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CRÍTICA | Pânico 7, de Kevin Williamson (Scream 7, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Concebido às pressas em uma produção caótica, Pânico 7 é o primeiro erro da franquia, ao assumir um manto de slasher caça-níquel, tornando-se uma caricatura de si, e atingindo o que todos os longas conseguiram evitar: um filme genérico.


 

Todo novo filme de Pânico para mim é sempre motivo de preocupação. Como talvez a única franquia do terror slasher sem uma única sequência caça-níquel ou entrada ruim (até então), a autoconsciência com a qual todas as vezes lidou para comentar sobre o subgênero, suas fórmulas e momentos desde a década de 1990 a tornava um perfeito retrato das fases do cinema de horror em Hollywood.

 

Com um quinto e sexto filmes excelentes, que muito bem acompanhavam a deixa da franquia Halloween de David Gordon Green, em sua retomada a partir da controversa trilogia, Pânico 7 tornou-se um problema logo na pré-produção, quando a passagem do bastão de Sidney para as irmãs Carpenter foi interrompida com a demissão da atriz Melissa Barrera do projeto por questões políticas. Em seguida, a saída de sua irmã em tela, Jenna Ortega, e do diretor escalado, Christopher Landon, como um efeito dominó, deram início a uma reconstrução completa do projeto, com o descarte do roteiro original e a escrita de uma nova história, novamente com Sidney protagonista, após aceitarem o valor pedido pela atriz Neve Campbell, e direção do roteirista, e um dos criadores da franquia, Kevin Williamson.

 

A direção de Williamson, em seu segundo projeto na função (depois do longa de 1999 Teaching Mrs Tingle), se mostrou até uma surpresa, ao seguir, sem tanta experimentação, as cartilhas deixadas por Wes Craven e a dupla de diretores Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, em um equilíbrio de tensão, ação, terror e violência, aos mesmos moldes da franquia, brincando com alarmes falsos, alguns bons jumpscares e um surpreendente domínio da própria figura do Ghostface, enquanto se esgueira entre as sombras e persegue as vítimas sem ser visto. Em todo o segmento do prólogo, aliás, já é possível de se visualizar esse carinho do diretor pelo universo, de seu conhecimento com a realidade na qual trabalha, em um retorno interessante à casa de Stu Macher, onde se encerram os filmes um e cinco, a incendiando sugerindo o término de uma era à franquia, com o apagamento de um grande trauma passado aos sobreviventes.

 

No entanto, não demora a percebermos que essa não é a intenção do filme. Com uma completa desconexão do prólogo em relação ao restante (servindo, sarcasticamente, como um alerta à ameaça sofrida pelo legado da franquia), cujos eventos são esquecidos posteriormente, e o retorno de Sidney Prescott – agora Sidney Evans – aos holofotes, o que se propõe é um rompimento com o segmento do longa anterior, e o acréscimo de mais um capítulo a jornada da protagonista original, que praticamente já se encontrava aposentada, com o encerramento do quinto filme.

 

Agora mãe de uma adolescente (com uma “retcon”, já que apenas sabíamos das duas crianças), Sidney é construída quase sob o contrário do arquétipo de Laurie Strode nos últimos Halloween: enquanto a personagem de Jamie Lee Curtis se torna obcecada por uma vingança contra Michael Meyers, a de Neve Campbell se esforça ao máximo para deixar no passado os traumas que vivera. As barreiras emocionais existentes entre a protagonista e sua filha, Tatum, em razão de uma quase inconsciente superproteção é muito eficaz, porquanto explora as consequências de todos os últimos filmes para Sidney a partir do próprio seio familiar, ainda mais quando há uma ausência comunicativa entre elas, na medida em que se esquiva de qualquer discussão relacionada às épocas do passado, mesmo com a própria filha.

 

Ao mesmo tempo, a nova ameaça ainda traz interessantes elementos do momento presente, e até da tradicional metalinguagem, na concretização das ligações, por exemplo, enquanto propõe para discussão a possibilidade de retorno de um assassino conhecido ou o uso de inteligência artificial generativa para materializá-lo novamente, passando a dúvida das personagens ao espectador. A fascinação por true crime também se faz presente em forma de crítica na construção dos suspeitos, e do próprio modus operandi do Ghostface da vez, fã da sobrevivente, e não dos assassinos.

 

Acontece que todas essas ideias, que provam uma consciência dos roteiristas Kevin Williamson, Guy Busick e James Vanderbilt do momento atual do terror slasher e do próprio presente, não encontram respaldo ao longo da narrativa para se encaixarem com naturalidade na trama de mistério.

 

A essência da franquia Pânico sempre foi a autoconsciência de suas escolhas criativas, e uma sátira ao subgênero em que se insere, a partir da subversão de seus arquétipos. As vítimas, por exemplo, nunca foram trabalhadas como meros descartes para o assassino, mas sim como pessoas que viviam e interagiam ao redor dos protagonistas, quase sempre usadas como isca ou pegas no fogo cruzado de vinganças intermináveis. Aqui, pouco importam os jovens amigos de Tatum, por exemplo, ou quaisquer pessoas que estejam ao redor delas. Todas são apresentadas como personalidades descartáveis, unidimensionais, quase uma folha de roteiro com uma descrição básica daquilo que representam, cujas mortes não surtem consequências, nem ao menos psicológicas. E a culpa desse ar robótico não recai ao elenco, que se esforça para fazer o que pode com a mediocridade das pessoas que interpretam em cena, mas à ineficácia do texto, e até da direção, em fazer com que o público possa acreditar neles, e sentir-se mal quando são assassinados.

 

Fica muito claro um interesse do estúdio em estabelecer uma nova geração, para que futuramente Neve Campbell e Courtney Cox entreguem as rédeas e o legado de suas personagens a outros. Era o que já estava sendo feito com as irmãs Carpenter (que, por mais bizarro que seja, nem sequer são mencionadas), e agora se tenta fazer com Tatum para Sidney, e os gêmeos Meeks-Martin para Gale. Mas de que adianta uma tentativa de passar o bastão se o próprio longa mal demonstra interesse nesses novos personagens? A própria Tatum, vendida como a sucessora da mãe, não cativa o público ou estabelece qualquer relação de afeto ou interesse, já que nunca encontra a câmera realmente virada para ela. Isabel May até tenta tornar a personagem mais carismática, mas pouco consegue fazer enquanto não há espaço para ela.

 

E as péssimas soluções encontradas para justificar a nova conspiração da vez, e o próprio desenrolar de um terceiro ato que abusa da suspensão da descrença e de situações tolas tornam Pânico 7 aquilo que a franquia, durante trinta anos, conseguiu evitar: um filme genérico. Incorrendo nos erros da maioria de seus clones, trata-se de uma entrada de Pânico concebida às pressas, em meio a uma produção caótica e a completa mudança de direcionamento dos planos originais.

 

Apesar de algumas boas ideias, e das sequências de mortes (ainda que a violência excessiva acabe se tornando praticamente um chamariz frente a mediocridade da narrativa), a identidade e motivação tosca por detrás do Ghostface da vez, definitivamente o pior de todos, provam ser Pânico 7 uma sequência caça-níquel sem o cuidado e a criatividade das obras anteriores, apenas reciclando a fórmula, como uma entrada genérica, tornando-se, no pior dos sentidos, uma caricatura de si próprio, como a franquia satirizou em outras oportunidades esse mesmo acontecimento em outras épocas do slasher. O resultado, afinal, não foi tão ruim quanto poderia, mas bem inferior ao que Pânico merecia. Agora é questão de esperar a compreensão dos erros cometidos neste, e não planejarem um oitavo longa para tão cedo – e quem sabe, em alguns anos, engolir o orgulho, admitir a injustiça da demissão, e quem sabe retornar com as irmãs Carpenter para a continuidade da franquia.

 

Avaliação: 2.5/5

 

Pânico 7 (Scream 7, 2026)

Direção: Kevin Williamson

Roteiro: Kevin Williamson, Guy Busick e James Vanderbilt

Gênero: Terror Slasher

Origem: EUA, Canadá

Duração: 114 minutos (1h54)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Quando um novo Ghostface surge na pacata cidade onde Sidney Prescott reconstruiu sua vida, seus medos mais sombrios se tornam reais na medida em que sua filha se torna o próximo alvo do assassino.

 
 
 

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