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48º CINEMA DU RÉEL | Levers, de Rhayne Vermette (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Como uma fantasia experimental, Levers questiona o cinema contemporâneo a partir de uma experiência sensorial, deixando o espectador à deriva de um universo no qual precisa montar e compreender o quebra-cabeças proposto.


 

O “fazer cinema” é uma prática que, desde seu surgimento, no final do século XIX, se altera constantemente, nos diversos cantos do mundo, alinhado à sociedade local, aos recursos disponíveis, culturas, apreço, e outra enorme série de elementos. Com o passar dos anos, tornou-se uma arte cada vez mais acessível, tanto ao consumo do público quanto a possibilidade de realização por parte dos autores. E nos dias presentes, com o advento dos streamings, redes sociais, e a era da informação, muito se fala na simplificação do cinema, em sua forma e conteúdo – claro exemplo está no debate em torno da Netflix, supostamente orientando seus produtores a explicar a narrativa por mais de uma vez ao longo do filme, e seguir uma cartilha mais ou menos alinhada à possibilidade de o público assistir a obra distraído com atividades domésticas, no caminho para o trabalho, ou mesmo trabalhando propriamente.

 

Mas o cinema, em seu mais amplo formato, está muito longe de se restringir à mera história contada pelos filmes. Importa um enorme conjunto de técnicas sobre as quais o filme efetivamente se constrói e desenrola, para muito além do roteiro e da história. Os eventos não se contam "do nada", mas sim através da imagem e do som. Levers, então, pouco se interessa de fato de se sua narrativa será ou não compreendida pelo espectador. Na verdade, tudo se estabelece de maneira bastante confusa, entre inúmeros personagens vivendo suas vidas sob um momento de calamidade - o desaparecimento do Sol - e a continuidade da realidade, do tempo, e da vida. O que mais interessa aqui à diretora Rhayne Vermette é a forma com a qual fará tudo isso.

 

À uma estética que nos remete a década de 1970, a filmagem estilo Super-8, de imagem granulada, e cores vibrantes, registrando fatos, momentos e o cotidiano daqueles personagens sugere um observador oculto daqueles eventos, inerte, documentando momentos sem intervir. Esse papel, então, cabe a nós, espectadores, invariavelmente - afinal, somos aqueles que assistimos às imagens, registradas como se lá estivéssemos, quase num formato de documentário.

 

Mas vai além, quando o interesse também recai à experiência sensorial. Não é sobre apenas ouvir o que dizem, mas o ambiente, dos animais, do caos, do desespero. É literalmente uma experiência, apta a provocar sensações de estranhamento, enquanto experimenta com a linguagem do filme ao apostar na não-linearidade, e provocar o espectador a partir do quebra-cabeças que oferece para ser montado, sem exatamente um direcionamento claro de onde seguir, senão por breves indicações de “capítulos”, em tela.

 

O maior desafio reside, ainda, no evitar do uso da linguagem verbal. Ao invés de pegar na mão do espectador, e explicar o passo a passo dos acontecimentos, Levers questiona o cinema comercial contemporâneo ao buscar por uma ruptura, apostando meramente na imagem e no som ambiente como condutores narrativos, deixando, ao lado, os diálogos, em segundo plano.

 

Assim, Levers busca chegar ao lugar de um "cinema" em sua forma mais pura e primitiva, no bom sentido, por meio da veia experimental. Isso não faz dele, logicamente, “mais cinema” do que qualquer outro filme - não é por este lado que caminhamos -, mas uma experimentação nas entranhas mais profundas desta forma de arte, como se buscasse inspiração em seus primórdios, de Lumiére à Buñuel. Essa ideia naturalmente o faz tornar-se um filme difícil, talvez pela maneira como estamos acostumados a algo tão diferente nos tempos presentes, o que suscita, ao espectador, uma interessante reflexão sobre o próprio consumo cinematográfico, e até os limites formais da própria arte – se é que existem, ou não. É um longa que muito busca o “sentir”, e busca suscitar, acima de tudo, uma interessante reflexão ao espectador sobre o próprio consumo do gênero. Torna-se uma provocação autoral e curiosa, ainda mais quando exibido em festivais de renome, como o próprio Cinema du Réel e até o Festival de Toronto, expandindo o debate dentre as seleções, imerso entre longas comerciais, autorais e até experimentais, como um questionamento à indústria e ao fazer cinema.

 

Avaliação: 3.5/5

 

Levers (Idem, 2026)

Direção: Rhayne Vermette

Roteiro: Rhayne Vermette

Gênero: Drama, Thriller, Experimental

Origem: Canadá

Duração: 95 minutos (1h35)

Exibido no 48º Cinema du Réel (Competitiva)

 

Sinopse: Esta história gira em torno de um evento crucial: o sol não nasce por um dia. Enquanto o mundo observa o nascer de um novo sol, eventos misteriosos entrelaçam as vidas de um escultor, um funcionário público e um guarda de segurança. Através de paisagens e linhas temporais variadas, jornadas através de momentos de luto são desencadeadas. Este filme, rodado ao longo de um ano com câmeras Bolex quebradas, apresenta efeitos especiais feitos diretamente na câmera, como múltiplas exposições.

 

English Review


As an experimental fantasy, Levers challenges contemporary cinema through a sensory experience, leaving the viewer adrift in a universe in which they must piece together and interpret the puzzle it proposes.

 

The act of “making cinema” has, since its emergence in the late 19th century, constantly evolved across different parts of the world, shaped by local societies, available resources, cultures, sensibilities, and a wide range of other factors. Over time, it has become an increasingly accessible art form, both in terms of audience consumption and the ability of creators to produce films. In the present day, with the rise of streaming platforms and social media, much has been said about the simplification of cinema in both form and content. A clear example lies in the debate surrounding Netflix, often accused of encouraging filmmakers to reiterate narrative information and follow a formula that accommodates distracted viewing—whether at home, in transit, or even while working.

 

Yet cinema, in its broadest sense, is far from being limited to the mere story a film tells. It relies on a vast set of techniques through which it is constructed and unfolds - far beyond script and plot. Events are not conveyed “out of nowhere,” but through image and sound. Levers, then, shows little concern for whether its narrative will be clearly understood by the viewer. In fact, everything is established in a deliberately fragmented manner, following multiple characters living through a moment of calamity—the disappearance of the sun—while reality, time, and life itself persist. What matters most to director Rhayne Vermette is the form through which all of this is expressed.

 

With an aesthetic reminiscent of the 1970s - Super 8-style filmmaking, grainy images, and vibrant colors - the film captures fragments of life, everyday moments, and events in a way that suggests the presence of a hidden observer: inert, documenting without intervention. That role ultimately falls to us, the viewers, as we watch images recorded as if we were there ourselves, almost in a documentary-like mode.

 

But it goes further, as the film’s interest extends to the sensory experience. It is not only about hearing what is said, but about absorbing the environment—the animals, the chaos, the despair. It is quite literally an experience, one that provokes a sense of estrangement while experimenting with cinematic language through nonlinearity, inviting the viewer to assemble its puzzle without clear guidance, save for brief “chapter” indications on screen.

 

One of its greatest challenges lies in its avoidance of verbal language. Rather than guiding the viewer step by step through the events, Levers questions contemporary commercial cinema by seeking rupture, relying almost entirely on image and ambient sound as narrative drivers, relegating dialogue to the background.

 

In doing so, Levers strives toward a notion of “cinema” in its purest and most primitive form - in the best sense - through its experimental approach. This does not, of course, make it “more cinematic” than other films; that is not the point. Rather, it represents an exploration of the deepest layers of the medium, as if drawing inspiration from its origins, from Auguste Lumière and Louis Lumière to Luis Buñuel.

 

Naturally, this makes it a challenging film - perhaps because we have grown accustomed to something entirely different in contemporary viewing habits. In turn, it prompts an intriguing reflection on how we consume cinema today, and even on the formal limits of the art form itself - if such limits exist at all. It is a film deeply invested in sensation, aiming above all to provoke thought about the act of viewing. It becomes an authorial and curious provocation, particularly when screened at renowned festivals such as Cinema du Réel or the Toronto International Film Festival, where it expands the conversation within diverse lineups - among commercial, auteur, and experimental works alike - serving as a subtle challenge to the industry and to the very act of making cinema.

 

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