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CRÍTICA | Nosso Segredo, de Grace Passô (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 10 horas
  • 7 min de leitura

Ao trabalhar com luto, Nosso Segredo explora o desmoronar de uma família junto de sua residência, em uma experiência de terapia coletiva que mescla o drama à fantasia, e marca a grande estreia de Grace Passô na direção de longas.


 

A atriz mineira Grace Passô tem sido uma figura cada vez mais presente no cinema nacional. Com presença marcante em papeis dramáticos (como em O Filho de Mil Homens e No Coração do Mundo, de Gabriel e Maurílio Martins) e até comédias românticas (como a deliciosa O Dia que Te Conheci, de André Novais Oliveira), já havia, há alguns anos, expandido suas habilidades também para detrás das câmeras, na direção de curtas-metragens, apenas para se consagrar, efetivamente, como mais um grande nome do cinema autoral em Nosso Segredo, seu primeiro longa escrito e dirigido, que fez a estreia mundial na seção Perspectives do Festival de Berlim e acabara de vencer o prêmio máximo da competitiva do Festival de Gramado deste ano, junto com os de melhor fotografia e melhor direção de arte.

 

De fato, os prêmios recebidos e o reconhecimento de Passô não aconteceram em vão. O clima denso de uma residência enlutada deixa sinais logo na primeira cena, com certa descontração, quando Gilson, personagem de Robert Frank, que trabalha como motorista de aplicativo, conversa com um passageiro no interior de seu veículo, e relata o recente falecimento do pai, e da saudade que sente, quando tudo aconteceu de maneira tão repentina. Ao contar uma memória de infância, o passageiro idoso o faz um questionamento reflexivo, que dá efetivo início à narrativa.

 

Ao transitar com a câmera pelo interior da casa da família, na qual vive a mãe, os quatro filhos, de diferentes idades, e uma tia, irmã da mãe, a atenção se direciona aos vazamentos de um líquido amarronzado, como barro. Com cada um em seu próprio canto, silenciosos, conversando o mínimo possível e apenas o necessário, uma ausência ressoa a todo tempo no ambiente. Em pouquíssimas oportunidades a figura desse pai, inominado, é materializada em tela, senão por sua voz, sempre com o mesmo registro de áudio, mas nesses raros momentos encontramos uma personalidade marcante, cuja falta seria sentida a quilômetros de distância.

 

Cada pessoa lida com o luto a sua própria forma. Nas entrelinhas da narrativa, a falta desse personagem na residência teria provocado um senso de desunião, manifestado pelos diálogos curtos e presença espalhada dos residentes, vivendo em seus mundos particulares, sem interações. Todos justificam a quietude, seja no afundar com os fones de ouvido ou na tentativa de seguir adiante, trabalhando, e segurando as pontas sobre dificuldade para explicar ao filho caçula, ainda criança, a razão para o pai nunca retornar, quando sabem que, na verdade, estão se escondendo uns dos outros e evitando lidar com o que aconteceu.

 

Na dificuldade em se expressarem verbalmente, e resolver a situação delicada com palavras, Passô usa da fantasia como um catalisador da cicatrização coletiva para as dores que compartilham, quando o espírito da casa, que simboliza a família, passa a ruir diante do estado de espírito daqueles que habitam o espaço. O incômodo e a angústia ultrapassam a tela e os sentimentos dos presentes, quando levados ao espectador a partir de um formalismo profundo na maneira como movimenta a câmera de maneiras distintas a depender do personagem acompanhado. Por vezes, é como se estivéssemos encarnando o fantasma do pai, acompanhando os entes queridos que foram deixados, fazendo o possível para que se recomponham e voltem a união que tinham antes do momento difícil chegar.

 

A fotografia de Wilssa Esser acompanha a proposta da diretora em nos manter no espectro desses personagens, transitando muito livremente pela casa, enquanto dedica tempo e atenção a cada uma das pessoas, ainda que de maneiras desiguais e assimétricas, em suas tristezas, frustrações e angústias, que mesclam o luto, o cansaço, a tristeza e até questões raciais, como uma família negra no centro de Belo Horizonte. É inclusive nesse mesmo sentido que Passô explora referências a outros cineastas, como o uso do “double dolly shot” típico de Spike Lee em um dos momentos-chave, no qual a fantasia assume de fato as rédeas e passa a transformar o espaço, já no terceiro ato, dedicado a uma reconciliação construída na base de metáforas físicas e visuais, nas quais a direção de arte assinada por Lucas Osório domina a atenção do espectador a partir das mudanças que propõe.

 

Ao acompanhar com calma e cuidado os habitantes daquela casa, a montagem de Gabriel Martins e Eva Randolph mantém o aspecto onírico sempre vivo, nesse caminhar por um ambiente assolado pela dor de uma perda. A beleza de Nosso Segredo se apresenta na maneira como esses personagens partem de um luto individual para a compreensão da necessidade uma terapia familiar coletiva, enquanto buscam maneiras de seguir adiante com os próprios sentimentos, sem depositar todo o peso nas costas uns dos outros. Ao mesmo tempo que a casa, todos desmoronam, para aos poucos, e juntos, se reconstruírem. É um filme dolorido, mas progressivamente libertador – uma grande estreia para Grace Passô na direção de longas.

 

Avaliação: ★★★★

 

Nosso Segredo (Idem, 2026)

Direção: Grace Passô

Roteiro: Grace Passô

Gênero: Drama, Thriller

Origem: Brasil, Portugal

Duração: 103 minutos (1h43)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Uma família negra tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de encarar as raízes de suas dores e, juntos, descobrirem um novo caminho.

 

English review

 

By working with grief, Nosso Segredo explores a family falling apart alongside their home, in an experience of collective therapy that blends drama and fantasy, and marks Grace Passô's major feature directorial debut.


 

The Minas Gerais actress Grace Passô has become an increasingly prominent figure in Brazilian cinema. With a strong presence in dramatic roles (such as in The Son of the Man and In the Heart of the World, by Gabriel and Maurílio Martins) and even romantic comedies (such as the delightful The Day I Met You, by André Novais Oliveira), she had already expanded her abilities behind the camera several years ago, directing short films, only to establish herself fully as another major name in auteur cinema with Nosso Segredo, her first feature as both writer and director, which had its world premiere in the Perspectives section of the Berlin Film Festival and has just won the top prize in the competition at this year's Gramado Film Festival, along with awards for Best Cinematography and Best Production Design.

 

Indeed, Passô's awards and recognition did not come undeservedly. The dense atmosphere of a grieving household leaves its mark from the very first scene, with a certain sense of lightness, when Gilson, played by Robert Frank, who works as a rideshare driver, speaks with a passenger inside his car and recounts the recent death of his father and the longing he feels, when everything happened so suddenly. As he tells a childhood memory, the elderly passenger asks him a reflective question that effectively sets the narrative in motion.

 

As the camera moves through the family's home, where the mother, four children of different ages, and an aunt, the mother's sister, live, attention is drawn to leaks of a brownish liquid resembling mud. Each person remains in their own corner, silent, speaking as little as possible and only when necessary, while an absence constantly resonates throughout the space. On very few occasions is the figure of this unnamed father physically materialized on screen, other than through his voice, always using the same audio recording, but in those rare moments we encounter a striking personality, whose absence would be felt from miles away.

 

Each person deals with grief in their own way. Between the lines of the narrative, the absence of this character from the household seems to have caused a sense of disunity, manifested through short conversations and the scattered presence of the residents, each living in their own private worlds without interacting. Everyone has their own justification for the silence, whether sinking into their headphones or attempting to move forward by working, while struggling to explain to the youngest child, still a boy, why his father will never return, when they know that, in reality, they are hiding from one another and avoiding dealing with what happened.

 

Faced with their inability to express themselves verbally and resolve such a delicate situation through words, Passô uses fantasy as a catalyst for the collective healing of the pain they share, as the spirit of the house, which symbolizes the family, begins to collapse in response to the state of mind of those who inhabit the space. The discomfort and anguish transcend the screen and the characters' feelings, reaching the viewer through a profound formalism in the way the camera moves differently depending on which character it follows. At times, it is as though we are embodying the father's ghost, watching over the loved ones he left behind and doing everything possible to help them recover and regain the unity they had before this difficult moment arrived.

 

The cinematography by Wilssa Esser follows the director's proposal of keeping us within the characters' emotional spectrum, moving freely throughout the house while dedicating time and attention to each of them, albeit in unequal and asymmetrical ways, in their sadness, frustrations, and anguish, which encompass grief, exhaustion, sadness, and even racial issues, as a Black family in the center of Belo Horizonte. It is also in this same spirit that Passô explores references to other filmmakers, such as the use of Spike Lee's characteristic "double dolly shot" in one of the key moments, when fantasy truly takes the reins and begins transforming the space, already in the third act, devoted to a reconciliation constructed through physical and visual metaphors, in which the production design by Lucas Osório commands the viewer's attention through the changes it introduces.

 

By calmly and carefully following the inhabitants of that house, the editing by Gabriel Martins and Eva Randolph keeps the dreamlike quality alive throughout this journey through an environment devastated by the pain of loss. The beauty of Nosso Segredo lies in the way these characters move from individual grief toward understanding the need for a collective family therapy, as they seek ways to move forward with their own feelings without placing the entire burden on one another's shoulders. Just as the house collapses, they all collapse with it, only to gradually, and together, rebuild themselves. It is a painful film, but progressively liberating - a major feature directorial debut for Grace Passô.


★★★★

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