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CRÍTICA | Mickey 17, de Bong Joon-ho (Idem, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 10 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

Mickey 17 usa do futuro para fazer alertas ao presente, e debate a função do ser humano na sociedade – seríamos todos descartáveis?


 

Anos após as históricas vitórias de Parasita no Oscar de 2020, esperava-se muito do próximo projeto de Bong Joon-ho, agora mundialmente conhecido e admirado, diante de uma respeitosa carreira na Coréia do Sul, e com seu segundo filme de língua inglesa a caminho. As expectativas estavam nas alturas, e não surpreende que parte da repercussão de Mickey 17 seja dotada de decepção. Realmente, para quem esperava algo no nível de seu filme anterior, ou parecido, pode esquecer – e a comparação em si passa longe de ser justa, vide as gritantes diferenças entre os projetos, sobretudo nas propostas, ainda que encontrem pontos de convergência comuns à filmografia do diretor.

 

Mais do que qualquer outra coisa, Mickey 17 é assumidamente uma distopia. Em meio à ficção científica, e ao universo futurista que propõe, é assustador imaginar a proximidade de seu contexto político-social com a realidade em que vivemos, diante da desconfiança no planeta Terra, no mundo real, e na própria sociedade, ao ponto de se fazer sentir necessária a exploração e colonização de outros planetas. Não apenas pela maneira como estamos cada vez mais próximos de uma solução como essa, acompanha essa ideia a presença de uma liderança definitivamente preconceituosa e rejeitada, na qual parte da humanidade deposita fé, sem talvez nem se dar conta de estarem prestes a repetir os mesmos erros históricos do passado.

 

Toda essa construção, baseada no livro homônimo de Edward Ashton, no entanto, se faz acompanhada de um humor ácido e, a todo tempo, presente, seja na exposição do protagonista acerca da realidade em que vive e de suas explicações para como chegou onde está, em sua vida pregressa, bem como também no desenrolar do tempo presente, sem a necessidade de uma narração por trás, mas construída a partir das relações firmadas entre os personagens.

 

Esse universo, bastante complexo, ainda mais para desenvolver em tão pouco tempo, é muito bem trabalhado pelas mãos de Bong Joon-ho justamente ao utilizar elementos, em geral, batidos, para introduzir seus conceitos básicos, arriscando usar deles com a originalidade que o diferencia como cineasta. A própria narração é um exemplo de recurso, que nas mãos de profissionais pouco experientes, ou não muito talentosos, acaba soando pretensiosa e até contrariando justamente a principal ideia do cinema – o mostrar ao invés do apenas contar verbalmente. É o que funciona aqui. A partir de quando se utiliza dela com sarcasmo para revelar a personalidade de nosso protagonista, crucial para sua trajetória, a exposição, que pode parecer preguiçosa, se torna apenas um auxílio quando o plano da imagem é o prato principal deste banquete.

 

Como uma figura literalmente descartável, conforme é inclusive apelidado, acompanhamos as mais diversas formas de testes às quais Mickey Barnes é submetido, tendo em vista que seu corpo, a cada morte, é impresso novamente, e sua consciência, e vivências, são passadas de um para outro, em um loop interminável de mortes e renascimentos. Acontece que, na contramão da mesmice na qual o longa poderia recair, sobretudo diante da problemática colocada no centro, a partir do momento em que dois ‘Mickey’ acabam coexistindo, Joon-ho sempre encontra formas de surpreender o espectador trilhando caminhos improváveis, especialmente no confronto entre as personalidades das duas versões do protagonista, e o verdadeiro medo da morte que acaba surgindo em decorrência disso.

 

Robert Pattinson, assim, prova ser a chave do projeto, que depende de um ator protagonista que seja capaz de viver duas versões de um mesmo personagem, que contracenam durante boa parte do tempo, e que, apesar de fisicamente idênticos, apresentam personalidades e filosofias completamente diferentes. Em diversos momentos, só podemos identifica-los a partir de seus trejeitos, e da maneira como habilmente compõe cada um deles ao ponto de ser cômico, mas sem deixar de se levar a sério – afinal, trata-se de uma jornada de escravidão em direção à busca por humanidade, e sobretudo, identidade.

 

Por outro lado, Mark Ruffalo prova seu talento em viver personagens estúpidos e patéticos – no melhor dos sentidos – ao dar vida ao antagonista, Kenneth Marshall, um vilão que, apesar de uma figura caricata e autoritária, se mostra muito próximo de personalidades políticas, do passado e do presente, acompanhado por sua esposa, no filme vivida por Toni Collette, adoravelmente excêntrica, e tão perigosa quanto, em termos políticos e sociais.

 

Apesar de situar-se em um futuro (não tão distante), é interessante que Mickey 17 dialoga com o presente ao colocar no centro de sua narrativa um personagem considerado descartável, que representa, até certo ponto, uma série de pessoas invisíveis aos olhos do Estado, e “pouco relevantes” à sociedade. É como se fosse possível, e prudente, escraviza-las em troca de uma função à humanidade, o que o diretor Bong Joon-ho muito habilmente combate na jornada de Mickey por seu reconhecimento como um ser humano, detentor de direitos e não descartável.

 

Nesse meio, algumas outras ideias são também colocadas para debate, ainda que sem tanto destaque, ao longo das mais de duas horas de duração do longa. A própria colonização é questionada na forma de uma invasão alienígena, na qual os seres humanos seriam os verdadeiros estrangeiros. Na reta final, confesso que passa do ponto – especialmente pela sequência de sonho desnecessária, e até mal aproveitada pela montagem, destruída pela narração que vem cedo demais – mas nada que tire a força de Mickey 17, que trabalha distopia, thriller político, comédia e até romance de maneira ímpar, como um daqueles projetos que só funcionam nas mãos de certos realizadores verdadeiramente talentosos.

 

Avaliação: 4/5

 

Mickey 17 (Idem, 2025)

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho, adaptado de Edward Ashton (livro)

Gênero: Comédia, Thriller, Ficção Científica

Origem: EUA, Coréia do Sul

Duração: 137 minutos (2h17)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Mickey 17 é um "dispensável", um empregado descartável numa expedição humana para colonizar um mundo de gelo conhecido como Niflheim. Quando uma versão morre, um novo corpo é clonado com a maior parte das suas memórias intactas. (Fonte: TMDB)

 
 
 

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