CRÍTICA | Socorro!, de Sam Raimi (Send Help, 2026)
- Henrique Debski
- há 21 horas
- 5 min de leitura
Socorro! marca o retorno de Sam Raimi ao thriller e terror, com os melhores elementos de seu cinema, em sátira às fragilidades do desgastante ambiente corporativo.

Há quase dois anos, recordo-me de duas experiências quase catastróficas em um mesmo cinema de shopping, com Um Lugar Silencioso: Dia Um, e Alien: Romulus. Não em razão dos filmes, ambos excelentes, mas do espaço físico da sala de cinema. Relativamente preenchidas, até para menos, no segundo caso, tive o desprazer de me sentar no entorno de pessoas que não tinham noção de comportamento no local. Não era uma questão de desconhecimento das regras básicas de convivência em uma sala de cinema, mas opção ou costume, possivelmente potencializado pelo momento pós-pandêmico, de comentar cada cena, cada linha de diálogo, de prever o filme a cada atitude tomada pelos personagens. Foram sessões desgastantes, pois tudo o que não gostaria era de tagarelas de plantão ao meu redor, como se estivesse pagando por uma sessão comentada por pessoas aleatórias.
Pois bem, contei toda essa história para chegar à sessão de Socorro!, neste mesmo cinema de shopping – e até na mesma sala de um desses filmes. Por incrível que pareça, minha experiência, dessa vez, foi contrária. Não sei se em razão do horário, ou mesmo do filme, relativamente pouco divulgado, talvez tenha sido uma das mais divertidas sessões de cinema dos últimos meses. As reações, pontuais, condizentes com o filme; sem comentários ou voz alheia: apenas sustos ou risadas, em uma perfeita sintonia. Seriam todas as pessoas fãs ou conhecedoras do cinema de Sam Raimi, cientes e prontas para o que encontrariam com o filme no decorrer da sessão?
Ainda que descrito pelos próprios realizadores como uma espécie de mistura entre Louca Obsessão (1990) e O Naufrago (2000), parece-me que a verdadeira inspiração, na verdade, está alguns anos à frente: éTriângulo da Tristeza (2022). Ainda que nem Raimi ou os roteiristas Damian Shannon e Mark Swift tenham mencionado o longa de Ruben Östlund, as referências à segunda parte do vencedor da Palma de Ouro em Cannes 22 são mais do que claras. O diferencial reside no fato de que, enquanto o cineasta sueco dedicou apenas uma menor parte de seu tempo daquele filme a explorar uma inversão de “classes” entre os personagens em uma ilha deserta, Socorro! usa dessa proposta como o centro de sua narrativa, em um thriller satírico, de forte pé no terror.
Em Socorro!, após um acidente de avião numa viagem de negócios, um patrão e uma funcionária ficam presos em uma ilha deserta, como náufragos, invertendo-se os papéis em nome da sobrevivência. O longa é muito habilidoso pela maneira como articula todo um estabelecimento prévio, para motivar de forma mais contundente o drama construído a partir da situação extrema. A transição na liderança da empresa, passada do falecido pai ao filho mimado, e a promessa do antigo chefe de uma promoção à protagonista motivam um espaço de discussões mais acaloradas nos momentos que antecedem à viagem fracassada. Soma-se isso a um atrito dado entre a dupla no ambiente corporativo, e a demonstração dos conhecimentos da personagem em sobrevivência básica antes do acidente, quando caçoada, como indícios perfeitos de tudo o que está por vir em seguida.
No decorrer do conflito, assistimos toda a imagem construída sobre a personagem de Rachel McAdams se desconstruir, na medida em que a conhecemos, aparentemente, não apenas como uma pessoa bem-intencionada, mas sem tanto tino social, como também alguém que carrega certos traumas da vida. No entanto, essa desconstrução, eventualmente, sofre outro processo, na medida em que a situação extrema começa a se estender mais do que o esperado, revelando uma outra fase da utopia na qual passa a viver. Ao mesmo tempo, o personagem de Dylan O’Brien, antes um homem odioso, também começa a ser visto como alguém mais do que apenas um chefe babaca, e herdeiro de um império industrial, mesmo que permaneça um sujeito patético, o que a ótima composição do ator faz questão de manter em alerta a todo tempo.
Os elementos típicos do estilo de Sam Raimi, dessa maneira, se encontram mais que presentes no decorrer de Socorro!, esses oriundos de seus melhores projetos, tais como Evil Dead e Arraste-me Para o Inferno, na forma de um humor escrachado, e por vezes absurdo, tal como no excesso da violência. Às vezes, porém, passa um pouco do ponto, sobretudo com a inserção de alguns jumpscares baratos – ainda mais em uma sequência de sonho –, mas que ao menos fazem rir com o pulo que damos na poltrona.
A questão primordial é que, talvez, o excesso de inspiração em Triangulo da Tristeza faça com que o longa perca suas surpresas. Não pelas referencias visuais que insere no desenrolar do filme – com até mesmo reproduções, a seu próprio estilo, de planos similares, ainda que com a montagem voltada a um tom menos formalista -, mas pela forma como reaproveita até mesmo a reviravolta, o que torna Socorro! um filme menos criativo do que poderia, e pede para ser. Parece, às vezes, faltar coragem para sair da cartilha, tentar algo novo, ou pelo menos não abusar (tanto) da suspensão da descrença, como acaba por acontecer, ao ignorar detalhes básicos, que facilmente seriam encontrados em uma investigação.
Ainda assim, Socorro! é um filme extremamente divertido – isso não há como discutir. Trazendo Sam Raimi de volta ao terror após mais de uma década, e com ampla liberdade criativa (o que não deteve completamente em seu projeto anterior, na Marvel), ficamos diante de uma narrativa que, até certo ponto, pode caminhar para qualquer lado. A dinâmica entre Rachel McAdams, sempre excelente, e Dylan O’Brien não só funciona pela química existente entre os atores, como também pelo conforto em incorporar os arquétipos que interpretam, abraçando a ideia de uma proximidade antagônica, e uma inversão de posições sociais, cada vez mais a beira do esgotamento, em uma ótima alusão ao desgaste do ambiente corporativo, em sua mais brutal selvageria. É um daqueles filmes que prendem o espectador, seja pela tensão no ar a todo instante, ou pela imprevisibilidade, que muito bem reina até o terceiro ato. No mais, é muito bom termos Sam Raimi de volta à ativa, em um thriller de terror cômico como Socorro!, retrabalhando o que há de melhor em seu cinema.
Avaliação: 3.5/5
Socorro! (Send Help, 2026)
Direção: Sam Raimi
Roteiro: Damian Shannon e Mark Swift
Gênero: Thriller, Terror, Comédia
Origem: EUA
Duração: 113 minutos (1h53)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Após um acidente aéreo, um chefe e uma funcionária que se odeiam são os únicos sobreviventes. Isolados numa ilha deserta, eles precisam decidir se cooperam ou competem para escapar, mas é difícil deixar para trás os conflitos do escritório.

