CRÍTICA | Mortal Kombat II, de Simon McQuoid (Idem, 2026)
- Henrique Debski

- há 2 dias
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Em uma demonstração de escuta ao público, Mortal Kombat II volta atrás nas falhas cometidas pelo longa anterior, levando-se menos a sério, com a introdução de personagens clássicos, boas sequências de luta e narrativa mais coesa, ainda que absurda.

Quando em 2021, o anúncio de uma nova adaptação da popular franquia de games de luta Mortal Kombat para os cinemas foi recebida com certa preocupação, tanto pela base de fãs quanto pelo público em geral. Nada apresentado no material de divulgação parecia necessariamente animador, bem como toda adaptação de jogos de videogame já nasce com certo receio, dado o histórico quase natural de filmes ruins que acabam por ser lançados – o que vem mudando, ainda que lentamente, nos últimos anos.
Acontece que o primeiro Mortal Kombat de Simon McQuoid justificou a preocupação do público ao debruçar-se sobre todos os erros possíveis e esperados. Em uma tentativa de atrair novo público, não necessariamente ligado ou conhecedor da franquia, e escantear os fãs, a introdução de um protagonista genérico, Cole Young, vivido por Lewis Tan, inexistente nos games, somado à ausência de personagens relevantes e a construção de um universo contraditório, excessivamente dramático e que se levava muito a sério transformou o projeto em uma grande colcha de retalhos, que não sabia qual tom adotar, no que efetivamente focar ou o mesmo o que desejava contar, afastando-se da base que adaptava para tornar-se uma fantasia confusa, da qual apenas se salvavam algumas sequências de luta, mas sem a identidade de Mortal Kombat.
Com o anúncio de um segundo filme, restava a dúvida sobre o que seria feito. Felizmente, o roteiro, desta vez assinado por Jeremy Slater, deu ouvidos às críticas do público, e optou por trilhar caminhos mais fiéis à franquia dos games, com o protagonismo passado do genérico Cole Young, agora mero coadjuvante descartável, para Johnny Cage, vivido por Karl Urban. Como um personagem conhecido e querido dentro do universo, novamente o protagonista “externo” à realidade serve também como porta de entrada ao espectador para com o mundo do filme.
Com conceitos reposicionados, e novas ideias introduzidas no formato do torneio, que ameaça a Terra, Mortal Kombat II estabelece personagens e objetivos claros a serem atingidos, eliminando boa parte da bagunça do filme anterior, que mal sabia para onde seguir. No entanto, ainda não se mostra capaz de escapar às problemáticas mirabolantes, soluções fáceis e o excesso de deus ex-machina, uma constante que se repete do começo ao fim, como se os protagonistas, a todo tempo, estivessem protegidos pelo grande escudo do roteiro, que não os pode deixar falhar.
Mas vai além das soluções no instante decisivo e das intervenções divinas, quando não existe sequer qualquer necessidade de se estabelecerem regras ao torneio, tendo em vista que as mesmas são sempre quebradas sem consequências. É algo que acaba forçando a existência de desafios rapidamente superados, que, por outro lado, se tornam também divertidos a partir do momento em que o filme, ao contrário de seu antecessor, percebe que não deve se levar a sério. O protagonismo de Johnny Cage reforça precisamente este elemento, porquanto um personagem arrogante o suficiente para questionar toda a realidade em que se encontra, ao passo que também acaba por mergulhar em uma jornada de autoconhecimento e aceitação, em uma boa sátira aos arcos exagerados dos filmes de ação dos anos 90.
Com isso, as lutas, bem dirigidas por Simon McQuoid, e repletas de coreografias criativas valorizando atributos de cada personagem, pelo menos encontram alguma justificativa, como o carro-chefe do longa – e também dos jogos –, para além de um reforço a uma veia dramática. Ainda que haja alguma seriedade na história de vingança de Kitana, vivida por Adeline Rudolph, outra personagem clássica também introduzida nesta sequência, a mesma se encaixa ao arco principal, e possibilita alguns dos melhores momentos do longa, em especial quando transforma as arenas do torneio em cenários de conflitos familiares, seja entre irmãos (um dos melhores momentos do filme) ou mesmo padrasto e enteada.
Dessa maneira, os realizadores por detrás de Mortal Kombat II se provaram dispostos a ouvir o público, e compreenderam os erros cometidos no longa anterior, empenhando-se a consertar suas falhas através de uma grande mudança nos rumos de uma franquia que, à primeira vista, nasceu condenada a fracassar. Ao buscar menos por atingir um novo público, e mais em manter-se próximo da comunidade de fãs, tem-se um filme bem mais honesto à obra que adapta, na união de lutas viscerais, boas sequências de ação, um universo de fantasia, e timing cômico (similar ao de Dungeons & Dragons, na versão de 2023), com um longa ainda relativamente genérico, porém mais fiel aos games, e sobretudo, divertido.
Avaliação: 3.5/5
Mortal Kombat II (Idem, 2025)
Direção: Simon McQuoid
Roteiro: Jeremy Slater, adaptado de Ed Boon e John Tobias (criadores do jogo)
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Origem: EUA
Duração: 116 minutos (1h56)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Os campeões favoritos dos fãs – agora acompanhados pelo próprio Johnny Cage – são colocados uns contra os outros numa sangrenta e derradeira batalha, sem regras ou limites, para derrotar o governo sombrio de Shao Kahn.



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