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CRÍTICA | O Diabo Veste Prada 2, de David Frankel (The Devil Wears Prada 2, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Em ritmo de nostalgia, O Diabo Veste Prada 2 mantém o dinamismo e a essência de seu universo, ainda que no decorrer de sua duração abandone o bom debate acerca do jornalismo dos dias presentes para focar em conflitos absurdos com soluções milagrosas.


 

Hollywood vive tempos nos quais a originalidade tem atuado como uma ferramenta secundária aos estúdios. Percebendo que poderiam faturar muito mais com sequências, derivados e refilmagens do que com projetos originais, os quais gerariam certo trabalho extra para vender ideias novas ao público, filmes como O Diabo Veste Prada 2 surfam em uma propriedade intelectual já consolidada, com retorno financeiro fácil a partir da memória afetiva e a volta de um elenco carismático, cada vez mais em alta.

 

Para quem questionava a necessidade de uma sequência, ainda que com certo ar de caça-níquel, este é um dos raros casos nessa leva recente que encontram uma justificativa. Ainda que 2006 não pareça estar tão distante, vinte anos nos separam daquela época. E nesse meio tempo, o mundo se transformou, tal qual a forma de se fazer jornalismo, e de se vender tendências. O que antes se fazia por meio de revistas impressas, lançadas semanal ou mensalmente, agora acontece muito mais rapidamente, em questão de dias, até horas, por meio da internet e redes sociais. Poucos esperam para receber notícias ou reportagens em casa, em páginas impressas – o imediatismo tomou conta da realidade.

 

É este cenário de renovação que toma conta do reencontro entre Andy Sachs, vivida por Anne Hathaway, e Miranda Priestly, novamente interpretada por Meryl Streep. Duas décadas depois dos eventos do primeiro longa, e da separação de caminhos entre as duas, uma crise interna na revista Runway as faz trabalhar juntas novamente, como um golpe do destino. Da mesma maneira, o retorno de David Frankel à direção não apenas colabora na construção de uma atmosfera nostálgica, como também se adequa, mantendo o mesmo estilo, à tendência contemporânea do mundo hiper conectado e das relações aceleradas, porquanto sua câmera transita pelos ambientes sempre tomada por pressa, ao passo que segue criando uma atmosfera de desespero a partir das aproximações e “zooms” em momentos específicos.

 

O roteiro assinado por Aline Brosh McKenna (que rompe com a sequência literária da obra base, A Vingança Veste Prada, escrita por Lauren Weisberger), repete, em boa parte, a fórmula adotada pelo longa anterior, desde a estruturação dos personagens, na abertura, em seus momentos presentes, até a contextualização do cenário a que pretende trabalhar desta vez. Ao longo de toda a primeira metade do longa, McKenna mostra-se muito interessada em explorar a atual fase do jornalismo, com base nos valores morais da protagonista Andy, suas oportunidades na Runway, e as mudanças promovidas pelo tempo. Não é algo que o texto reflete apenas na produção e veiculação de conteúdo online, mas especialmente no ambiente de trabalho. Se antes a regra eram os corpos magros, e a anorexia, de certa maneira incentivada, hoje se observa tais conceitos com vistas à problematização de se normalizar doenças e quadros psicológicos instáveis. O mesmo vale para a representatividade no ambiente editorial da revista, tomado por pessoas de diferentes gêneros, origens, nacionalidades e orientações sexuais, ao passo que determinados discursos e expressões devem ser evitados – como em muitas oportunidades a assistente da vez chama a atenção de Miranda, uma veterana, de outra geração, em processo de adaptação à realidade presente.

 

Essa exploração do cenário editorial contemporâneo é o que de mais forte há em O Diabo Veste Prada 2, algo que, a partir de uma virada narrativa na metade de sua duração – a única grande diferença estrutural em relação ao primeiro, inclusive –, é escanteado quando o objetivo da protagonista se torna outro.

 

É de se compreender a tentativa de construir um conflito mais intenso, que acompanhe, igualmente, o amadurecimento de Andy, e o desenvolvimento dos demais personagens ao redor, em uma tentativa de manipular um tabuleiro há muito tempo consolidado, de forma quase imutável. No entanto, a escolha dos caminhos para tanto, feitas por McKenna, criam um paradoxo nos valores e princípios de Andy que o filme nunca aborda de fato – da mesma maneira que escanteia seus amigos jornalistas das primeiras cenas. Acaba, então, incorporando ideias e elementos que contrastam com o toda a primeira metade do filme, beirando conflitos um tanto fúteis, no qual o capitalismo e a necessidade de manter um emprego acabam se sobressaindo à qualidade do trabalho jornalístico que a protagonista tanto defende a todo instante.

 

Ainda que, mais adiante, construa uma segunda virada narrativa – essa sim, parte da mesma fórmula adotada no outro longa –, toda a resolução se dá com extrema facilidade, na forma de um verdadeiro “deus ex-machina”, novamente contrastando com a proposta de uma comédia com tons e contornos realistas.

 

Da mesma maneira é igualmente conveniente criticar a falta de cor na arte e no mundo dos dias de hoje, quando o próprio filme perde o tom mais acalorado da fotografia, quando comparado ao primeiro. Isso também vale às críticas autoconscientes à concentração de empresas, marcas e até estúdios por grandes conglomerados, quando a própria Disney representa uma dessas gigantes, sempre buscando por expansões.

 

Ainda assim, O Diabo Veste Prada 2, ao manter a essência do antecessor, e de certa maneira atualizar-se frente à nova realidade do jornalismo, moda e editorias, ligados ao imediatismo das redes sociais, consegue tecer um comentário interessante ao momento presente, embora perca o interesse nesta veia para, a partir de determinado momento, assumir outros conflitos, com soluções fáceis, que exigem menos debates e profundidade. É um filme que vive muito da nostalgia, e do retorno de um elenco talentoso, capaz de divertir o público na base do mesmo tipo de humor, em ritmo dinâmico, mesmo que não igualmente memorável. Creio que seja aquele tipo de sequência que atrai e agrada os fãs da obra original, mas que dificilmente captará um novo público, porquanto tal pretensão passa longe de sua proposta.

 

Avaliação: 3.5/5

 

O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2, 2026)

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna, baseado em personagens criados por Lauren Weisberger (livro)

Gênero: Comédia, Drama

Origem: EUA

Duração: 119 minutos (1h59)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Lidando com o colapso do jornalismo, Miranda precisa enfrentar ainda mais um obstáculo: sua antiga secretária Emily, que, agora, é uma executiva de alto escalão numa marca de luxo, tomando as decisões publicitárias da grife e, por isso, entrando em seu caminho no meio do caos. Nisso, acaba contando com a inesperada ajuda de Andy para repaginar a própria situação.


 
 
 

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