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CRÍTICA | O Som da Morte, de Corin Hardy (Whistle, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 10 horas
  • 4 min de leitura

O Som da Morte nem se esforça para esconder a fórmula, em terror de maldição genérico e pouco confiável, na medida em que muda as regras de sua mitologia constantemente, apenas porque constrói situações que não consegue resolver.


 

Quase todos os anos, é praticamente certo que em alguma oportunidade assistiremos a uma produção de terror com a temática de maldição. Junto do tema, costumam também acompanhar as fórmulas batidas do subgênero (normalmente objetos amaldiçoados; com um “encantamento” proferido por acidente, em momento de descontração e descrença por personagens bebendo e zombando de antigos rituais; e uma entidade vingativa que caça um a um dos envolvidos em seguida, até que alguém consiga evitar, ou passar o problema adiante), ainda mais quando fáceis de serem aplicadas, em roteiros que não exigem tanta criatividade ou mesmo complexidade, mas apenas uma história de fundo e elementos básicos para tornar-se, ao menos, funcional, a ponto de atrair certo público às salas de cinema para tomar sustos e assistir algumas mortes, em projetos de orçamento modesto e alta chance de um mínimo retorno financeiro.

 

Ainda que alguns longas escapem à obviedade, por construir suas ideias com originalidade – vide Premonição (2000) e O Chamado (dois dos precursores da fórmula), e os mais recentes Corrente do Mal (2014), Sorria (2022) e Fale Comigo (2023) –, a imensa maioria recai tão somente no que há de mais genérico e sem alma – é só ver projetos como Polaroid (2019), A Hora da Sua Morte (2020), O Meme do Mal (2022), Oferenda ao Demônio (2023) e por aí vai, que não conseguem nada além de atingir a extrema obviedade.

 

Pelas mãos de Corin Hardy (do desastroso A Freira, parte do “Invocaverso”), O Som da Morte não se esforça para disfarçar o quanto se escora naquela velha cartilha, reciclando as fórmulas de inúmeras outras produções. O roteiro de Owen Egerton é preguiçoso ao ponto de se iniciar com o prólogo de uma vítima desesperada da maldição, pouco lembrada nos momentos posteriores da narrativa, servindo apenas como um demonstrativo de praticamente tudo o que pode se esperar nos próximos noventa minutos de duração, porquanto os ataques se repetem através de uma mesma sequência de passos e assombrações.

 

A protagonista, por sua vez, é introduzida e explorada meramente por meio de diálogos expositivos nos momentos introdutórios, com informações suficientes para explicar a razão pela qual o objeto amaldiçoado cairá em suas mãos. Pouco há de preocupação em aprofundar seu passado, senão com explicações para seu estado de luto e vulnerabilidade através de conversas e desabafos com pessoas das quais mal conhece – e nem Dafne Keen consegue dar personalidade a uma personagem tão genérica –, e a apresentação de um “grupo de amigos” que não nutrem qualquer química ou sugerem uma demonstração de intimidade entre si, senão vendidos pelo texto somente como adolescentes inconsequentes que pagarão pela falta de cuidado.

 

Com uma dinâmica e mitologia que se inspira na relação de Premonição com a figura invisível da Morte, o longa busca por uma disrupção ao materializar a ameaça a partir de uma justificativa até criativa, mas apresentada de maneira pouco clara e menos ainda inventiva pelo texto, na medida em que se ancora em alguém que conhece da maldição, e entrega de maneira clara as possíveis soluções à problemática (diferente do legista da franquia mencionada, por exemplo, que escondia seus conselhos por detrás de frases enigmáticas, quase no formato de uma provocação direcionada ao espectador). Ainda assim, ao menos funcionariam bem as possibilidades sugeridas se o filme, por outro lado, não abandonasse as próprias regras quando se sente preso por problemáticas que criou por conta própria, e precisa sair pela tangente para se encerrar, trapaceando tal como um jogador de videogame impaciente que não consegue passar de determinada fase no jogo, e resolve ativar um código de “vida infinita” ou algo do tipo.

 

Com isso, fica difícil de confiar em uma obra que não cumpre as promessas que faz ao espectador, ao aleatoriamente mudar suas regras com inconstância, apenas porque sua situação ficou difícil de resolver, e por culpa própria. Todo o arco do jovem pastor, por exemplo, é algo abandonado dentro do filme, como uma crítica à religião e à fé que pouco diz respeito à temática abordada, e serve apenas como uma fuga ao desfecho padrão, recheado por uma enorme dose de suspensão da descrença – e talvez sirva tão somente para acrescentar um personagem excêntrico, bem na pele de Percy Haynes-White, ainda que mal aproveitado.

 

A direção também se atrapalha enquanto tenta construir uma atmosfera de tensão à narrativa. Os sustos típicos mal fazem efeito porquanto previsíveis, e embora algumas mortes violentas e exageradas até sejam divertidas, e acompanhadas por uma trilha musical inspirada, o excesso de cortes da montagem desvia de seus momentos mais explícitos (ainda que alta a classificação indicativa), enquanto outras são prejudicadas por uma baixa qualidade do trabalho gráfico (como o fogo e o bonecão digital, já no prólogo).

 

Assim, O Som da Morte aos poucos provoca um afastamento e conquista a antipatia do espectador na medida em que prova não se importar com aquilo que já pouco constrói. Ao desrespeitar as regras que estabelece, e já desde cedo nada de novo propor, pouco sobra de um filme incapaz de se esforçar para ser diferente de tantos outros, reciclando a mesma fórmula pela milésima vez, levando exageradamente a sério todas as suas situações inverossímeis, e personagens unidimensionais. Se ao menos assumisse um aspecto de paródia, ou demonstrasse autoconsciência para não se levar a sério, quem sabe pudesse ser mais interessante, ainda que minimamente divertido.

 

Avaliação: 1.5/5

 

O Som da Morte (Whistle, 2025)

Direção: Corin Hardy

Roteiro: Owen Egerton

Gênero: Terror, Thriller

Origem: Canadá, Irlanda

Duração: 100 minutos (1h40)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Um grupo de estudantes do ensino médio se depara com um antigo apito asteca. Eles descobrem que, ao soarem o apito e ouvirem o som aterrorizante que emite, suas mortes os assombrarão.

 
 
 

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