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10º OVERLOOK FILM FESTIVAL | Mārama, de Taratoa Stappard (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 4 horas
  • 7 min de leitura

Mārama explora a discriminação do povo maori pelas mãos do colonizador, em terror sobre ancestralidade e vingança no seio familiar.


 

Já nos primeiros instantes de Mārama, que chega aos cinemas norte-americanos no dia 17 de abril, senti-me, de alguma maneira, familiarizado ao longa. É que toda a introdução se baseia em ideias e uma proposta já muito amplamente explorada pelo cinema de terror, desde os tempos das primeiras adaptações de Drácula, baseadas na obra homônima de Bram Stocker. Não à toa, houve evidente inspiração por parte do texto assinado pelo também diretor Taratoa Stappard, quando a protagonista, Mary, em meados do século XIX, chega a uma propriedade rural, no interior da Inglaterra, e é sumariamente “expulsa” pelo cocheiro de sua carruagem, o qual, jogando sua bagagem para o lado de fora, a diz: “a partir daqui, você vai a pé”.

 

Ainda que a resistência do cocheiro em prosseguir nada revele para o desenrolar da narrativa, a longa caminhada de Mary a leva para uma cabana, em cuja noite, ao olhar para um espelho, já bastante cansada, parece visualizar um fantasma. Nesse meio tempo, assim como em boa parte das obras adaptadas do referido personagem, uma carta é lida, revelando as motivações para sua viagem - qual seja, encontrar-se com um homem que promete revelar-lhe quem são e o que houve com seus pais, considerando que a mesma, orgulhosa representante do povo maori, crescera e vivera sempre na Nova Zelândia, em uma família adotiva.

 

Sua posterior chegada à grande residência da família Cole revela um grande cenário gótico tipicamente vitoriano, em cujas sombras se apresenta o anfitrião, e dono do lugar, Nathaniel Cole. Ainda que sugerisse o caminho para um filme de vampiros, Mārama percorre a trilha de uma conspiração. É tão claro ao espectador quanto é à protagonista uma atmosfera de desconforto com aquele ambiente, no qual todos sabem sobre ela em demasia - muito mais do que deveriam de fato. A existência de segredos é bastante clara, os quais são revelados à personagem aos poucos, enquanto, sem opções, aceita permanecer na residência para tornar-se governante e professora da pequena Anne, neta de Nathaniel (considerando que levara cerca de setenta dias para chegar ao local).

 

A cada menção à cultura maori pelo anfitrião, que toma maiores ares de antagonista, uma incógnita surge à tela. Entre as caminhadas da protagonista pela casa, em cada espelho, toque ou objeto uma memória é revelada - na maior parte das vezes, em flashes, alguns deles até jumpscares bastante repetitivos. É o elemento sobrenatural que se materializa diante do espectador, enquanto representante da ancestralidade da protagonista, e dos laços mantidos no plano espiritual que ainda residem naquela casa, como vidas interrompidas ou assuntos inacabados.

 

O terror de Mārama centra-se justamente na questão cultural, no retrato de uma alta sociedade que diz apaixonar-se pela cultura maori, para, no instante seguinte, dela se apoderar como mero entretenimento, como se fosse submissa. É uma forma de provocação que constitui o ápice da narrativa, que culmina no clímax, quando Mary assiste a pessoas embriagadas, numa festa, caçoando de suas crenças, e de seu sangue - tal como, em outros tempos, se fizera com os povos originários, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, por exemplo.

 

Acontece que, apesar do clímax e da atmosfera conspiratória estabelecida, Mārama mostra dificuldades em esquivar-se de uma certa obviedade, inerente à ideia, já explorada em outras obras, sem conseguir tanto se afastar das próprias inspirações – como Corra, de Jordan Peele, ou O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski, de certa maneira, para além de Drácula. A direção de Stappard constrói personagens que fogem dos arquétipos óbvios, e os conduz à base da verossimilhança, especialmente em relação a protagonista vivida por Ariana Osbourne, que sempre reprime os sentimentos diante da câmera e dos demais ao entorno, de maneira silenciosa e contida, que aos poucos mostra-se também uma guerreira.

 

A fotografia excessivamente escura, mesmo que confira certa elegância ao clima gótico, resulta, por outro lado, no apagamento do capricho da direção de arte, e impede, eventualmente, a própria compreensão do espectador acerca do que acontece em determinadas cenas, prejudicando a imersão.

 

Assim, Mārama torna-se mais interessante pela abordagem acerca da cultura maori, e a exploração da discriminação a esse povo, do que propriamente pelo mistério que estabelece, protocolar tanto em seu desenrolar quanto pela forma como conduzido pela direção de Stappard, entre simbologias, flashbacks e a ancestralidade. Ainda que pudesse ir além, não deixa de ser um bom exemplar do cinema de terror neozelandês, e sua crítica à violência contra a população originária do país, em um específico contexto histórico nas terras colonizadoras.

 

Marama foi exibido no Overlook Film Festival, e chega aos cinemas norte-americanos no dia 17 de abril. No Brasil, fará sua première latino-americana ao integrar a programação do XXII Fantaspoa, com sessões nos dias 17/04 e 26/04.

 

Avaliação: 3/5

 

Mārama (Idem, 2026)

Direção: Taratoa Stappard

Roteiro: Taratoa Stappard

Gênero: Drama, Terror

Origem: Nova Zelândia, Reino Unido

Duração: 89 minutos (1h29)

Exibido no 10º Overlook Film Festival

 

Sinopse: Quando uma jovem mulher maori é convocada da Nova Zelândia para North Yorkshire, ela descobre seu terrível legado colonial e se vê compelida a confrontar e destruir o aristocrata inglês que devastou sua família.

 

English review


Mārama explores the discrimination faced by the Māori people at the hands of colonizers, framing it within a horror story about ancestry and revenge within the family.

 

From its very first moments, Mārama - which arrives in U.S. theaters on April 17 - felt, in some way, familiar to me. Its entire introduction is built upon ideas and a premise widely explored by horror cinema, dating back to the earliest adaptations of Dracula, based on the homonymous work by Bram Stoker. It is no coincidence that there is an evident inspiration in the script written by the film’s director, Taratoa Stappard, when the protagonist, Mary, in the mid-19th century, arrives at a rural estate in the English countryside and is summarily “expelled” by her carriage driver, who, tossing her luggage aside, tells her: “from here, you will go on foot.”

 

Although the driver’s refusal to go any further reveals little about the narrative’s development, Mary’s long walk leads her to a cabin where, that same night, while looking into a mirror in her exhausted state, she seems to glimpse a ghost. In the meantime - much like in many works derived from the aforementioned character - a letter is read, revealing the motivations for her journey: to meet a man who promises to tell her who her parents were and what happened to them, given that she, a proud representative of the Māori people, grew up and lived in New Zealand within an adoptive family.

 

Her subsequent arrival at the grand residence of the Cole family unveils a large, typically Victorian Gothic setting, in whose shadows stands the host and owner of the estate, Nathaniel Cole. Although it initially suggests the path of a vampire film, Mārama instead follows the trail of a conspiracy. The atmosphere of discomfort surrounding that environment is as clear to the viewer as it is to the protagonist - a place where everyone seems to know far too much about her. The existence of secrets is evident, gradually revealed to Mary as, with no real alternatives, she accepts staying at the residence to become governess and teacher to young Anne, Nathaniel’s granddaughter (especially considering that her journey to reach the estate took nearly seventy days).

 

With each mention of Māori culture by the host - who increasingly assumes the role of antagonist - a new uncertainty emerges. As the protagonist wanders through the house, every mirror, touch, or object reveals a memory - most often in flashes, some even recurring jump scares. This is the supernatural element materializing before the viewer, representing the protagonist’s ancestry and the spiritual ties that still linger in that house, as if unfinished lives or unresolved matters remain present.

 

The horror in Mārama is rooted precisely in its cultural dimension, portraying an upper-class society that claims to admire Māori culture only to appropriate it as mere entertainment, as something subordinate. This provocation reaches its peak in the narrative’s climax, when Mary witnesses drunken partygoers mocking her beliefs and her blood - much like what was historically done to Indigenous peoples in countries such as Brazil and the United States.

 

However, despite its climactic moment and the conspiratorial atmosphere it builds, Mārama struggles to avoid a certain predictability inherent to its premise, already explored in other works, and never fully distances itself from its inspirations - such as Get Out, by Jordan Peele, or Rosemary's Baby, by Roman Polanski, in addition to Dracula. Stappard’s direction, however, builds characters that move beyond obvious archetypes, guiding them with a sense of verisimilitude - especially in the case of the protagonist portrayed by Ariana Osbourne, who consistently represses her emotions in front of the camera and those around her in a quiet, restrained manner, gradually revealing herself to be a warrior as well.

 

The excessively dark cinematography, while lending a certain elegance to the Gothic atmosphere, ultimately obscures the care put into the production design and, at times, even hinders the viewer’s understanding of what is happening in certain scenes, undermining immersion.

 

Thus, Mārama proves more compelling for its exploration of Māori culture and the discrimination faced by this people than for the mystery it constructs - one that feels somewhat procedural both in its development and in the way it is handled through Stappard’s direction, with its symbolism, flashbacks, and emphasis on ancestry. Even if it could have gone further, it remains a solid example of New Zealand horror cinema and its critique of violence against the country’s Indigenous population within a specific historical context in colonizing lands.

 

Mārama was screened at the Overlook Film Festival and arrives in U.S. theaters on April 17.

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