CRÍTICA | Um Filme Minecraft, de Jared Hess (A Minecraft Movie, 2025)
- Henrique Debski

- 18 de abr. de 2025
- 4 min de leitura
Um Filme Minecraft vai além do jogo – se beneficia ao assumir o ar do ridículo, em uma aventura fantasiosa que debate a descoberta da criatividade no mundo real.

Minecraft foi uma parte essencial do fim da minha infância e início da adolescência. Lembro-me como se fosse ontem de quando estava em meu sexto ano do Ensino Fundamental, no longínquo ano de 2012, em que chegava em casa da escola, na hora do almoço, ansiando para ligar o computador, e assistir a vídeos de Minecraft na internet, antes de fazer as lições de casa do dia e demais afazeres. Ao final da tarde, e a noite, era hora de jogar – o que fazia e me divertia até a hora de dormir. Era quase um vício, que me deixou em apuros com algumas notas baixas e rendeu até restrições e proibições de jogar para tentar recuperar o prejuízo.
Era mágico poder transitar livremente por aquele mundo onde o céu era o limite, onde a criatividade era praticamente ilimitada, de construir casas, ruas, bairros e cidades inteiras no modo criativo, ou de sobreviver aos perigos do mundo exterior no modo sobrevivência. Assim, quando um filme sobre Minecraft foi anunciado, confesso que torci o nariz, e até entrar na sala de cinema, não acreditava que pudesse dar certo, ainda mais em um formato live-action, entre outras tantas variáveis que poderiam torna-lo um verdadeiro desastre.
Mas depois do que vi, acredito em qualquer coisa. Ainda que construído sob uma fórmula infanto-juvenil bastante óbvia – que em partes recicla muito, por exemplo, daquilo que Super Mario Bros. O Filme já tinha feito, há cerca de dois anos -, Minecraft consegue capturar a essência do jogo que adapta diante das câmeras cinematográficas. Ao invés de buscar por um universo fantasioso complexo, o filme faz justamente o contrário, ao empurrar um homem comum, tal como o espectador, adentro daquele mundo quadrado e ansiando para ser explorado.
Quando o Steve de Jack Black – muito engraçado, por sinal – adentra àquele mundo pela primeira vez, foi como se eu assistisse ao Henrique de onze anos tendo contato com o jogo pela primeira vez. Nessa realidade “quadrada demais” que é o mundo real, onde nem sempre temos a liberdade que desejamos, Minecraft oferece uma válvula de escape, com a possibilidade de sermos os donos de nosso próprio mundo, e o moldarmos, quase que sem limites, à nossa própria forma.
É o que sente também o personagem Henry, vivido por Sebastian Hansen, que compartilha com Steve desse mesmo sentimento limitante empurrado pela realidade concreta. O que, no entanto, ambos precisam aprender, cada um à sua maneira, é o fato de que responsabilidades existem, e muitas delas fora, ou contrarias, à nossa vontade ou controle – tal como não podemos passar as nossas vidas trancados no quarto jogando videogame.
É a partir dessa ideia que tudo ao redor do filme se desenvolve na metáfora de enfrentar o mundo exterior. Talvez o terço inicial de Um Filme Minecraft se alongue um pouco antes de realmente se debruçar sobre o universo do jogo, mas é capaz de construir uma base sólida de conflitos, ainda que óbvios e triviais, a serem resolvidos ao longo da aventura pelos personagens, que representam, cada um, uma faixa-etária diferente.
Ainda que alguns elementos do jogo base tenham sido adaptados de forma a amoldar-se de maneiras melhores em relação à proposta cinematográfica (como a natureza violenta dos porcos-zumbis no Nether e a criação de uma vilã que, até onde sei, não existe no jogo), a direção de Jared Hess prova que compreende os elementos de Minecraft ao usar da criatividade como uma das chaves de sua narrativa (tal como South Park fizera há alguns anos, em um episódio sobre a “Imaginationland”), através da construção como meio de defesa, e até mesmo do uso criativo da “crafting table” de maneira visual e inteligível.
Além dessa estética que mescla live-action com bastante CGI, ao ponto de chegar no limite do vale da estranheza, em um bom sentido, Hess ainda se beneficia muito de seu humor, e da falta de seriedade com a qual conduz o elenco – principalmente Black, Jason Momoa e Jennifer Coolidge - e a narrativa, deixando se assumir o ridículo, aquele ar piegas, e ainda assim cômico na medida certa – com direito até a piadas de duplo sentido -, e uma ação fantasiosa que diverte tanto a criança quanto o adulto.
E assim, Um Filme Minecraft abraça, bem, todos os públicos que pretende atingir – pais, crianças, adolescentes e, especialmente, os fãs de Minecraft, com direito a referências que até extrapolam as barreiras e os limites do próprio jogo. Com uma boa direção, e uma narrativa que busca abarcar seus múltiplos tipos de espectadores, através dos personagens em tela, o filme acerta ao não se levar a sério, abraçar a artificialidade e sobretudo, o ridículo. O Henrique de 2025 adorou, se identificou, e tenho certeza de que o Henrique de 2012 também teria – saí feliz e com o coração aquecido, querendo jogar Minecraft novamente.
Avaliação: 4/5
Um Filme Minecraft (A Minecraft Movie, 2025)
Direção: Jared Hess
Roteiro: Chris Bowman, Hubbel Palmer, Neil Widener, Gavin James, Chris Galletta e Allison Schroeder
Gênero: Aventura, Ação, Fantasia, Comédia
Origem: EUA, Canadá, Suécia, Nova Zelândia
Duração: 101 minutos (1h41)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Quatro desajustados são transportados para um bizarro país das maravilhas cúbico onde impera a imaginação. Para voltar para casa, eles terão que dominar este mundo enquanto embarcam em uma missão com um experiente construtor imprevisível. (Fonte: IMDB - Adaptado)



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