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10º OVERLOOK FILM FESTIVAL | The Holy Boy, de Paolo Strippoli (La Valle Dei Sorrisi, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 7 horas
  • 8 min de leitura

Ao transformar os poderes de um adolescente em válvula de escape para o luto, The Holy Boy trabalha a fé como uma droga para as dores que o ser humano não deseja enfrentar.


 

Desde o seu surgimento, o cinema tanto é muito utilizado pelas religiões como instrumento para a disseminação de seus ideais, como também é muito utilizado para criticá-las. É um debate de ideias que se constrói a partir do trabalho narrativo orquestrado na relação de coexistência entre a imagem e o som, em narrativas que valorizam o sagrado, e outras que o questionam – por vezes, arquitetadas até mesmo pelo mesmo realizador, em diferentes momentos de sua carreira, a depender de sua crença. Nesse sentido, o cinema italiano sempre se encontrou muito imerso nesse universo religioso, entre o abraço e a crítica a religião e ao catolicismo, sobretudo quando a cidade-estado do Vaticano localiza-se dentro da grande cidade de Roma, a capital do país.

 

Ainda que The Holy Boy insira em sua narrativa a figura de um padre católico, e rodeie a trama no entorno de um personagem considerado santo, poderia valer-se de muitas outras figuras religiosas, de crenças diversas. Os elementos sobrenaturais presentes na obra em momento algum são questionados, ou sequer busca-se por trabalhar suas origens, na medida em que, estabelecidos, o verdadeiro interesse deposita-se nas consequências para aquela pequena cidade, no interior de uma Itália devota, há mais de uma década enlutada por um acidente ferroviário que tirou muitas vidas de residente locais, deixando famílias rompidas e memórias trágicas.

 

A chegada do protagonista, também um homem enlutado, à cidade para assumir a vaga de professor substituto na escola torna-se o interesse de toda uma comunidade onde pouco acontece. O excesso de pessoas sorridentes e positividade gera uma desconfiança bastante incômoda pela artificialidade – afinal, é praticamente impossível um lugar onde a tristeza não existe, ou sequer se manifesta –, em uma versão (bem) mais séria do que seria a pequena vila de Chumbo Grosso, de Edgar Wright (uma referência cuja semelhança, de fato, acaba por aí). Quando finalmente confrontado pelas reações agressivas e evidente tristeza, ele descobre a razão de tamanha alegria: Matteo, um jovem com o poder de absorver toda a tristeza, a partir de um abraço (muito bem interpretado por Giulio Feltri, em seu primeiro trabalho no cinema). Ainda que a pessoa não seja capaz de esquecer pelo que passou, sua dor é aliviada pela força sobrenatural do garoto, ancorando-se naquele gesto, quase semanal, como uma verdadeira válvula de escape ao luto.

 

Na medida em que conhecemos aquela comunidade, torna-se notória a proposta crítica do roteiro assinado por Paolo Strippoli, Jacopo Del Giudice e Milo Tissone, enquanto um retrato de uma sociedade agarrada à ideia de válvulas de escape. Tal como o álcool, as drogas, e porque não a própria fé, a pequena cidade aparenta jamais ter conseguido superar o golpe que o destino lhe deu, enquanto amarrada aos poderes de um jovem, inteiramente preso às mãos do pai e da Igreja Católica.

 

Com a aproximação entre o garoto e o professor, com quem nutre uma relação de liberdade, o cenário passa a mudar. Aos quinze anos de idade, em uma fase de conhecimento do mundo, de si, do próprio corpo, Matteo decide reivindicar espaço próprio, na dúvida se seus poderes seriam um dom ou uma maldição, e como um adolescente, naturalmente inconsequente, passa a usar deles, que incluem possessão, para moldar e experimentar o mundo ao redor. É quando a complexidade da situação toma frentes diversas.

 

Paolo Strippoli é cuidadoso no sentimento paranoico ao qual submete o espectador, não só pelas reações da comunidade como um todo, e especialmente do pai e do padre em face do professor, mas também do próprio garoto, a partir da possessão. Ainda que existam indícios deixados na composição do personagem quando possuído (como a angular aumentada, quando filma na visão de Matteo controlando a pessoa possuída), em determinadas oportunidades a direção se aproveita dessa incerteza para potencializar a tensão, especialmente quando revelações são feitas, e assuntos delicados ao garoto são colocados à mesa.

 

Além disso, na ênfase ao adolescente, explora com criatividade o aflorar da sexualidade, e seu interesse romântico por um colega de classe, a quem tenta, mas não consegue se aproximar, sempre sendo agredido, fisicamente ou por palavras. Ao voltar-se a atenção para este personagem, no entanto, e seu núcleo familiar, verifica-se à prisão na qual vive dentro de casa, com uma mãe mais devota à Matteo do que preocupada com o próprio filho – justamente onde o filme poderia se aprofundar um pouco mais, ainda mais a partir da consequência dessa frustração amorosa por parte de Matteo.

 

Em seu clímax, revela o epitáfio de toda a construção dessa relação entre professor e aluno na primeira metade do filme, e sua posterior desconstrução, a partir do vício nessa ausência de dor infligida pelo luto no protagonista, que a princípio se esquiva, mas depois acaba por sucumbir. É um desfecho que se torna mais visceral pela carga psicológica contida do que propriamente pela violência física, ainda que Strippoli seja plenamente capaz de transformar uma cidade devota em um verdadeiro exército de “zumbis da dor”, dependentes dessa esponja que elegeram como salvador, ao invés de superar as perdas que sofreram.

 

Torna-se The Holy Boy uma imagem dolorosa do mundo e do ser humano como sempre foi, no qual à fuga pela fé vazia, pelo álcool ou drogas torna-se a via mais fácil do que o enfrentar a si e os próprios demônios. As consequências disso, porém, podem ser mais devastadoras que o próprio motivo ensejador do sentimento de tristeza, como muito bem se explora no decorrer de suas duas horas.

 

Avaliação: 4/5

 

The Holy Boy (La Valle Dei Sorrisi, 2026)

Direção: Paolo Strippoli

Roteiro: Paolo Strippoli, Jacopo Del Giudice e Milo Tissone

Gênero: Drama, Terror

Origem: Itália, Eslovênia

Duração: 122 minutos (2h02)

Exibido no 10º Overlook Film Festival

 

Sinopse: No vilarejo mais feliz da Itália, um professor atormentado descobre um segredo sombrio por trás de encontros semanais em que os moradores buscam cura no abraço de um adolescente. Sua tentativa de salvar o jovem revela a natureza sinistra de uma comunidade que se esconde atrás da alegria.

 

English review

 

By transforming a teenager’s powers into an outlet for grief, The Holy Boy frames faith as a kind of drug for pains the human being refuses to confront.

 

Since its inception, cinema has been widely used by religions as a tool to disseminate their ideals, just as it has been used to critique them. It is a debate of ideas constructed through the narrative interplay between image and sound, in works that either exalt the sacred or question it - sometimes even shaped by the same filmmaker at different moments in their career, depending on their beliefs. In this sense, Italian cinema has long been deeply immersed in this religious universe, oscillating between embrace and criticism of religion and Catholicism, especially given that the Vatican City is located within Rome, the country’s capital.

 

Although The Holy Boy incorporates the figure of a Catholic priest and builds its narrative around a character considered a saint, it could just as easily draw from many other religious figures and beliefs. The supernatural elements present in the film are never questioned, nor does it attempt to explore their origins; once established, the true focus lies on their consequences for that small town in the Italian countryside, a devout community that has spent over a decade grieving a train accident that claimed many local lives, leaving behind broken families and traumatic memories.

 

The arrival of the protagonist - also a grieving man - in the town to take on a substitute teaching position quickly becomes the center of attention in a place where little ever happens. The overwhelming number of smiling faces and constant positivity creates an unsettling sense of artificiality - after all, it is nearly impossible for a place to exist without sadness or its expression - evoking, in a far more serious register, the small village of Sandford, from Hot Fuzz by Edgar Wright (a comparison that, in truth, ends there).

 

When he is finally confronted with the town’s aggressive reactions and underlying sorrow, he discovers the reason behind such enforced joy: Matteo, a young boy with the power to absorb sadness through an embrace (remarkably portrayed by Giulio Feltri in his first film role). Although people cannot forget what they have endured, their pain is alleviated by the boy’s supernatural ability, turning that almost weekly gesture into a true coping mechanism for grief.

 

As we come to know the community, the critical intent of the screenplay by Paolo Strippoli, Jacopo Del Giudice, and Milo Tissone becomes evident, portraying a society clinging to the idea of escape valves. Much like alcohol, drugs - and indeed faith itself - the town appears incapable of overcoming the blow it has suffered, remaining dependent on the powers of a young boy who is entirely controlled by his father and the Catholic Church.

 

As Matteo grows closer to the teacher - with whom he experiences a sense of freedom - the situation begins to shift. At fifteen, in a stage of self-discovery and exploration of the world and his own body, Matteo starts to claim autonomy, uncertain whether his powers are a gift or a curse. Like a typical teenager, he becomes increasingly reckless, using his abilities - including possession - to shape and experiment with the world around him. It is here that the narrative gains greater complexity.

 

Strippoli carefully builds a sense of paranoia, not only through the reactions of the community - particularly the father and the priest toward the teacher - but also through the boy himself, especially in moments of possession. While there are visual cues embedded in the character’s composition when possessed (such as the widened lens when showing Matteo’s point of view), the direction often plays with this uncertainty to heighten tension, particularly when revelations are made and sensitive matters are brought to light.

 

Additionally, by focusing on the adolescent, the film creatively explores the awakening of sexuality and his romantic interest in a classmate, whom he tries - unsuccessfully - to approach, often facing physical or verbal aggression. However, when attention shifts to this character and his family, it becomes clear how confined he is within his home, with a mother more devoted to Matteo than to her own son - an area where the film could have delved deeper, especially considering the consequences of this emotional frustration.

 

In its climax, the film reveals the culmination of the relationship between teacher and student established in the first half, and its subsequent deconstruction, as the protagonist himself becomes addicted to the absence of grief - initially resisting, but eventually succumbing. It is an ending that proves more visceral for its psychological weight than for physical violence, although Strippoli is fully capable of turning a devout town into a veritable army of “grief zombies,” dependent on the sponge they have chosen as their savior, rather than confronting their losses.

 

Ultimately, The Holy Boy becomes a painful image of the world and of human nature as it has always been - one in which escape through empty faith, alcohol, or drugs becomes easier than facing oneself and one’s own demons. The consequences of such avoidance, however, can be even more devastating than the very source of that sorrow, as the film powerfully explores over the course of its two hours.

 

The Holy Boy was screened at the 10th Overlook Film Festival, and will be available soon on Shudder.

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