CRÍTICA | Tron: Ares, de Joachim Rønning (Idem, 2025)
- Henrique Debski

- 14 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Tron: Ares surge na era das IAs para uma defesa singela, enquanto foca no visual encantador e na trilha eletrizante – mas se esquece da narrativa.

Desde o anúncio, Tron: Ares me deixava com dúvidas em relação aos interesses da Disney para com o projeto. Afinal, o longa original, Tron (1982) levou quase trinta anos para receber uma sequência – Tron: Legacy (2010) –, essa que basicamente repete sua fórmula, mas a engrandece, aperfeiçoa e atualiza, sobretudo os efeitos, para o século XXI, em uma “cyber opera” que apesar de se aproveitar das mesmas bases de Star Wars, estabelece uma realidade eletrônica muito interessante, e trabalha temas sócio-políticos sérios por meio de analogias.
Já Tron: Ares, por sua vez, descarta quase que por completo tudo o que havia sido feito anteriormente em Legacy, escanteando seu protagonista, e ascendendo novas CEOs para a empresa protagonista, Encom, e voltando sua atenção para uma recém-criada rivalidade com a Dillinger Corp., nunca mencionada, mas em teoria fundada após os eventos de Tron – uma retcom no universo, certamente.
Na prática, a base da narrativa, um tanto confusa e notavelmente perdida em questão de direcionamento, tanto para a obra quanto para o universo, é uma ideia já trabalhada em Legacy – basicamente uma consequência de seus eventos – e aproveitada de maneira diversa, e com outro contexto, aqui: a unificação das realidades físicas e virtuais. Acontece que se lá o interesse era em trazer benefícios à humanidade, e embebido em uma história de romance, a proposta da vez é a criação de super-soldados, infalíveis e invencíveis, que Julian Dillinger, neto do fundador da empresa, pretende vender ao exército e lucrar com guerras e tecnologia militar.
As críticas tecidas à indústria armamentista e às guerras são óbvias desde o princípio, e não conseguem encontrar um diferencial em meio a tantas ficções-científicas que reservam e trabalham a mesmíssima temática aos antagonistas – aqui bem vividos por Gillian Anderson e Evan Peters, que ao menos se entregam nessa conflituosa relação mãe e filho, mesmo que nem tão bem aproveitados. O que muda é a aproximação que se faz da inteligência artificial como o tema central, e a forma como pouco a pouco o programa “Ares” – vivido por Jared Leto – começa a virar-se contra seu criador.
Mas se ao menos se desse em razão de autonomia, seria justificável, e novamente entraria no mesmo bolo de outros tantos filmes que já falaram sobre isso. A solução encontrada pelo roteiro de David DiGilio e Jesse Wigutow, porém, é não só talvez a mais bizarra, como também engraçada: o programa começa a criar sentimentos.
O problema disso tudo é a incompetência do texto em justificar ou ao menos desenvolver qualquer elemento relacionado – pelo contrário, apenas joga as ideias para o ar, e segue no desenrolar dessa relação de cooperação entre Ares, voltado contra Dillinger, e Eve Kim – vivida por Greta Lee -, CEO da Encom, e perseguida do antagonista, na busca de um código transformador, em uma espécie de “casamento de interesses”.
É como se qualquer criatividade, ou mesmo elemento já trabalhado anteriormente pela franquia, fosse ignorado em Tron: Ares, que abandona parte de sua personalidade ao moldar-se sob uma narrativa genérica (talvez mais que a dos demais) de ataque ao mundo real por parte de seres cibernéticos, deixando de lado justamente sua alma, que é a exploração do mundo virtual – o que até acontece, de forma bastante superficial, e rende um momento interessante (e pseudo-existencialista) que serve de despedida para Jeff Bridges para a franquia.
Ainda assim, a trilha sonora original composta por músicas eletrônicas mantém-se firme, e com uma ação bem dirigida e coreografada pelo norueguês Joachim Rønning, cineasta extremamente competente, preso às malfadadas sequências renegadas de grandes franquias do estúdio, capaz de suprir a ausência de Kosinski ao manter o estilo visual brilhante de Legacy, e sequências de perseguição e luta bem elaboradas, seja pela forma como desloca sua câmera ou mesmo pelo uso de câmera lenta e de uma violência implícita interessante, sobretudo em meio a dimensão do conflito pela cidade, e da própria destruíção.
No fim das contas, com toda a temática sobre a qual o filme finca seus pilares, fica bastante claro o interesse da Disney com Tron: Ares em uma defesa, ainda que discreta, sobre as possibilidades benéficas que podem ser criadas pelo maior uso da inteligência artificial pelas empresas – e com isso, refere-se também ao cinema. E apesar do discurso antimilitarista batido, dessa defesa redundante às IAs, e de uma clara confusão fundada na ausência de qualquer organização sobre o universo da franquia, não há como negar que me diverti. Talvez fosse a experiência de cinema, ou a vontade de desligar a cabeça por alguns instantes depois de um dia cansativo, mas Ares ao menos se diverte com a ação e a inspiração visual, ainda que se atrapalhe (e muito) com a narrativa.
Avaliação: 3/5
Tron: Ares (Idem, 2025)
Direção: Joachim Rønning
Roteiro: David DiGilio e Jesse Wigutow
Gênero: Ação, Ficção Científica, Thriller
Origem: EUA
Duração: 119 minutos (1h59)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Ares, um sofisticado programa, é enviado do mundo digital para o mundo real em uma perigosa missão, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres de Inteligência Artificial.



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