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CRÍTICA | Todo Mundo em Pânico, de Michael Tiddes (Scary Movie, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 11 horas
  • 8 min de leitura

Sem um fio narrativo forte, e repleto de esquetes isoladas, Todo Mundo em Pânico volta mais político e arranca risadas, mas perde parte da essência que, no passado, consagrou a franquia.


 

Após um longo hiato, de mais de dez anos, a franquia Todo Mundo em Pânico finalmente retornou, agora em clima de reinvenção. Afinal, os tempos mudaram, os anos 2000 ficaram para trás, e a sociedade se transformou, em especial em sua tolerância a determinados tipos de humor, bem como o cinema de terror também assumiu novas identidades e estilos. Essa reinvenção, então, que não da roda, se dá em seus eixos, e em frentes distintas. A primeira delas é o rompimento, em grande parte, com o estilo dos filmes três e quatro da franquia, dirigidos por David Zucker e seu humor mais “quinta série”, com muitas piadas na frente e no fundo da cena, para retornar ao humor dos Irmãos Wayans, em uma retomada do controle criativo da franquia. Em seguida, abraçar de vez o tom político, e sobretudo autoconsciente, que apenas se mantinha presente de maneira discreta nos anteriores.

 

A ideia, ao menos em tese, funciona bem justamente a partir da base que elegem para construir essa paródia, Pânico (2022), o quinto filme da franquia slasher, e o primeiro sem a presença do idealizador Wes Craven, que faleceu após a quarta entrada. Como uma sequência-legado, aos moldes da trilogia Halloween de David Gordon Green, Todo Mundo em Pânico traz de volta o elenco clássico, bem como novos personagens – seus filhos, e em tese, uma ideia de futura geração para assumir as sequências (elenco jovem esse muito bem escalado – com destaque especial para Cameron Scott Roberts e Olivia Rose Keegan –, capaz de abraçar as interpretações dos atores originais, com um verdadeiro sentimento de continuidade, ainda que um tanto escanteados no decorrer do filme).

 

Justamente da maneira como a franquia se consagrou, trata-se de uma paródia bem elaborada e bem-produzida, sobretudo no retrato às outras franquias com as quais brinca e referencia, especialmente com o cinema de terror da última década, através de uma direção de arte atenta aos detalhes e a verossimilhança, tal como cenas inteiras que reconstroem, com humor, momentos-chave da base parodiada – como a tensa cena do hospital, na qual o Ghostface faz sua principal vítima em Pânico (2022) –, frutos da habilidosa direção de Michael Tiddes, para brincar com a linguagem dos outros filmes.

 

Nesse sentido, esta nova entrada, em ritmo de ressurgimento, adapta elementos de Todo Mundo em Pânico a uma nova época. O teor político assume de vez as rédeas do roteiro escrito a dez mãos (Rick Alvarez, Craig Wayans, Keenen Ivory Wayans, Marlon Wayans e Shawn Wayans), como forma de debater temas raciais, e alfinetar os Estados Unidos governado por Donald Trump (tal como vem fazendo o cinema de terror nos últimos anos, com mais afinco e de maneira mais explícita do que antigamente), a partir de humor, e referências aos principais acontecimentos da nação na última década. É um retrato cômico e absurdo da visão dos realizadores sobre o país em que residem, e no que se transformou a partir das redes sociais e a velocidade da informação, elementos esses que permitiram uma narrativa mais politizada.

 

Ao mesmo tempo, Todo Mundo em Pânico também sucumbe a alguns dos erros cometidos por seus clones, e outras paródias que inspiraram ao longo dos anos – como o fraquíssimo Disaster Movie (2008), a título de exemplo. Para além do humor certeiro, boa produção e elenco bem escalado, o que fazia da franquia superior a muitas outras paródias de mesmo estilo, incapazes de atingir o mesmo sucesso, era a narrativa coesa, dentro de sua linguagem e universo, e as escolhas de algumas poucas obras para satirizar, sem pecar pelo excesso. É o caso de misturar ideias e passagens de três, quatro filmes diferentes, com mais algumas originais, e tudo bem amarrado. É o que não acontece bem por aqui.

 

Com muita sede ao pote, e tentando tirar o atraso dos dez anos em que a franquia ficou congelada, os realizadores abusaram nas referências, transformando diversas passagens em meras esquetes irrelevantes, apenas com fulcro em brincar com determinado filme, ou fazer certa piada, sem qualquer impacto à narrativa central, que mal se sustenta por si só. O retorno dos personagens icônicos pouco faz diferença também, quando em sua maior parte reciclados com as mesmas piadas, em um apoio mais nostálgico do que efetivo. Algumas delas, inclusive, se isolam por completo de qualquer ponto da trama, como toda a sequência do antigo mordomo com a “mãozinha”, satirizando Longlegs, que resta completamente descartada, mais parecendo ter sido pensada para ser colocada no material promocional do que no filme em si.

 

Nessa vontade excessiva de tirar o atraso, brincar com tantos filmes, movimentos políticos, e lutar para se mostrar um filme atual – e quem sabe, “importante” –, parte da essência que consagrou Todo Mundo em Pânico se esvai. Na mesma medida em que o humor politicamente incorreto reina em algumas oportunidades, em especial nas críticas à geração Z – como toda a cena do metrô –, em outros momentos sucumbe à essas mesmas críticas em um grito desesperado por relevância, justamente nas oportunidades em que abusa das piadas e comentários políticos, em um movimento de contradição, que não sabe exatamente para onde seguir ou no que acreditar.

 

Um tanto comportado demais para a própria franquia – talvez reflexo dos tempos presentes –, fragmentado em esquetes isoladas, e sem um imponente fio condutor, a reinvenção de Todo Mundo em Pânico se dá por piadas soltas, sem se preocupar com uma narrativa bem amarrada. Inegavelmente arranca risadas – como bem conseguiu comigo –, mas falta aquilo que pudesse torná-lo um filme memorável, a partir do momento que inexiste uma lógica interna pela qual o espectador possa se guiar, cheio de piadas e paródias que nunca se conectam de verdade com o todo. Era isso o que tornava a franquia diferente e especial, e que a direção de Michael Tiddes já havia provado conseguir no passado, em seus dois Inatividade Paranormal, mas que neste tornou-se ausente. É um filme divertido, bem atualizado – inclui até piadas com o último Oscar –, mas sem aquela mesma energia de antigamente. Confesso que, como alguém que já assistiu inúmeras vezes, desde criança, os longas anteriores, saí da sessão um tanto decepcionado.

 

Avaliação: 3/5

 

Todo Mundo em Pânico (Scary Movie, 2026)

Direção: Michael Tiddes

Roteiro: Rick Alvarez, Craig Wayans, Keenen Ivory Wayans, Marlon Wayans e Shawn Wayans

Gênero: Comédia, Terror

Origem: EUA

Duração: 96 minutos (1h36)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Mais de 25 anos depois de escaparem de um assassino mascarado muito familiar, o quarteto formado por Shorty, Ray, Cindy e Brenda está novamente na mira do criminoso e nenhuma franquia de terror está a salvo.

 


English review

 

Without a strong narrative thread and filled with disconnected sketches, Scary Movie returns with a more political edge and delivers plenty of laughs, but loses part of the essence that once made the franchise so iconic.

 

After a hiatus of more than ten years, the Scary Movie franchise has finally returned, now in a spirit of reinvention. After all, times have changed, the 2000s are long gone, and society has transformed - particularly in its tolerance for certain types of humor - while horror cinema itself has taken on new identities and styles. This reinvention does not reinvent the wheel, but rather adjusts the franchise along its existing axes and in different directions. The first is a break, for the most part, from the style of the third and fourth entries directed by David Zucker and their more juvenile, gag-heavy humor, packed with jokes both in the foreground and background of scenes, in favor of returning to the comedic sensibilities of the Wayans brothers, who have reclaimed creative control of the franchise. The second is a full embrace of a political and, above all, self-aware tone that had previously remained only subtly present.

 

The idea works well, at least in theory, thanks to the foundation chosen for this parody: Scream (2022), the fifth film in the slasher franchise and the first without its creator, Wes Craven, who passed away after the fourth installment. As a legacy sequel, in the mold of David Gordon Green's Halloween trilogy, Scary Movie brings back its classic cast alongside a new generation of characters - their children, and theoretically the future of the franchise. This younger ensemble is very well cast - with special mention going to Cameron Scott Roberts and Olivia Rose Keegan - and successfully captures the spirit of the original actors, creating a genuine sense of continuity, even if they are somewhat sidelined throughout the film.

 

In the manner that made the franchise famous, this is a well-crafted and well-produced parody, particularly in the way it recreates and satirizes the other franchises it references, especially horror films from the last decade. Through meticulous production design and a commitment to visual authenticity, entire scenes are reconstructed with comedic intent - such as the tense hospital sequence in which Ghostface claims his primary victim in Scream (2022) - thanks to Michael Tiddes' skillful direction and his ability to play with the language of the films being parodied.

 

In this sense, the new installment adapts Scary Movie to a different era. The screenplay, written by Rick Alvarez, Craig Wayans, Keenen Ivory Wayans, Marlon Wayans, and Shawn Wayans, fully embraces political commentary as a vehicle for discussing race and poking fun at the United States under Donald Trump - much like horror cinema itself has increasingly done over the past several years, with greater directness and intensity than before. Through humor and references to many of the country's defining events of the last decade, the film offers a comedic and absurd portrait of the filmmakers' view of modern America and what it has become through social media and the speed of information. These elements allow for a more overtly political narrative.

 

At the same time, Scary Movie falls victim to some of the same mistakes made by its imitators and by other parody films it inspired over the years - such as the notoriously weak Disaster Movie (2008), to name one example. Beyond the sharp humor, strong production values, and well-cast ensemble, what once elevated the franchise above many similar parodies that failed to achieve the same success was its cohesive narrative, operating within its own logic and universe, and its decision to focus on only a handful of films rather than drowning in excess. It was a formula built on combining elements from three or four films, adding a few original ideas, and tying everything together effectively. That is not quite the case here.

 

In its eagerness to make up for the decade-long absence, the film overloads itself with references, turning many sequences into little more than isolated sketches designed solely to parody a specific movie or deliver a particular joke, with no meaningful impact on the central story, which struggles to stand on its own. The return of the iconic characters also carries little weight, as most of them are recycled with the same old jokes, functioning more as nostalgic callbacks than as meaningful additions. Some sequences become entirely detached from the plot, such as the extended segment involving the old butler and the "little hand," parodying Longlegs, which ultimately feels disconnected from everything else and seems more suited to promotional material than to the film itself.

 

In this excessive desire to catch up, parody countless films, comment on political movements, and prove itself relevant - perhaps even "important" - part of what made Scary Movie special gets lost along the way. While politically incorrect humor still thrives in certain moments, particularly in its jokes aimed at Generation Z - such as the entire subway sequence - in other instances the film seems to surrender to the very criticisms it mocks, desperately seeking relevance through an overreliance on political jokes and commentary. The result is a contradictory work that never seems entirely sure of where it wants to go or what it truly believes in.

 

Somewhat too restrained for its own franchise - perhaps a reflection of the times - fragmented into disconnected sketches, and lacking a compelling narrative backbone, this reinvention of Scary Movie relies on isolated jokes without much concern for building a tightly structured story. It undeniably gets laughs - it certainly did from me - but it lacks the qualities that might have made it memorable. There is no internal logic for the audience to follow, only a barrage of jokes and parodies that never truly connect with the larger whole.

 

That sense of cohesion was what once made the franchise unique and special, and something Michael Tiddes had already proven capable of achieving with both A Haunted House films. Here, however, it is noticeably absent. The result is an entertaining and impressively up-to-date movie - it even includes jokes about the latest Oscars - but one that lacks the same energy that defined the franchise in its prime. As someone who has watched the previous films countless times since childhood, I must admit I left the screening somewhat disappointed.

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