CRÍTICA | Juntos, de Michael Shanks (Together, 2025)
- Henrique Debski

- 18 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Tímido no terror, a originalidade de Juntos morre na proposta, em meio a uma narrativa que começa promissora, mas toma caminhos cada vez mais genéricos.

Desde sua première no Festival de Sundance, no início do ano, confesso que estava bem curioso para assistir a Juntos. Em partes, pela aclamação, que sempre desperta algum interesse e, talvez, expectativa (ainda que eu a evite ao máximo, como há anos me ensina o amigo e professor Marcio Sallem); e pelo próprio protagonismo, assumido pelo casal Dave Franco e Alison Brie. Acontece que a cada ano que passa, talvez pela quantidade de filmes que assisto – para escrever, conhecer/estudar cinema, e primordialmente, me divertir – creio que esteja ficando um pouco... chato.
Ao término da projeção, o maior sentimento que se manifestou em minha pessoa no tocante ao filme foi de uma grande dúvida em relação ao alvoroço que causou no festival. Pois apesar de sua premissa interessantíssima, e do próprio material de divulgação, agoniante, parece que o filme tem muito pouco a oferecer enquanto cinema de gênero – e especialmente, body horror (ou terror corporal) –; em relação à discussão sobre dependência emocional e reconciliação; e, ainda, além do fraco desenvolvimento, falta originalidade para trabalhar tudo isso.
O que não falta ao presente filme é uma boa ideia, enquanto Juntos nos coloca diante de um casal em nítida crise. Tomando um passo importante para a vida em conjunto, ao se mudarem para uma pequena cidade no interior dos EUA, existe um notável descompasse entre os interesses e sentimentos compartilhados pelos personagens, depois de uma década em casal. Ao fazerem uma trilha e serem contaminados por algo que não sabem o que é, seus corpos começam a fundir-se.
O roteiro de Michael Shanks é bastante direto no estabelecimento da problemática, e sobretudo óbvio enquanto coloca à mesa os problemas enfrentados pelos personagens em sua vida conjunta. A dependência emocional e até mesmo princípios de depressão se manifestam claramente em um ambiente desgastado pela própria relação, e uma constante falta de diálogo – e maturidade, especialmente do home, enquanto casal. O body horror, em teoria, vem como forma de representar um impulso a reconstrução de uma unicidade na relação, um “nós”, fundamental para que mantenham uma identidade conjunta.
É, de fato, toda uma premissa bastante criativa, mas é nela onde morre toda a originalidade de Juntos. Ao invés de direcionar sua atenção integralmente à resolução da problemática pelas mãos do casal protagonista, a narrativa decide explorar, também, uma mitologia própria, levando a uma investigação cujas respostas chegam muito rapidamente, e, o mais decepcionante, através de um excesso de exposição, em um ato final que emana o que há de mais genérico no cinema de terror norte-americano: um culto religioso, que se manifesta em símbolos desde o início do longa, com indícios para todos os lados.
Se ao menos se restringisse à contextualização, e delegasse as descobertas ao casal, talvez ainda fosse possível de se aproveitar toda a base desenvolvida pela obra, que, ao fim das contas, acaba recaindo naquele típico final sem inspiração, também bastante norte-americano, já visto inúmeras vezes.
É assim que o próprio horror corporal, que deveria ser a alma de Juntos, acaba ficando em segundo plano, enquanto a motivação para o sobrenatural se manifestar se torna mais interessante ao roteiro do que de fato seu desenvolvimento em frente à câmera, e, mais ainda, suas consequências aos personagens. E se não bastasse que Shanks renegasse a melhor parte de seu roteiro em prol de obviedades, seu trabalho como diretor do longa apenas reforça a mediocridade do projeto, na medida em que são poucos os momentos efetivos de terror corporal, espalhados em pequenos momentos ao longo dos cem minutos de filme, e sobretudo, filmados de maneira bastante tímida pelo cineasta, que concentra mais a câmera no olhar dos atores do que efetivamente na violência. Seu momento mais interessante, já quase na reta final, é dotado de um corte abrupto, que interrompe justamente o horror e nos leva direto aos momentos seguintes à ocorrência do ato em si.
Quando assistimos a uma obra com uma proposta como a de Juntos, esperamos também pelo aspecto bizarro que o terror há de nos oferecer. Sem a violência mais explícita, com a qual inclusive o filme se vende, cedendo sempre espaço a uma investigação pouco interessante e muitos contorcionismos (que até são bem legais, admito), mas cortando os momentos mais aflitivos, a obra resta esvaziada, tanto no desenvolvimento do casal, que perde espaço para contextualizações desnecessárias sobre o culto, quanto no próprio terror. O que entristece é que existe muito potencial para o filme, que o mesmo acaba por rejeitar em prol de ideias recicladas de tantos outros projetos norte-americanos, utilizadas e reutilizadas constantemente dentro do gênero todos os anos, desperdiçando, assim, um ótimo casal de atores – inclusive casados na realidade –, cuja química não salva seus personagens excessivamente básicos. E por tudo isso, fico me perguntando sobre a aclamação do filme em Sundance: como algo recheado com um desenvolvimento tão genérico chegou a ser declarado, por muitos, como o “melhor terror do ano”?
Avaliação: 2/5
Juntos (Together, 2025)
Direção: Michael Shanks
Roteiro: Michael Shanks
Gênero: Terror, Thiller, Romance
Origem: EUA, Austrália
Duração: 102 minutos (1h42)
Disponível: Cinemas
Sinopse: A mudança de um casal em crise para uma pequena cidade no interior dos EUA desencadeia um incidente sobrenatural que altera drasticamente o relacionamento, e também suas existências e formas físicas.



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