixa uma falsa sensação de encerramento em Avatar: Fogo e Cinzas, que continua a impressionar pela beleza do visual, mas apenas recicla ideias e passagens dos filmes anteriores, andando em círculos, sem quase nada de novo a contar ou dizer.

Já não é a primeira vez que admito, na contramão de muitos, não ser fã de Avatar. Lembro-me de assistir ao primeiro longa no cinema, ainda quando criança, no longínquo ano de 2009, e de um certo sentimento de tédio naquelas quase três horas de projeção. Fato é que, de lá para cá, além do natural amadurecimento (eu ainda era criança quando assisti ao primeiro, e já era adulto quando assisti ao segundo filme), meus gostos também mudaram. Ao longo dos anos, tornei-me fã de fantasia e ficção-científica – o que quase abominava quando criança –, e passei a compreender um pouco melhor todo o apelo pela revolução que James Cameron buscava, e ainda busca, com sua franquia.
No entanto, a investida que fiz no segundo filme, Avatar: O Caminho da Água, que assisti em janeiro/2023, não foi capaz de tornar-me fã do universo de Pandora. Não nego que, ao longo das três horas, meus olhos brilharam pela beleza do visual, da qualidade dos efeitos e até da maneira como o diretor demonstra carinho e crença naquele mundo enquanto o explora, o que de certa forma me deixou entretido. Mas a história ainda não foi capaz de me envolver, e aos poucos foi-se tornando cansativa enquanto não mais que replicava ideias do primeiro filme, e de tantos outros do gênero, embebidos naquela revolução imagética, de coração ordinário.
O terceiro filme, Avatar: Fogo e Cinzas, por sua vez, enfrentava, no decorrer de sua duração, mais um desafio. Se o segundo poderia se beneficiar do espaço de treze anos que o separava do primeiro, e assim propor um grande aprimoramento – e quem sabe, experimentação visual, por assim dizer – em relação ao anterior, de um projeto desenvolvido ao longo de mais de uma década, esta terceira entrada, apenas três anos depois, já não contava com isso, afinal, a beleza visual, ainda encantadora, segue a mesma. E na mesma esteira de ideias, se o visual e o explorar de Pandora se consagrava como o principal de O Caminho da Água, este novo pouco tem mais a oferecer nesse sentido.
Na verdade, trata-se de mais uma enorme reciclagem de ideias já apresentadas no primeiro longa e igualmente replicadas no segundo. São basicamente os mesmos dilemas, as mesmas batalhas, os mesmos valores, referentes à defesa de Pandora do mundo humano, das mãos da exploração e de uma colonização visando a destruição do planeta, defendidos novamente pelos mesmos personagens, em uma narrativa que facilmente poderia se resolver mais depressa caso houvessem menos arcos secundários e histórias paralelas se estabelecendo para culminar em uma grande sequência final de ação, a qual seria, segundo o próprio diretor, uma espécie de “fim de uma era no universo de Avatar”.
Acontece que nada se parece como uma batalha final – ou mesmo um fim propriamente. Talvez justamente pela pouca diferença em relação ao segundo filme, que também prepara terreno ao longo de duas horas e meia para um grande desfecho, a fórmula se encontre desgastada quando mesmo pouco de novo se traz para essa continuação. Na verdade, todos os arcos centrais, voltados em Jake Sully, Spider e o Coronel Quaritch, são precisamente o que salvam esta terceira entrada de não ser apenas uma espécie de cópia do segundo.
É muito curiosa a maneira como, durante a jornada, Quaritch, vivido por Stephen Lang, sofre de uma crise de propósito em relação às próprias intenções. Seus objetivos enquanto militar, trabalhando para o exército na Terra, pouco a pouco se misturam à vingança pessoal contra Jake, e sentimentos ambíguos quanto à Spider, seu filho, mas também uma cobaia capaz de ajudar em seus objetivos colonizadores (personagem este infelizmente vivido com pouca emoção por Jack Champion, pelo excesso de tela azul e artificialidade dos sets, ou talvez por ser ainda muito jovem, e pouco experiente durante as filmagens, que podem ter acontecido em diferentes momentos no intervalo de dez anos). Quanto menos respeito recebe da general, dentro da base, e mais afeto cria – e resiste ao sentimento, em vão – em relação à Pandora, mais confusos se tornam os pensamentos do coronel, ainda mais quando se apaixona por Varang, líder de uma tribo Na’vi de saqueadores hostis, vivida por Oona Chaplin, a maior surpresa do filme.
É uma pena, no entanto, que pouco dessa tribo acabe sendo explorado no decorrer da narrativa, senão tão somente o suficiente para que auxiliem os humanos em seus objetivos, na troca de armas de fogo, que enxergam como “fazer trovão”, em uma interessante percepção dos instrumentos por eles desconhecidos. James Cameron, e os demais roteiristas (que são muitos, por sinal), a escanteiam de forma a focar em outros personagens e arcos nesse primeiro momento, sem perceber que talvez o potencial de diferença deste para os demais longas residisse justamente nesta tribo, e nesta personagem, cuja presença em tela, apesar de seu pouco tempo, é o mais marcante da experiência de Fogo e Cinzas, cujo título inclusive recebe menção a si, possivelmente com a intenção de explorá-la posteriormente nas próximas entradas.
Dessa maneira, Avatar: Fogo e Cinzas mais recicla ideias em seus quase duzentos minutos de duração do que efetivamente se dedica a explorar o mundo de Pandora, e os dilemas da nova tribo antagonista. Parece exatamente o mesmo filme sendo visto novamente, com as mesmas ideias, e uma falsa sensação de encerramento e desfecho que, no fundo, pouco faz diferença para a sequência que está por vir. Ainda que visualmente elegante, e de encher os olhos, é de se apreciar a experimentação de Cameron na integração entre sequências praticamente animadas com live-action, e até nas mudanças da taxa de quadros entre as cenas, mas não deixa de ser um filme vazio, se parecendo com um grande jogo de PS5 para ser visto nos cinemas, sem a parte da gameplay. É divertido, um bom entretenimento, e um baita blockbuster de proporções monumentais, mas ainda menos do que o anterior, pouco tem a dizer de verdade, que não seja óbvio demais, ou que já não tenha sido dito nos dois filmes anteriores.
Avaliação: 3/5
Avatar: Fogo e Cinzas (Avatar: Fire and Ash, 2025)
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver, Josh Friedman e Shane Salerno
Gênero: Ação, Aventura, Ficção-científica
Origem: EUA, Canadá
Duração: 197 minutos (3h17)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Após a devastadora guerra contra a RDA e a perda de seu filho mais velho, Jake Sully e Neytiri enfrentam uma nova ameaça em Pandora: o Povo das Cinzas, uma tribo Na'vi violenta e sedenta por poder, liderada pela implacável Varang. A família de Jake deve lutar por sua sobrevivência e pelo futuro de Pandora em um conflito que os leva aos seus limites físicos e emocionais.

