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CRÍTICA | Panda Plan: The Magical Tribe, de Derek Hui (熊猫计划之部落奇遇记, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 24 minutos
  • 6 min de leitura

Voltado em definitivo ao público familiar, Panda Plan: The Magical Tribe não sabe explorar tão bem seu mundo de fantasia, mas diverte com Jackie Chan em frente à câmera, inspirações no Wuxia e humor físico.


 

A maior dificuldade encontrada por Panda Plan (2024) era o direcionamento para seu verdadeiro público-alvo. Enquanto tentava brincar com uma narrativa inspirada em Duro de Matar, surgia uma dúvida quanto ao interesse voltado, majoritariamente, a um público fã de ação/comédia e ancorado na figura de Jackie Chan, ou se direcionava sua atenção para fisgar o público infantil/familiar. O contexto de invasão ao zoológico e sequestro dos presentes colaborava com a primeira possibilidade, junto do exército de mercenários fortemente equipados com armas de fogo e explosivos; mas os antagonistas excessivamente caricatos, bem como o exagero da comédia física, e até as soluções mirabolantes encontradas, pouco verossímeis até para uma comédia de ação, esquivando-se de uma violência mais intensa e menos letal, indicavam a segunda opção, dando origem a uma obra estranha, sem saber exatamente o que desejava dizer, ou como – sem contar com a reviravolta dos instantes finais, não só apelativa, ignorando basicamente todos os eventos do longa, como até problemática pelos estereótipos sustentados.

 

Então, a sequência Panda Plan: The Magical Tribe (2026) já acerta de antemão ao efetivamente definir seu público-alvo com mais clareza: as crianças e sua família. A opção pelo abraço à fantasia, a partir de uma “realidade paralela”, torna a integração do panda com a narrativa mais fluida e crível dentro do ambiente estabelecido, tendo em vista que o mesmo manifesta interesses próprios, e leva, com ressalvas, parte das consequências do primeiro filme adiante, especialmente na integração com o protagonista.

 

Ao propor um universo à parte da realidade, a figura de Jackie Chan, interpretando a si mesmo, perde força – evidentemente, o melhor elemento do primeiro longa. Com o discurso metalinguístico escanteado, e aqui mesmo sem espaço frente à nova proposta, o astro assume o protagonismo como “mensageiro” e “guardião”, em um ambiente no qual não é conhecido e tampouco pode tentar se aproveitar de sua influência para se esquivar dos conflitos, sendo tratado como forasteiro em uma tribo indígena completamente isolada de qualquer contato com o mundo exterior. É interessante a maneira como o texto trabalha a inexistência do afeto como um elemento distanciador das relações locais, sobretudo no cerne familiar, e a desunião da comunidade, excessivamente competitiva, de maneira não saudável, algo que o protagonista ensinará como forma de sobreviver e retornar ao seu mundo.

 

Na reformulação da franquia, os antagonistas assumem de vez o aspecto caricato, e a ação, repleta das acrobacias circenses que consolidaram Jackie Chan no cinema de ação – o qual continua ótimo, aos mais de setenta anos de idade – se adapta bem à proposta da não letalidade, e da violência diminuta, a partir do humor e do uso dos combates corpo a corpo, majoritariamente aproveitados para fugir.

 

A direção de Derek Hui abandona uma aproximação mais “ocidentalizada”, como a do primeiro filme, assinado por Luan Zhang, não apenas na condução da narrativa, com momentos musicais específicos, acompanhados de danças – até como forma de explorar superficialmente a cultura desse povo indígena fictício – , mas também na própria maneira de inserir, na ação, um aceno ao próprio cinema chinês/cantonês, com referências aos tradicionais Wuxia, em coreografias que lembram os trabalhos de King Hu, Woo-Ping e Ang Lee.

 

O calcanhar de Aquiles, no entanto, encontra-se na ausência de ênfase do aprofundamento deste mundo mágico. Ainda que Hui demonstre acreditar na magia deste universo, em passagens visualmente inspiradas pelo entorno do vilarejo, pela fotografia colorida, direção de arte atenta aos detalhes, e um olhar de humanidade para a ausência de sentimentalismo demonstrado entre os próprios habitantes, como tradições milenares ultrapassadas, os personagens pouco se desenvolvem ao longo da narrativa, após o estabelecimento de seus conflitos. Até existem ideias para explorar um aspecto político, como manipulação e sede de poder, mas que, com a intenção voltada às crianças e famílias, não encontra espaço para ir além do humor majoritariamente físico.

 

Dessa maneira, tem-se em Panda Plan: The Magical Tribe um direcionamento certeiro ao público-alvo pretendido, eliminando a dúvida que transformava o primeiro longa em um projeto indeciso. Ainda que sem saber, no entanto, como explorar profundamente suas novidades, e sobretudo o mundo mágico que propõe, esta sequência soa bem mais decidida em suas ambições – não só pela melhora substancial conferida pela direção de Derek Hui, entre suas inspirações no cinema Wuxia, uma ação melhor articulada, e montada, na sala de edição –, ainda mais quando opta pelo caminho definitivo da comédia física, e pela mensagem piegas, mas verdadeira, da união familiar, e demonstração dos sentimentos uns pelos outros como forma de manutenção dos próprios vínculos afetivos. É um filme inocente, capaz de entreter crianças e adultos, ao passo que nos possibilita passar mais algum tempo com o mestre Jackie Chan, que segue carismático como sempre foi, e um ícone do cinema de ação.

 

Avaliação: 3/5

 

Panda Plan: The Magical Tribe (熊猫计划之部落奇遇记, 2026)

Direção: Derek Hui

Roteiro: Keyang Pan

Gênero: Ação, Comédia

Origem: China

Duração: 100 minutos (1h40)

Disponível: Cinemas (EUA e Canadá)

 

Sinopse: O panda gigante Hu Hu e Jackie Chan acabam, por acaso, encontrando uma misteriosa tribo primitiva, dando início a uma aventura hilariante para salvar o mundo e retornar às suas vidas.

 

English review

 

Firmly aimed at a family audience, Panda Plan: The Magical Tribe struggles to fully explore its fantasy world, but still entertains thanks to Jackie Chan’s presence, its Wuxia influences, and its reliance on physical comedy.

 

The main challenge faced by Panda Plan was defining its target audience. While it flirted with a narrative inspired by Die Hard, there was uncertainty as to whether it aimed primarily at action-comedy fans drawn by Jackie Chan, or at a younger, family-oriented audience. The zoo invasion and hostage scenario pointed toward the former, alongside heavily armed mercenaries, but the overly caricatured antagonists, exaggerated slapstick humor, and implausible solutions - even for an action comedy - leaned toward the latter. The result was a somewhat confused film, unsure of what it wanted to be or say, further undermined by a final twist that felt both contrived and problematic in its reliance on stereotypes.

 

The sequel, Panda Plan: The Magical Tribe, corrects this from the outset by clearly defining its audience: children and families. By fully embracing fantasy through a kind of “parallel reality,” it allows the panda’s integration into the narrative to feel more natural within its own rules. The animal is given agency, with its own motivations, and the story carries forward some consequences from the previous film, particularly in its connection to the protagonist.

 

However, in shifting to this new universe, Jackie Chan - playing a version of himself - loses some of the meta-textual strength that made him the standout element of the first film. With that layer set aside, he instead assumes the role of a “messenger” and “guardian” in a world where he is unknown, unable to rely on his fame, and treated as an outsider by an isolated indigenous tribe. The script interestingly explores the absence of affection as a distancing force within the community, particularly in familial relationships, as well as the tribe’s unhealthy competitiveness - something the protagonist seeks to challenge as a means of survival and eventual return to his own world.

 

In this reimagined direction, the antagonists fully embrace caricature, while the action - built on the acrobatic style that defined Jackie Chan’s career - adapts well to a less lethal, more playful tone, emphasizing hand-to-hand combat often used for escape rather than harm. Even in his seventies, Chan remains impressively agile and charismatic.

 

Director Derek Hui moves away from the more “westernized” sensibility of the first film, directed by Luan Zhang, incorporating musical moments and dance sequences that lightly explore the fictional tribe’s culture. At the same time, he nods to traditional Chinese cinema, particularly the Wuxia genre, with action choreography reminiscent of filmmakers like King Hu, Yuen Woo-ping, and Ang Lee.

 

The film’s main weakness, however, lies in its limited exploration of this magical world. While Hui clearly believes in the setting - conveyed through colorful cinematography, detailed production design, and a humanistic lens on the community’s emotional detachment - the characters remain underdeveloped once their initial conflicts are established. There are even hints of more complex ideas, such as political manipulation and the pursuit of power, but these are left largely unexplored, likely in favor of maintaining a tone suited to younger audiences.

 

As a result, Panda Plan: The Magical Tribe succeeds in clarifying its intended audience, avoiding the indecision that hindered its predecessor. Even if it struggles to fully develop its new ideas - particularly its fantasy setting - it feels more confident in its ambitions, thanks in part to Hui’s direction, its Wuxia-inspired action, and a stronger sense of rhythm in its editing. Ultimately, it leans into physical comedy and a simple, heartfelt message about family unity and emotional connection, offering light, accessible entertainment that allows audiences to spend more time with Jackie Chan, who remains as charismatic as ever and a true icon of action cinema.

 

Panda Plan 2: The Magical Tribe will be released in theaters across the United States and Canada on April 17.

 
 
 

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