CRÍTICA | Obsessão, de Curry Barker (Obsession, 2026)
- Henrique Debski

- há 1 dia
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Em uma inversão à fórmula das maldições, Curry Barker transforma seu protagonista no verdadeiro vilão de Obsessão por meio de um desejo egoístico, em terror impactante que assusta ao transitar no limiar entre o bizarro e o verossímil.

O cinema hollywoodiano adora se apegar à fórmulas. Ao longo de décadas, é muito comum perceber que determinados filmes, sucessos ou não, acabam estabelecendo padrões que passam a ser replicados em tantos outros, como uma estrutura fácil a ser aproveitada, alterando apenas alguns ingredientes do caminho, como eixos temáticos, porém mantendo intacta a essência da coisa. É o caso preciso das maldições, hoje quase um subgênero do terror, que especialmente depois de Corrente do Mal, costuma encontrar ao menos um filme parecido no ano.
É justamente onde Obsessão faz a diferença. Inicialmente inclinado a aproximar-se da fórmula das típicas maldições do cinema norte-americano, o jovem cineasta Curry Barker, em seu primeiro longa-metragem, faz a ousada decisão de esquivar-se da regra, uma escolha de caminho fácil e hoje já um tanto desgastada, para explorar um cenário diverso, até mesmo para o gênero, na medida em que questiona a moralidade do próprio protagonista.
Em um primeiro momento, toda a construção narrativa inclina-se a explorar o mundo de Bear, um sujeito comum, solitário, e extremamente tímido, apaixonado pela antiga amiga de escola, Nikki, que hoje trabalha com ele em uma loja de instrumentos musicais. Tentando criar coragem para se declarar, se depara com um suposto objeto capaz de realizar desejos – chamado de “One Wish Willow” (ou “salgueiro de um único desejo”). Sem acreditar na efetividade, como se apenas fosse lançar seu sonho ao universo, e em um leve ato de desespero, o uso desse item parece fazer efeito.
No entanto, o que antes era um sonho, aos poucos se torna um pesadelo. Ao invés de uma paixão recíproca, de amor verdadeiro e companheirismo, o desejo de Bear se converte em uma relação embebida pela dependência emocional. A direção de Barker não estabelece esse sentimento, porém, de maneiras óbvias, e o reforça por meio de atitudes silenciosas, típicas de um relacionamento tóxico. Ao colocar Nikki, por diversas vezes, escondida por detrás de sombras, em um ótimo trabalho da fotografia de Taylor Clemons, comunica-se uma estranheza em suas atitudes e falas, as quais amarram o protagonista constantemente a uma proximidade não desejada. E mais do que isso, o uso da profundidade de campo é capaz de, neste primeiro momento, assustar ainda mais do que qualquer sombra, a partir de uma paranoia que se desenvolve através da intimidação.
Não é algo que acontece em algumas poucas oportunidades no decorrer do filme, e trata-se de uma atmosfera de constante hipervigilância, que se torna cada vez mais violenta, em diferentes sentidos. As quase duas horas de duração se justificam pelo desenvolvimento cauteloso desse ambiente denso, não apenas no que tange ao relacionamento entre Bear e Nikki, de amigos a um casal obsessivo, mas também a maneira como ambos são vistos pelo lado de fora, a partir do olhar de outros dois amigos, que compõe o quarteto que saia para beber semanalmente.
Através de uma comparação ao antes e depois do desejo, somado aos constantes usos de drogas pelos protagonistas, sejam medicamentos antidepressivos ou entorpecentes, reforça-se a presença de dois personagens que pouco conseguiam lidar com as próprias vidas antes do caos se instaurar. Para além das bizarrices que se sucedem, das atitudes por eles tomadas ao sufocamento causado pela relação à Bear, explorado pela razão de aspecto fechada, planos próximos dos personagens e ambientes repletos de objetos empilhados e desorganizados, o sentimento de desespero e apreensão é passado ao espectador sem a necessidade de jumpscares, mas tão somente comportamentos estranhos, pouco naturais, e cada vez mais perigosos, esses que fazem de Inde Navarrette o grande destaque do longa no campo da atuação, porquanto trabalha Nikki a partir do estranho e do bizarro para com o espectador, e o próprio protagonista.
Ao mesmo tempo, ainda que pouco explicado no decorrer da narrativa o elemento fantástico, justamente com o fim de aumentar a dose de ansiedade, recorrendo apenas às informações básicas, das quais tanto o espectador quanto Bear dispõem, o roteiro, também assinado por Barker, passa a questionar seu protagonista, de vítima a, quem sabe, o verdadeiro vilão da trama. Imerso em um problema por ele mesmo criado, o decorrer da história leva seu grande desejo ao limite, no pior dos sentidos, e deposita nele a única forma de resolução. Acontece que, diante das opções, a toxidade da relação não se elabora unilateralmente do lado de Nikki para Bear, mas primordialmente dele para ela, porquanto seu sonho egoístico, convertido no uso do salgueiro, desenvolveu em sua grande paixão um sentimento obsessivo.
A vontade do personagem em voltar atrás no desejo não se dá por um pensamento de arrependimento altruísta em relação aos sentimentos dela, mas pela espiral de paranoia e violência que sua escolha o levou. Não à toa a violência física e gráfica do filme é pontual, mas suficiente para impactar no excesso e impacto em suas aparições, justamente como sintomas da obsessão a qual o título revela. No entanto, a intepretação desse título também é válida quando levada ao sentido contrário, porquanto o desejo feito ao salgueiro também se mostra fruto de uma obsessão de Bear por conquistar a garota de seus sonhos, sem tomar coragem para se movimentar para tanto.
A reta final acaba por trabalhar uma possibilidade de resolução ao conflito até mesmo inesperada ao espectador. Há todo um tom de ironia presente nas formas com as quais o personagem principal busca resolver a problemática, e sobretudo na maneira como o diretor, habilidosamente, questiona suas intenções, na medida em que, a todo tempo, preocupa-se mais consigo do que efetivamente com sua paixão, cuja vida fora destruída por um desejo egoístico. Não é algo necessariamente que Obsessão faz explicitamente, mas explora na medida em que oferece informações ao protagonista acerca de suas possibilidades de saída à questão, e o assiste tomando caminhos mais favoráveis a si, sua consciência e sentimentos do que ao outro. Assim, adapta-se a fórmula das maldições, ao passo que a entidade ou o elemento sobrenatural pouco se mostra realmente interessante, quando o olhar do cineasta se direciona a uma relação tóxica na qual a suposta vítima é, na verdade, o antagonista e responsável pelo mal, tomando atitudes que apenas o beneficiam em detrimento da pessoa que supostamente ama, como se apenas os próprios sentimentos importassem de fato frente à pessoa cuja vida ele destrói por puro egoísmo.
Avaliação: 4.5/5
Obsessão (Obsession, 2026)
Direção: Curry Barker
Roteiro: Curry Barker
Gênero: Terror, Thriller
Origem: EUA
Duração: 108 minutos (1h48)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Depois de quebrar o misterioso Salgueiro dos Desejos para conquistar o coração de sua paixão, um romântico incurável se vê conseguindo exatamente o que queria, mas logo descobre que alguns desejos têm um preço sombrio.



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