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48º CINEMA DU RÉEL | London, de Sebastian Brameshuber (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

London é um drama de realidade, no qual Sebastian Brameshuber mescla ficção e documentário em um retrato da Europa contemporânea.


 

São 350km de distância entre Viena e Salzburg. Mais de três horas de viagem percorridas algumas vezes por semana por Bobby, um homem idoso, na casa dos 70 anos, que visita um amigo em coma no hospital. Ao longo do caminho, dá carona, via aplicativo, a pessoas que precisam - é uma forma de não apenas cobrir parte dos custos com manutenção do veículo e combustível, como uma forma de distração dessa longa, e cansativa, jornada. No decorrer das viagens, encontra todo tipo de gente: soldados, funcionários de supermercado, românticos apaixonados, refugiados de guerra - esses todos que falam diversos idiomas -, e alguns com quem pouco consegue se comunicar, justamente em razão de uma barreira linguística existente.

 

Com uma câmera quase estática, posicionada majoritariamente mirando o motorista e o passageiro, alternando entre plano e contraplano, o foco central de London reside nos diálogos sobre a vida, e nas trocas de experiência entre gerações, nacionalidades e contextos tão diversos. Torna-se um reflexo de parte da Europa como um continente "unido", na medida do possível, de fronteiras mais simbólicas e espaciais, como se constituísse um grande e único país, ainda que haja controle independente pelos Estados - como demonstra certa cena, na qual passa por uma fronteira. Fala-se muito no mundo contemporâneo, em comparações ao passado, memória sobre traumas e o que se aprendeu com as gerações anteriores, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, e o terrível legado deixado à humanidade, que insiste em se repetir ciclicamente.

 

Ainda que a forma escolhida por Sebastian Brameshuber se esgote um tanto ao longo de suas duas horas de duração, o fascínio da mistura entre ficção e realidade, bem como o personagem de Bobby - em ótima atuação contida por parte de Bobby Sommers - torna tudo mais interessante, porquanto vai-se abrindo em relação à própria vida e intimidades. Frequentemente, enquanto público, nos questionamos acerca dos limites entre o que é real e o que encenado na narrativa, cujos diálogos soam honestos e realistas, tais como as situações enfrentadas pelo protagonista, entre os imprevistos e infortúnios. Talvez seja essa justamente a beleza do filme, a qual reside na incerteza.

 

Quando fora do carro, nas poucas oportunidades em que o mundo exterior é explorado pela câmera de Brameshuber, o olhar segue pela veia do naturalismo. Sem interferir com a narrativa ou os acontecimentos, Bobby é quase sempre retratado pelas costas, ou ao longe, seja caminhando em direção à entrada do hospital, pegando um café em uma loja de conveniência, ou mesmo escorregando sobre o piso molhado, deixado pela neve.

 

Na medida em que recebe pessoas em seu veículo, os fragmentos de conversas entre elas acompanhados por nós nos leva, aos poucos, a compreender as motivações do protagonista em visitar seu amigo. Passamos a conhecer Bobby por quem é, pelo que fez ao longo da vida, como o conheceu, e as questões inacabadas que ficaram pelo caminho.

 

London, então, é um drama de realidade, que experimenta de maneira interessante nessa mescla de cinema documental com a ficção, dotado de pessoas reais em frente às câmeras, transitando em estradas reais, entre cidades reais, refletindo sobre o mundo - e a Europa - do presente, tanto quanto sobre a própria individualidade do ser humano, na forma do “eu”. Torna-se fascinante a organicidade com a qual Brameshuber trabalha o protagonista em suas intimidades, em um compartilhamento de experiências junto dos passageiros ("caronas"), ainda que, a partir de certo momento, pode-se também tornar um tanto cansativo, com plena consciência ao se encerrar no momento ideal.

 

Avaliação: 4/5

 

London (Idem, 2026)

Direção: Sebastian Brameshuber

Roteiro: Sebastian Brameshuber e Anna Lehner

Gênero: Drama, Documentário

Origem: Austria

Duração: 122 minutos (2h02)

Exibido no 48º Cinema du Réel

 

Sinopse: Bobby dirige de um lado para o outro entre Viena e Salzburgo, dando carona a desconhecidos pelo caminho e compartilhando conversas que transitam do cotidiano ao profundamente pessoal. Neste retrato sensível da Europa contemporânea, o anonimato e o afeto ainda caminham lado a lado.

 

English review

 

London is a reality-driven drama in which Sebastian Brameshuber blends fiction and documentary into a portrait of contemporary Europe.

 

There are 350 kilometers between Vienna and Salzburg - more than a three-hour journey that Bobby, an elderly man in his 70s, undertakes several times a week to visit a friend in a coma at the hospital. Along the way, he picks up passengers through an app - not only as a way to offset part of the costs of maintaining the vehicle and fuel, but also as a form of distraction during this long and exhausting routine. Over the course of these trips, he encounters all kinds of people: soldiers, supermarket employees, hopeless romantics, war refugees - many of whom speak different languages - and others with whom he can barely communicate due to linguistic barriers.

 

With a nearly static camera, mostly positioned toward the driver and passenger, alternating between shot and reverse shot, London centers its focus on conversations about life and the exchange of experiences across generations, nationalities, and vastly different contexts. It becomes a reflection of Europe as a “united” continent - as much as possible - where borders feel more symbolic and spatial, as if forming one large country, even though each state maintains its own control - as illustrated in a scene where Bobby crosses a border.

 

Much is said about the contemporary world in comparison to the past, about memory, trauma, and what has been learned from previous generations - especially in the aftermath of World War II and the terrible legacy it left behind, which humanity seems doomed to repeat cyclically.

 

Although Brameshuber’s chosen form begins to wear thin over its two-hour runtime, the fascination of blending fiction and reality - along with Bobby himself, portrayed with restrained subtlety by Bobby Sommers - keeps the film engaging, as he gradually opens up about his life and personal history. As viewers, we often find ourselves questioning the boundaries between what is real and what is staged, as the dialogues feel honest and natural, much like the situations Bobby faces, filled with unpredictability and small misfortunes. Perhaps this uncertainty is precisely where the film’s beauty lies.

 

Whenever the camera leaves the car - in the few moments when the outside world is explored - Brameshuber’s gaze leans into naturalism. Without interfering with the narrative or events, Bobby is almost always framed from behind or at a distance, whether walking toward the hospital entrance, grabbing coffee at a convenience store, or even slipping on a snow-covered floor.

 

As he continues to pick up passengers, the fragments of conversation we witness gradually allow us to understand Bobby’s motivations for visiting his friend. We come to know him through who he is, what he has done in life, how they met, and the unresolved matters that linger.

 

London, then, is a reality-based drama that experiments in an engaging way with the intersection of documentary and fiction, featuring real people in front of the camera, traveling on real roads between real cities, reflecting on the present-day world - and Europe - as much as on individual identity and the notion of the self. The organic way in which Brameshuber explores the protagonist’s intimacy, through shared experiences with his passengers, is fascinating - even if, at a certain point, it can become somewhat exhausting, though it ends with a clear awareness of the right moment to conclude.

 

London was screened at the 48th Cinema du Réel.

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