CRÍTICA | Vivo ou Morto, de Rian Johnson (Wake Up, Dead Man, 2025)
- Henrique Debski

- 13 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Rian Johnson elege a culpa como temática central de Vivo ou Morto, satiriza discursos fanáticos dentro do catolicismo, em ‘whodunit’ bem elaborado – e o mais divertido da franquia Knives Out até o momento.

A cada nova entrada na franquia Knives Out, é como se Rian Johnson se sentisse mais confortável dentro de seu universo de “murder mysteries” investigados pelo excêntrico detetive Benoit Blanc, vivido por Daniel Craig. Aos poucos, o cineasta, em seus diferentes casos, explora uma faceta diversa desse tão interessante personagem a partir do ambiente em que se encontra, e o respectivo caso que investiga, sempre rodeado pela ganância do ser humano. Se num primeiro longa, Entre Facas e Segredos, o conhecemos e o vimos trabalhando no seio de uma família problemática e falsa nas relações para uns com os outros; no segundo, Glass Onion, o acompanhamos no reino das falsas aparências, da duplicidade e das meias verdades em uma estranha reunião de amigos embebida na mediocridade de seus integrantes.
Desta vez, em Vivo ou Morto, Blanc enfrenta a (des)crença em uma força maior a partir de um ambiente religioso, em uma comunidade católica no interior dos Estados Unidos onde, em um pequeno grupo de pessoas, as aparências cristãs são diretamente confrontadas pela hipocrisia com a chegada de um novo padre, decidido a discordar dos métodos extremistas do monsenhor local, tendente ao fanatismo em discursos perigosos.
Mantendo seu olhar fixo para os injustiçados, desafortunados e desesperados, responsáveis por auxiliar Blanc no guiar das narrativas e das investigações, o cineasta abandona um pouco de suas experimentações de Glass Onion, na desconstrução dos mistérios tradicionais, ao subverter a provável vítima, e aposta dessa vez em uma estrutura um tanto mais padronizada para o estilo de “whodunit” ao qual referencia, e se apoia na literatura de Dickson Carr (The Hollow Man, mais especificamente) e Agatha Christie (sua maior inspiração) para surpreender com mirabolância, mas sem perder o charme – e a possibilidade do espectador investigar o mistério mentalmente, junto aos personagens.
A partir da chegada do Padre Jud Duplenticy - em uma excelente atuação de Josh O’Connor, um dos grandes destaques do filme –, catalisador dos conflitos estabelecidos no interior daquela pequena paróquia de fanáticos ao tentar levar-lhes em direção ao caminho cristão correto, Johnson nos coloca sob seu ponto de vista acerca dos fatídicos eventos que levam à necessidade de intervenção do detetive Blanc. Até a chegada do mistério, a introdução é pacienciosa na maneira como direciona atenção a cada um dos suspeitos, construindo cuidadosamente a hostilidade daquela igreja; os discursos do Monsenhor; seus cervos e fiéis seguidores, cada vez em menor número, fechando-se em um pequeno grupo, que se esgueira pelas beiradas, escondendo os reais interesses e encantados por falsas palavras de um homem que constantemente desvia de seu propósito e profana os princípios da religião que representa.
Em uma verdadeira crise pessoal, tomado por culpa e buscando pela absolvição diante da religião, ao contrário dos outros dois longas, um aspecto dramático e de redenção é o que conduz o Padre Jud às descobertas, deixando, ao personagem, parte de uma veia humorística para o lado. Sua verdadeira fé, demonstrada pelo amor ao próximo, é o que leva Blanc a acreditar em sua palavra e elegê-lo como aquele que o auxiliará nas investigações. Não existe um ‘deus ex-machina’ ao longo da narrativa quando as informações não surgem do nada, mas são fruto da compaixão e do verdadeiro caminho ao qual trilha, oferecendo uma aproximação do espectador ao personagem, na imersão àquele universo.
Colocando a fé e o catolicismo ao centro, a sátira proposta pelo cineasta é bastante respeitosa à instituição, e direcionada especificamente a quem usa da palavra da Bíblia ou de D’us para satisfazer aos próprios interesses, como é o caso de boa parte dos personagens. Os ritos da religião, por outro lado, tornam-se objeto de interesse do diretor, e são incorporados ao longo da narrativa na investigação de um caso aparentemente impossível de ser solucionado.
Ainda assim, mesmo seguindo por uma estrutura inicialmente mais tradicional aos mistérios “whodunit” a lá Agatha Christie, Rian Johnson mantém sua proposta de subverter o estilo para a surpresa do público e construção de uma identidade. Como se o mistério central já não soasse impossível de ser solucionado, seus desdobramentos seguem para além do absurdo quando muitas histórias contadas ao longo do filme, aparentemente desconexas, se interligam para amarrar, com precisão, todos os acontecimentos, na medida em que a confiança de certas pessoas é conquistada, e os verdadeiros sentimentos acabam se sobressaindo aos seus semblantes.
O ser humano mantém-se ao centro dessa história que gira no entorno da culpa, e com a temática religiosa, a fotografia de Steve Yedlin não deixa de aproveitar as oportunidades para brincar com a iluminação no interior da igreja e demais ambientes, com a luz amarelada adentrando aos vitrais e janelas, iluminando os caminhos das investigações e os personagens em seus devidos momentos.
Ainda que eventualmente o excesso de tempo dedicado a determinados suspeitos torne parte do mistério um tanto mais frágil quando começamos a inferir em quem está realmente envolvido nos fatos, as soluções críveis encontradas por Johnson não desafiam a boa vontade do público, e, mesmo que exageradas, ficam dentro do limite da verossimilhança, com todos os elementos dados em nossas mãos, mesmo que nem sempre os enxerguemos – o que é de praxe em um “whodunit”.
Dessa maneira, Vivo ou Morto é o melhor da franquia Knives Out até então. Com o diretor e idealizador do projeto sentindo-se mais à vontade para brincar com o estilo do ‘whodunit’, e com seu consolidade detetive Benoit Blanc, Rian Johnson reúne um elenco estelar em sintonia e aprimora sua fórmula em prol de um mistério mais complexo, visualmente muito bem elaborado, nas composições e na mise-en-scène com pistas sempre à mostra, e seu típico bom-humor, que aqui cede um pouco de espaço ao aspecto dramático, na forma do fascinante protagonista de Josh O’Connor, que carrega o filme nas costas – até se sobressaindo à Daniel Craig, que igualmente segue ótimo e confortável na pele do detetive Blanc.
Avaliação: 4.5/5
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (Wake Up, Dead Man: A Knives Out Mystery, 2025)
Direção: Rian Johnson
Roteiro: Rian Johnson
Gênero: Thriller, Comédia, Drama
Origem: EUA
Duração: 144 minutos (2h24)
Disponível: Netflix
Sinopse: O detetive Benoit Blanc conta com a ajuda de um jovem padre para investigar um crime perfeitamente impossível na igreja de uma cidadezinha que tem uma história sombria.





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