CRÍTICA | O Melhor Amigo, de Allan Deberton (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- 12 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
O Melhor Amigo subverte típicos elementos de comédias românticas ao trabalhar o musical em meio a um triangulo amoroso.

O cinema de Allan Deberton é, desde o princípio, recheado com sensibilidade. Parece algo muito natural ao cineasta compreender a natureza dos sentimentos humanos de seus personagens em seus estados mais puros, enquanto dirige seu elenco e filma suas narrativas de maneira a conhecermos o exterior e, especialmente, o interior de quem a ela integra.
Seu primeiro longa, Pacarrete, protagonizado pela excelente Marcélia Cartaxo, na pele da excêntrica protagonista, é grande evidência dessa habilidade do cineasta, e seu novo projeto, O Melhor Amigo, muito se beneficia dela.
Baseado em seu segundo curta, de mesmo nome, lançado em 2017, O Melhor Amigo se aproveita de muitos dos mesmos elementos-chave, agora mantidos e reimaginados sob a ótica de uma corajosa comédia musical LGBTQIA+.
Dentro de uma premissa bastante óbvia de comédia romântica, Allan Deberton, em roteiro assinado junto a Raul Damasceno, Otavio Chamorro e Pedro Karam, encontra espaço para trabalhar sua criatividade ao subverter as figuras de seu tabuleiro amoroso dentro de um triângulo LGBTQIA+. Percorrendo uma base já tão utilizada por diversos longas “tradicionais” e conservadores, especialmente entre os anos 90 e 2000, tanto no Brasil quanto no estrangeiro, O Melhor Amigo se aprofunda na comunidade gay para contar sobre a busca de um antigo amor do protagonista, em um momento de crise, pessoal e em seu relacionamento.
Diante dessa necessidade do personagem Lucas, muito bem vivido por Vinicius Teixeira, procurar por novos ares em sua vida e buscar pelo que deseja, sua viagem à Canoa Quebrada, no litoral cearense, acaba lhe trazendo mais dúvidas do que soluções. A direção de Deberton caminha entre os ambientes junto ao personagem, sempre refletindo um vazio, através de uma fotografia que o afunda junto ao cenário, como se passasse desapercebido e camuflado por dentro de seus próprios sentimentos, diante da dinâmica de cores que constrói. Não é a ausência de alguém ao seu lado, necessariamente, que o faz se sentir assim, mas uma ferida profunda em seu coração, de algo que, para ele, restou inacabado no passado, e nunca cicatrizou de verdade.
Nessa jornada de autoconhecimento, e tentando colocar um fim na dor dessa ferida passada, com uma resposta para o que ficou em aberto, a direção reaproveita boa parte dos elementos do curta homônimo para trabalhar, com bom humor e sensibilidade, os sentimentos de Lucas para com seu amigo Felipe, em meio a desconstrução de sua vida presente. Não apenas com esse foco, mas pouco a pouco todo seu círculo social próximo vem abaixo, em um momento de reconstrução, tornando a viagem também uma forma de experimentar novos rumos e formar novas amizades, de maneiras imprevisíveis e nem sempre planejadas, como bem sugere a cartomante Estrela Dalva em determinado ponto.
Em meio a esse conflito comum, todos os sentimentos são o verdadeiro alvo da câmera de Deberton, que procura nas reações do protagonista e nas manifestações de seu corpo – e dos ao seu redor - as verdadeiras sensações, que nos aproximam de Lucas tanto quando nos leva a torcer por ele. É justamente onde melhor entra o aspecto musical, como forma de extravasar aquilo que se encontra guardado para si, através de coreografias criativas, e músicas que reaproveitam melodias e letras clássicas brasileiras, de um jeito brega, como bem deve ser, ainda que um também um tanto tímido, quando o filme justamente poderia ir além e abraçar de vez a cafonice.
Assim, O Melhor Amigo novamente é prova das habilidades de Allan Deberton como um cineasta autoral, ao transformar um de seus primeiros curtas em um longa-metragem musical que não tem vergonha de ser brega, mesmo que se mostre um pouco tímido com a música. E desde já fico ansioso para os próximos projetos do diretor.
Avaliação: 3.5/5
O Melhor Amigo (Idem, 2025)
Direção: Allan Deberton
Roteiro: Allan Deberton, Raul Damasceno, Otavio Chamorro e Pedro Karam
Gênero: Comédia, Romance, Musical
Origem: Brasil
Duração: 94 minutos (1h34)
Disponível: Cinemas (via Sessão Vitrine Petrobrás)
Sinopse: Na praia de Canoa Quebrada, o reencontro entre Lucas e Felipe faz acender antigos desejos. Enquanto Lucas se joga neste paraíso solar e musical, em busca de uma paixão ardente e incerta, Felipe, com sua presença sempre tão misteriosa, parece escorregar por entre os dedos. (Fonte: Sessão Vitrine Petrobrás/Sinny Comunicação)



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