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CRÍTICA | O Brilho do Diamante Secreto, de Hélène Cattet e Bruno Forzani (Reflection in a Dead Diamond, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 17 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

Em uma mistura de espionagem, ação e experimentação O Brilho do Diamante Secreto conhece suas inspirações, e as subverte com originalidade.



Talvez para o espectador casual, que desprevenido entra no cinema para assistir O Brilho do Diamante Secreto, haja a possibilidade de levar um pequeno choque quando o filme começar. Na contramão de um longa tradicional de ação e espionagem, com heróis e vilões bem estabelecidos lutando, um contra o outro, pelo mundo, o presente mergulha em uma viagem surrealista e experimental em um universo que opera sob regras muito próprias, que, enquanto as conhecemos, nos oferecem uma espécie de quebra-cabeças para montar, enquanto aos poucos fornece sugestões para que compreendamos, junto da própria obra, a realidade concreta sobre a qual conta. 

 

Em meio aos tons de azul, vermelho e verde sempre presentes na tela, dos figurinos, objetos de cena e até a própria iluminação, acompanhamos o protagonista sob dois momentos distintos da própria vida, entre o passado e o presente. Sua memória lhe dá flashes de quem fora um dia, um elegante espião, atraente e galanteador, em constantes aventuras pela Riviera francesa, onde reside atualmente, durante a aposentadoria, talvez ansiando por um pouco de ação em relação à monotonia a qual recaiu.

 

Ao longo da projeção, paralelos se estabelecem entre os dois momentos, dando indícios de que uma antiga ameaça pode estar a espreita do protagonista, relembrando sua antiga obsessão por mistérios do passado, enquanto investiga a morte de uma hospede do hotel em que está. A cada passo adiante, uma atitude tomada no passado é ressignificada pelo presente, que, outra vez, sob novas perspectivas, toma mais uma dimensão diferente. Nada aparenta ser confiável, muito menos as próprias memórias, que escondem, nas entrelinhas, algo que, de primeira, não se enxerga.

 

A dupla de cineastas Hélène Cattet e Bruno Forzani muito habilmente materializa toda essa dúvida que coloca em xeque uma realidade construída em seus mínimos detalhes. A montagem propositalmente confusa e em ritmo frenético reflete com muito cuidado o estado de espírito caótico em que está inserida a trama, aos poucos justificando seus elementos fantásticos à medida em que compreendemos o que estamos verdadeiramente testemunhando.

 

Tudo muito bem se alinha ao estilo característico de cinema da dupla de realizadores, que dessa vez deixam um pouco de lado o mundo dos giallos ao qual tanto referenciam em seus filmes (ainda que não completamente), para brincar um pouco mais com as referências ao cinema italiano dos anos sessenta – vide a clara paródia do Diabolik, de Mario Bava -, e também embarcar no mundo da espionagem, ao maior estilo 007, na era Sean Connery.

 

O que é ainda mais perceptível, inclusive, é o domínio dos cineastas da própria linguagem de cinema que constroem ao longo da filmografia, que, mesmo mantendo intacta a experimentação e a subversão de suas inspirações em prol de algo bastante único – vide as cenas de ação bem coreografadas, cuja direção brinca com planos incomuns, e a montagem potencializa o impacto da luta, sobretudo com foco na violência gráfica e na maquiagem -, e com um orçamento visivelmente mais robusto (mas ainda relativamente modesto, de certa forma), O Brilho do Diamante Secreto soa como um filme mais acessível, dinâmico, que sabe, com muita mais cautela, se utilizar dos constantes estímulos visuais para a composição de planos tão complexos quando relevantes para o que se deseja contar e mostrar, indo muito além de mero capricho estético, mas com um significado bastante claro dentro daquela fantasia.

 

Assim, se abstendo dos diálogos, utilizados apenas em momentos específicos, as surpresas de O Brilho do Diamante Secreto se manifestam através da imagem, sempre acompanhada pelo cuidadoso trabalho de som, e, aos poucos, descontrói toda sua ideia central em meio a uma proposta metalinguística, sob contornos dramáticos e trágicos, cuja ação e a violência tomam novas formas. Ainda que possa soar excessivo para alguns, e cansativo para outros (como creio ser o caso de Amer, o primeiro da dupla), o filme revela uma maior experiência dos diretores, e a crença no estilo do próprio cinema e da experimentação que propõem com a imagem, agora buscando novos ares para fora do terror, ainda que elementos deste se mantenham, de maneiras mais sutis. Um dos grandes filmes de ação de 2025, e também um dos mais originais.

 

Avaliação: 4/5

 

O Brilho do Diamante Secreto (Reflection in a Dead Diamond/Reflet Dans un Diamant Mort, 2025)

Direção: Hélène Cattet e Bruno Forzani

Roteiro: Hélène Cattet e Bruno Forzani

Gênero: Ação, Thriller, Experimental

Origem: França, Itália, Bélgica, Luxemburgo

Duração: 87 minutos (1h27)

Disponível: Cinemas (via Pandora Filmes)

 

Sinopse: Após o desaparecimento repentino de sua vizinha, um ex-agente secreto, recluso em um hotel de luxo na Riviera Francesa, acredita que seus inimigos estão ressurgindo - e especialmente Serpentik, a quem nunca conseguiu desmascarar.

 
 
 

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