top of page

CRÍTICA | Arco, de Ugo Bienvenu (Idem, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 11 horas
  • 4 min de leitura

Arco compreende que o amor está na felicidade do outro, e constrói uma jornada de romance e aventura entre dois tempos futuros, com encantamento no visual e, sobretudo, nos personagens que se completam como duas faces de uma mesma moeda.


 

No passado, imaginávamos que o nosso presente, 2026, seria tomado por cidades verticais, carros voadores, teletransporte e outras tantas tecnologias que o mundo do século XX sonhava. Na prática, em alguns aspectos até avançamos a contento da fantasia, com a criação das videochamadas, máquinas operadas remotamente, drones, e até alguns veículos que já andam sem necessariamente precisar de um condutor. No entanto, ainda estamos um pouco longes daquilo que Os Jetsons ou De Volta para o Futuro 2 chegaram a prever em seus respectivos tempos.

 

Na animação Arco, por sua vez, assistimos ao presente fantasiando soluções para o futuro. E na falta de apenas um tempo, o filme reflete acerca de dois momentos distintos, interconectados a partir de uma paixão juvenil, mas extremamente poderosa como um laço de amor verdadeiro.

 

Na superfície, o longa de fato se parece com uma animação genérica, se aproveitando, num primeiro momento, de fórmulas e escolhas narrativas trabalhadas por diversas vezes em centenas de filmes, de uma forma até mesmo protocolar. É a figura da criança, quase adolescente, Arco, que opta por desrespeitar os pais para embarcar em uma jornada voando através dos tempos, porquanto vestido com uma roupa especial, em formato de arco-íris, que o permite viajar no tempo e visitar diferentes épocas, enquanto vive em grandes plataformas sob os céus. Mas quando, por inexperiência, acaba perdendo o equilíbrio, cai por acidente no quintal de uma garota, Iris, de pais distantes, sempre a trabalhar, que deseja uma grande mudança que a possa tirar da rotina entediante na qual vive, praticamente sozinha, a não ser por um robô.

 

Em ambos os casos, trata-se de jovens de idades semelhantes que vivem em futuros distantes, que compartilham entre si de uma poderosa conexão, da qual aos poucos se dão conta, no descobrimento dos sentimentos de um primeiro amor – e talvez, no caso deles, o verdadeiro. O estabelecimento de cada personagem, ainda que pareça óbvio em sua maneira de ser, serve como forma de posicionar as antíteses de suas rotinas, núcleos familiares e incômodos do dia a dia. Se, por um lado, Arco se sente excessivamente sufocado pela união familiar, Iris sente falta dessa presença em sua vida, na qual um robô assume tal função, essencialmente, já que seus pais estão sempre viajando a trabalho.

 

Essa diferença que existe entre as vidas de cada um se choca após o encontro, e o encantamento de um pelo outro que surge por meio do compartilhamento de suas experiências em vida. Na medida em que conversam, o pano de fundo futurista vai, constantemente, perdendo a importância em favor do amor que os personagens demonstram um pelo outro.

 

A presença de um estranho grupo de caçadores de arco-íris, apresentados como antagonistas desastrados, é apenas um dos elementos que posicionam a urgência na narrativa, ao decidir, como missão, focar no retorno de Arco para casa com a ajuda de Iris. A sociedade incapaz de acreditar na palavra de crianças, ainda que os serviços básicos sejam compostos por robôs, e o problema dos constantes incêndios florestais alavancam o senso de perigo, e lavam a história contada a subversões daquilo que inicialmente se havia proposto.

 

A introdução de aspecto genérico vai se desconstruindo pela história de amor, a força motriz que plenamente justifica a existência da aventura, e da união entre os personagens. É tamanha a sensibilidade que o longa demonstra plena consciência das idades de seus protagonistas, e os constrói de maneira correspondente, comportando-se como crianças, amadurecendo, e demonstrando os sentimentos existentes um pelo outro para muito além do contato físico, que pouco cabe no contexto, cedendo espaço às ações e atitudes de preocupação de um para com o outro, e nas trocas de olhares.

 

No desfecho, as soluções, ainda que não completamente originais ou inovadoras, surpreendem pela mudança de direcionamento, maturidade nas escolhas dos protagonistas, e especialmente pela maneira como amarram todas as ideias apresentadas entre os dois universos, e suas respectivas formas de vida e tecnologias.

 

A nítida inspiração da direção de Ugo Bienvenu pelas produções dos estúdios Ghibli, e especialmente o cinema de Hayao Miyazaki, se manifesta nas decisões criativas, do traço da animação aos universos coloridos, cujos elementos de fantasia e ficção-científica brilham diante dos olhos do espectador, em uma espécie de encantamento bilateral, compartilhada, para além de nós, também pelo próprio cineasta, na crença sobre tudo aquilo em que se debruça a criar.

 

E dessa maneira, Arco por inúmeras oportunidades encanta pela forma como aos poucos se esquiva da obviedade com a qual se introduz, em uma jornada cuja ação, aventura ou os elementos de ficção são secundários diante da história de romance que se constrói no centro da tela, na qual o amor se faz presente no cuidar e, sobretudo, na felicidade do outro, como bem é dito em determinado momento. É um filme bastante maduro no retrato de seus personagens crianças, e profundo na maneira como acaba discorrendo sobre o que de fato significa amar.

 

Avaliação: 4/5

 

Arco (Idem, 2025)

Direção: Ugo Bienvenu

Roteiro: Ugo Bienvenu e Félix de Givry

Gênero: Drama, Romance, Aventura, Animação

Origem: França, EUA, Reino Unido

Duração: 89 minutos (1h29)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Em um futuro distante e idílico, a humanidade detém o poder da viagem no tempo com trajes coloridos que projetam no céu um rastro de luz do arco-íris. Embora seja muito jovem para se aventurar nessas jornadas, o impaciente Arco foge sozinho – apenas para se ver preso no ano de 2075, em um mundo mais perigoso que o seu. Felizmente, Iris, de dez anos, vê o misterioso garoto cair do céu e, com a ajuda de seu robô cuidador, eles embarcam em uma comovente odisseia para levar Arco de volta para casa.

Comentários


© 2024 por Henrique Debski/Cineolhar - Criado com Wix.com

bottom of page