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CRÍTICA | Rivalidade Ardente - 1ª Temporada, 2025 (Heated Rivalry, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Rivais nos campos e aos olhos do público, mas amantes em segredo, Rivalidade Ardente explora o romance entre dois astros do hockey, em meio a jornadas de autodescobrimento e o enfrentamento ao conservadorismo do ambiente esportivo.


 

O formato temático de “romances proibidos” tem sido o destaque recente de uma série de produções nos streamings que miram a comunidade queer. Evidentemente, trata-se de um grupo que ainda enfrenta muito preconceito por uma parcela considerável da sociedade, que se diz “conservadora”, com fundamentos frágeis pautados em ideias como “proteção”, disfarçando descaradamente a pura intolerância, quando o verdadeiro questionamento é: por que a felicidade alheia incomoda tanto, quando a beleza da natureza e do ser humano é, em parte, justamente a diversidade?

 

Em 2021, acompanhamos essa temática queer, inicialmente como segredos pessoais e, gradualmente, com os personagens se abrindo ao mundo, na série sueca Young Royals (em um retrato envolvendo a realeza, em ambiente político mais denso, a partir do príncipe herdeiro e sua relação com um colega de classe, ambos ao final da adolescência); a série britânica Heartstopper (em um cenário urbano, de jovens comuns, também ao final da adolescência); a comédia romântica Vermelho, Branco e Sangue Azul (um romance entre o príncipe da Inglaterra e o filho da presidente dos Estados Unidos); e até a série norte-americana Muito Esforçado (no ambiente universitário, com forte inspiração nas comédias “besteirol” dos anos 2000) – são aqui apenas alguns exemplos, do que assisti, dentre tantos outros que certamente existem.

 

Agora, o sucesso canadense da plataforma Crave, distribuído no Brasil pela HBO Max, oferece um retrato da comunidade em um espaço ainda cercado de muita controvérsia: o esporte. Adaptado da franquia literária Game Changers, escrita por Rachel Reid, a série criada, escrita e dirigida por Jacob Tierney surpreende e diferencia-se pelo ritmo acelerado que confere a narrativa, fazendo jus à tradução “ardente” desde o primeiro de seus seis episódios.

 

Na contramão de outras produções, que dedicam tempo – as vezes quase uma temporada inteira – a trabalhar lentamente o sentimento dos protagonistas, a partir da amizade e entre olhares platônicos, para enfim chegar ao romance propriamente, e ao contato físico, Rivalidade Ardente explora tais sentimentos partindo, justamente, de uma aproximação física entre Shane Hollander e Ilya Rozanov, logo na primeira cena, quando ambos, os melhores jogadores da liga de hockey, se encontram do lado de fora do estádio, e trocam breves palavras, já com um certo olhar se manifestando entre eles.

 

O fato de, em seguida, estabelecerem-se como verdadeiros rivais no esporte sustenta um elemento ainda mais intrigante à essa relação proibida. Não apenas pela necessidade de se resguardarem no ambiente de extremo machismo e homofobia, como o campo do esporte, mas também uma questão midiática, de publicidade. Enquanto de personalidades opostas, ocasionadas pelas próprias origens, ambientes familiares, sociedades, e de habilidades comparáveis, o “ódio” existente entre eles quando o assunto é hockey se converte em amor quando juntos fora dos campos, e longe das câmeras, da mídia e do próprio círculo social.

 

Ambos, ainda que resistam durante muito tempo para se abrirem um para com o outro, revelam o fortalecimento do próprio ser. Rozanov, por exemplo, esconde por detrás da rigidez e da personalidade “bad boy” uma série de preocupações, frente a conturbada vida em família, e ao fato de que, na Rússia, a homossexualidade é vista como crime aos olhos de um Estado ainda muito conservador – uma verdadeira ditadura velada. Inclusive, a escalação de Connor Storrie se provou certeira, enquanto um ator norte-americano (talvez seria uma decisão arriscada escalar um ator russo para o papel, dadas as mencionadas circunstâncias), em seu primeiro papel de destaque, incorporando não apenas um personagem complexo, mas de uma composição muito específica, desde as feições “fechadas”, a voz engrossada, sotaque carregado, diálogos em russo, e em cujo olhar é possível encontrar, desde o primeiro instante, uma tristeza profunda, que ao longo do romance se dissipa quando encontra alguém – Shane – para com quem pode desabafar, e ser a si próprio.

 

Ao mesmo tempo, ainda que a vida familiar e até financeira de Hollander seja o quase completo oposto de Rozanov, com pais presentes e preocupados, existe uma batalha interna por ele também travada em relação à própria sexualidade, reprimida em uma jornada, inicialmente, de autodescobrimento, passando pela aceitação, compreensão, mas ainda ocorrida entre as barreiras da sociedade esportiva, e até no próprio receio de compartilhar dentro de casa, com a família, seus interesses amorosos. É o que igualmente muito bem faz Hudson Williams, com um personagem de composição mais tímida, gentil e sensível, cujos sentimentos são mais evidentemente identificados e externalizados mais facilmente perante à Ilya.

 

O que torna tudo mais especial é que a crença de existências desses personagens, certamente alegóricos, se dá pela além do aspecto individual, quando se fortalece nos momentos em conjunto. É algo que a direção de Tierney trabalha habilidosamente na construção de cada uma das cenas. Da fotografia incolor quando separados, pensando um no outro e sonhando com uma possível vida em conjunto, ao brilho do calor refletido nos momentos eróticos, não apelativos, mas intensos na maneira como articula as cenas de sexo e contato físico desde o primeiro episódio, trata-se de um cineasta com olhar aguçado à construção de um romance que se desenvolve na frente física e emocional, de maneira equilibrada.

 

Não apenas voltada à história de Shane e Ilya, a temática da sexualidade nas competições esportivas norte-americanas é igualmente trabalhada a partir da história de Scott Hunter, personagem vivido por François Arnaud, que interpreta um jogador veterano da liga de hockey, contemporâneo aos protagonistas, também explorando a própria sexualidade, após anos de repressão própria, e começando a se assumir, enfrentando o dilema dos limites entre o público e o privado. É algo que inicialmente parece deslocado, mas aos poucos se revela uma alavanca à narrativa central. Não é necessariamente um desvio ao tema central – longe disso –, mas outra visão àquilo que acontece no entorno dos personagens principais, algo do qual jamais desconfiam.

 

Com a passagem do tempo (questão de anos), o amadurecimento dos sentimentos, e as temporadas da liga esportiva passando, entre vitórias e derrotas para Shane e Ilya, bem como as Olimpíadas de Inverno, e outros eventos esportivos e oportunidades de se encontrarem e aprofundarem a relação, Rivalidade Ardente não apela ao mero erotismo, quando, apesar do ato sexual e atração física se fazerem bastante presentes, sobretudo diante do espectador, de maneira até explícita, e muito bem filmada, revela-se, no fundo, uma série preocupada com a relação entre os protagonistas, seus gestos de amor, e a sobreposição dos obstáculos que os impedem ser quem são, cada qual a sua maneira. Mais do que isso, abordagem do tema no seio esportivo, com sensibilidade, se faz ainda mais relevante, enquanto ainda pouco discutida abertamente, e atua, consequentemente, como uma oportunidade de encorajar atletas a assumirem a própria sexualidade, e consequentemente, a própria personalidade. Confesso que estou aguardando, com ansiedade e curiosidade, a próxima temporada, e o desenrolar desse drama romântico tão profundo quanto sensível.

 

Avaliação: 5/5

 

Rivalidade Ardente - 1ª Temporada, 2025 (Heated Rivalry, 2025)

Criação: Jacob Terney

Gênero: Drama, Romance, Esportes

Origem: Canadá

Duração: 6 episódios - 45 minutos em média cada episódio

Disponível: HBO Max

 

Sinopse: Duas estrelas rivais do hóquei, no auge de suas carreiras, enfrentam o inesperado desafio de se apaixonarem. Em um contexto delicado, seria ideal manter a relação em segredo, ou compartilhá-la com o mundo?

 
 
 

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