CRÍTICA | Luta de Classes, de Spike Lee (Highest 2 Lowest, 2025)
- Henrique Debski

- 15 de set. de 2025
- 4 min de leitura
Spike Lee reinterpreta o clássico de Akira Kurosawa sob novos olhares, em um diálogo profundo com seu cinema e a sociedade norte-americana do século XXI.

A notícia de que Spike Lee estava à frente de uma refilmagem de um clássico do cinema asiático deixou a muitos com o pé atrás. Não a toa, porém, já que sua versão de Oldboy (2013), adaptada ao cinema norte-americano do longa sul-coreano de Park-Chan Wook lançado em 2001, ainda que longe de ser terrível, é uma das obras mais frágeis de sua filmografia, esvaziando a metáfora do longa original, e optando por uma abordagem mais violenta graficamente, e menos profunda entre as relações que estabelece – justamente a alma do negócio.
No entanto, as circunstâncias eram diferentes. Trata-se de um filme na qual o cineasta não dispunha de controle criativo, e tão somente limitou-se a adaptar, no que pôde e conseguiu, a obra original, sob uma linguagem mais acessivel aos Estados Unidos. No caso de Highest 2 Lowest (no Brasil, sob o terrível título Luta de Classes), porém, a refilmagem do longa japonês High and Low (Céu e Inferno, no Brasil – um nome interessante e não tão óbvio), de 1962, dirigido pelo mestre Akira Kurosawa, já toma outros rumos enquanto adaptação.
Apesar de desconhecer a obra literária em que se baseia (King’s Ramson, de Ed McBain/Evan Hunter), o roteiro de Alan Fox ao mesmo tempo em que aposta na aproximação para com alguns elementos de Kurosawa compreende, por outro, o abismo que separa os dois filmes. Fala-se de tempos e sociedades distintas, cuja qualquer conciliação, por mais próxima que fosse, seria precedida, de alguma maneira, por enormes diferenças. É sobre o uso da tecnologia, a velocidade da informação, a confiança no trabalho policial, e mesmo a opinião pública, diante da notoriedade tomada pelo caso, e a influência do protagonista em ambos os mundos. Além de tudo isso, ainda existe o principal: a sociedade japonesa de 1962 é completamente distinta da sociedade norte-americana de 2025.
Então, apesar de elementos em comum, tem-se duas obras até difíceis de serem comparadas, entre seus muitos méritos no retrato que oferecem das próprias sociedades. Tendo essa noção em mente, fica claro que o Highest 2 Lowest de Spike Lee é uma adaptação que conversa diretamente com seu cinema militante, e ainda que menos eloquente, oferece mudanças substanciais à narrativa que culminam num terceiro ato completamente distinto, e igualmente poderoso dentro de seu estilo, e como um reflexo dos Estados Unidos contemporâneo.
A obra de Spike Lee nunca abandona o elemento investigativo, chave de Kurosawa, e até mesmo o antecipa, mas delega sua eficácia a outro personagem: o protagonista de Denzel Washington. Como um homem negro que cresceu na zona periférica de Nova York, e aos poucos construiu a própria carreira e patrimônio do zero, com muito trabalho duro, como sempre se reforça ao tratar sobre sua trajetória, David King enxerga a ineficácia de parte do Estado e sobretudo do trabalho policial, burocrático, de métodos falhos, demorados, e até mesmo o próprio preconceito institucionalizado na corporação. A direção deixa muito claro não apenas pelo texto, mas na forma da diferença de tratamento entre King e seu motorista e amigo, vivido por Jeffrey Wright, constantemente subestimado pelos agentes, e agredido psicologicamente, tratado como criminoso por seu passado, quando, no momento, encontra-se como uma das vítimas.
Ao invés de vítimas passivas, o protagonista de Spike Lee é ativo na resolução da problemática em que se encontra. Investiga, quase que por conta própria, o sequestro que envolve sua família, busca pelas razões pessoais do sequestrador, e até o confronta pessoalmente por mais de uma oportunidade, na mesma medida em que a polícia subestima sua capacidade de distinguir uma voz, ou contribuir em uma conversa – quando justamente um dos maiores empresários do ramo da música, e o “homem dos ouvidos de ouro” (ou algo assim).
Existe, de fato, uma luta de classes, não apenas envolvendo o sequestro e suas razões, mas também as diferenças de tratamento das vítimas, por uma questão financeira, em uma violência institucionalizada no próprio Estado. Da mesma forma, o visual de uma Nova York plural, superlotada, também confere força a essa linha de pensamento, entre nacionalidades e descendências distintas festejando o mesmo espaço, trabalhando em conjunto no comércio, e celebrando as próprias origens, ainda que sofram preconceito na dita terra da liberdade.
Existem traços e elementos a todo tempo que evocam com eficácia o cinema militante de Spike Lee, na complexidade que se traz às motivações do antagonista, ao debate acalorado que se constrói ao redor dele, inclusive com o protagonista, e com o uso da trilha musical, e das excelentes faixas originais compostas para a obra; e do próprio aspecto midiático do sequestro, entre o fazer o certo ou se resguardar financeiramente – uma questão moral que acaba colocada em segundo lugar, na medida em que a avareza, pelo contrário, não é uma característica do protagonista. O diretor retrabalha ideias constantemente, e ainda que em muito traga à narrativa a um universo mais norte-americano, e aposte em um thriller mais “seguro” em relação ao seu mistério, é uma readaptação temporal e social que, ao mesmo tempo, abraça e rompe com originalidade em relação à Kurosawa.
Avaliação: 4.5/5
Luta de Classes (Highest 2 Lowest, 2025)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Alan Fox
Gênero: Thriller, Drama
Origem: EUA, Japão
Duração: 133 minutos (2h13)
Disponível: AppleTV+
Sinopse: Quando um poderoso magnata da música é alvo de um sequestro familiar, e é exigido um plano de resgate, ele deve lutar por sua família e legado ao se ver preso em um dilema moral de vida ou morte.



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