CRÍTICA | O Esquema Fenício, de Wes Anderson (The Phoenician Scheme, 2025)
- Henrique Debski

- 2 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Em uma narrativa linear, O Esquema Fenício exalta algumas das melhores características do cinema de Wes Anderson, em um thriller político cômico que opera no formalismo de seu próprio universo.

Desde seu último longa, em 2023, considerava minha relação com Wes Anderson estremecida. Na base de seu estilo característico, que hoje já não soa mais como novidade, e uma narrativa arrastada repleta de personagens desinteressantes, apesar do elenco com talentos, sentia que Asteroid City já era um indício do esgotamento do cinema do diretor.
Talvez esse formato episódico e segmentado com personagens diversos se intercruzando, que bem funcionou no ano anterior com A Crônica Francesa, pelo particular aspecto jornalístico e cronista, fosse o verdadeiro problema ali, quando nada parecia realmente instigante diante das histórias que, sozinhas ou todas reunidas, nunca pareciam engrenar senão por estarem envoltas de comentários críticos superficiais. Agora, então, o cineasta parece não apenas ter voltado aos trilhos, mas atingido algo próximo de O Grande Hotel Budapeste (meu favorito entre os filmes que assisti), possivelmente em uma tentativa de retomar o que já havia dado certo no passado, e no auge de sua carreira.
A escolha por uma narrativa linear, centrada em um único personagem, o bilionário Zsa-zsa Korda, ótimo na pele de Benicio Del Toro, já é, de plano, uma boa decisão do roteiro assinado por Anderson e Roman Coppola, quando dedicam tempo ao desenvolvimento cômico de um protagonista assumidamente problemático e responsável por grande parte das tragédias e misérias do mundo ao seu tempo, quando envolvo em esquemas de corrupção, escândalos de trabalho escravo e tantos outros problemas que vão além de qualquer limite ético ou moral – e tudo em nome do dinheiro.
Mais do que apenas todo o aspecto imoral de Korda, o estabelecimento da distante relação com sua filha, Liesl, vivida por Mia Threapleton, com quem deseja se aproximar, o leva em uma interessante jornada onde uma proposta de redenção se parece presente, mas cada vez menos concretizável diante das circunstâncias com as quais precisarão lidar para cobrir o conflito que os cerca, entre algumas das pessoas mais poderosas – e perigosas – daquele universo.
Ainda que com sua forma distinta de compor a realidade de seus filmes já um tanto desgastada, e até cansativa pelo excesso de repetições ao longo de tantas obras, é divertido que, pelo menos dessa vez, Wes Anderson até brinca com o próprio formalismo em uma espécie de “thriller político”, filmado a sua própria forma. As viagens do protagonista, acompanhado de sua filha e do instrutor, vivido por Michael Cera (com um papel que explora seu humor com versatilidade), são recheadas de algumas “cenas de ação”, se assim as podemos chamar, e criativas tentativas de assassinato, que em muito revelam do próprio personagem, e seu passado. Em determinado momento, inclusive, a simetria exacerbada do cineasta é muito bem aproveitada em prol de uma luta bastante cômica, que se aproveita do cenário ao entorno e da própria geografia do ambiente para uma briga corporal que usa das engrenagens do próprio estilo do cineasta.
Aos poucos, vai-se O Esquema Fenício tornando-se uma divertida provocação social, como uma crítica aos bilionários, a concentração de poder nas mãos de poucos e como as disputas entre poucas pessoas levam a consequências transformadoras para tantas outras. Em meio às participações especiais, crises de consciência do protagonista e até um pouco de autoconhecimento, com base na relação e no vínculo que se firma com a filha, que deseja tornar-se freira e se pauta nas bases religiosas do catolicismo, o filme se beneficia do formalismo de Wes Anderson e de um humor nonsense para seguir na linha de um thriller cômico que mescla, em um universo muito particular, elementos de espiritualidade, política, mistérios familiares e até espionagem. Posso dizer que minha boa vontade com o cinema do diretor foi reestabelecida.
Avaliação: 4/5
O Esquema Fenício (The Phoenician Scheme, 2025)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson e Roman Coppola
Gênero: Thriller, Comédia, Drama
Origem: EUA, Alemanha
Duração: 101 minutos (1h41)
Disponível: Cinemas
Sinopse: O magnata Zsa-zsa Korda sofre mais um acidente aéreo, mas logo se recupera. Ao voltar para casa, ele decide nomear sua filha, uma freira, como única herdeira de sua fortuna. Os dois então embarcam na consolidação de um novo empreendimento, que se torna alvo de espionagem industrial, intrigas, ataques terroristas e assassinos. (Fonte: Google)



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