CRÍTICA | Stranger Things – 5ª Temporada, de Matt e Ross Duffer (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- há 1 dia
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A temporada final de Stranger Things sintetiza tudo o que a série ofereceu no decorrer dos últimos dez anos, em aventura estilo RPG que acredita na fantasia e na ficção, ainda que tente se explicar demais na última hora e deixar pontas para derivados.

Enfim, Stranger Things terminou. Após dez anos, cinco temporadas, episódios (muito) longos, uma das séries mais populares da Netflix finalmente chegou ao fim, e com um enorme peso nas costas: não decepcionar seus fãs. De fato, não é uma tarefa fácil encerrar uma série depois de tantos anos, e tamanha popularidade. O que começou como apenas uma história de amigos fãs de D&D, monstros e experimentos militares no entorno da cidade de Hawkins, onde vivem, no coração dos Estados Unidos nos anos oitenta, evoluiu para conspirações cada vez maiores, mais elaboradas, histórias de superação, autodescobrimento, e até no uso de seus antagonistas como metáforas para todo o amadurecimento das crianças – que hoje já são praticamente adultos.
Com o grande desafio do encerramento em mãos, os Irmãos Matt e Ross Duffer se esforçaram para se ater, do princípio ao fim, à proposta original, não só de homenagem e apelo à nostalgia dos anos oitenta, como, principalmente, da construção de toda a narrativa sob uma base típica de uma campanha de D&D através do mundo real – ou mesmo de um videogame no estilo RPG, notavelmente uma consequência da existência do outro jogo. Mais do que antes, os realizadores repetiram e replicaram as ideias que melhor funcionaram ao longo das temporadas anteriores, e provaram compreender que a construção das narrativas no entorno de tais elementos é justamente o que constitui o corpo e a alma de Stranger Things, enquanto um verdadeiro jogo, cujas fases se tornam cada vez mais complexas na medida em que os personagens se fortalecem.
Entendidas as falhas da segunda temporada como um ponto de desunião entre os arcos e personagens, que menos funcionam individualmente – cuja boa parte das ideias introduzidas acabaram descartadas no restante da série -, a temporada final busca por um verdadeiro nó na jornada de Eleven e seus amigos no enfrentar de dois antagonistas simultâneos, entre o gestor do mundo invertido e a mão do Estado, na forma dos militares, interessados na continuidade do projeto e construção de poderosas armas a partir dos poderes da personagem.
Com muitos personagens agregados à narrativa ao longo de cinco temporadas, como parte de um time, e uma união entre si – e dos próprios intérpretes – como uma família torna a experiência de um final muito mais emocionante quando conseguem, em conjunto, transmitir uma sensação de encerramento do ciclo. A montagem equilibra, ao longo desses oito episódios, os arcos com parcimônia, de maneira a sempre conseguir manter o suspense no ar, enquanto dedica tempo ao aprofundamento de cada um, e dos efeitos dessa história em seu desenvolvimento como pessoas no decorrer dos anos. É como se os conhecêssemos de perto, em suas intimidades, pela maneira como desabafam uns com os outros, demonstram amor e sinceridade no enfrentamento das ameaças, físicas, emocionais e sociais– como no caso de Will, um dos que, indiscutivelmente, mais sofreu ao longo de todos esses anos, juntamente com sua mãe, Joyce.
Ainda que não tenha sido capaz de manter o ar frenético da temporada anterior, e tampouco um episódio final tão impactante quanto – certamente onde se encontrou o ápice da série, ao menos narrativamente e tematicamente, já que, desta vez, os vilões são reutilizados sob um escopo de “mais e maior” -, o jogo seguro dos Irmãos Duffer, até para o desfecho, serve como alinhamento ideal entre tudo o que ofereceram ao longo desses dez anos de Stranger Things. É fato que o excesso de explicações acerca do mundo invertido, seu funcionamento, existência e o que de fato foram os experimentos – tudo nos últimos dois episódios – poderia muito bem ter sido melhor explorados no decorrer da temporada, ou mesmo simplificado, quando tudo se parece como uma grande solução de última hora; assim como a história do antagonista Vecna também merecia uma completa reformulação, ou tão somente ser escanteada enquanto mal se explora de verdade (o que foi pincelado nessa temporada apenas para vender um derivado depois); e a própria necessidade de se amarrar tudo com os esquecidos eventos do segundo ano tenham estendido a temporada para um pouco além do necessário, afinal havia muito para resolver, mas em momento algum foi sentido (ao menos por mim) qualquer esgotamento ou cansaço em relação ao proposto.
Ao contrário do que muito tem sido dito acerca dessa temporada final pelas redes sociais, com pessoas a cantando como verdadeira enrolação ou perda de tempo, o quinto e último ano de Stranger Things sintetiza abertamente tudo o que a série ofereceu de melhor em todo o seu decorrer. Nunca houve verdadeiramente um ar de completa originalidade, mas a construção de um universo no entorno de referências oitentistas; a inspiração em D&D e RPGs, tanto de mesa quanto de videogames, além de Stephen King e outras obras; e um abraço à aventura como poucas obras fazem na atualidade – ou pelo menos até antes do lançamento da série. Nunca houve uma pretensão de reinventar a roda – e muito longe estão de fazer isso, inclusive -, mas sempre se abraçou a fantasia, a ficção científica e o aspecto aventuresco da imaginação, muito viva nos anos oitenta, que ao longo das décadas seguintes foram se perdendo. E é isso que Stranger Things se propõe a trazer de volta, e plenamente cumpre, em um final seguro, é verdade, mas condizente e respeitoso a todo seu universo e ao que foi feito até então, entre a ação, o mistério, a aventura e o próprio terror. Terminei satisfeito, com aquela sensação de dever cumprido, e um gostinho de “quero mais”, mesmo sem querer que a série tenha uma continuação, ao menos por agora, ou mesmo spin-offs, os quais já até foram anunciados.
Avaliação: 4/5
Stranger Things – 5ª Temporada (Idem, 2025)
Criação: Matt e Ross Duffer
Gênero: Thriller, Aventura, Terror
Origem: EUA
Duração: 8 episódios - 60 minutos em média cada episódio
Disponível: Netflix
Sinopse: Hawkins encontra-se em quarentena militar, com fendas do Mundo Invertido abertas para todos os lados. Com Vecna desaparecido, os heróis improváveis são novamente forçados a se reunir para encontrá-lo e derrotá-lo de uma vez por todas, enquanto o governo caça Eleven.





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