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TIFF 51 | Our Loves, de Avi Nesher (האהבות שלנו ,2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
há 4 horas
8 min de leitura

Na proposta de um drama no entorno dos eventos de 07 de outubro, Our Loves não consegue equilibrar tantas histórias no decorrer de sua duração, e a partir de uma encenação precária, perde seu potencial dramático. 



É uma prática comum ao cinema explorar um evento traumático e doloroso pelos olhos de suas vítimas. Enquanto muitos filmes de guerra, por exemplo, levam o espectador a acompanhar o lado de soldados em combate nos fronts de batalha, outros direcionam o olhar aos civis e às vítimas do conflito em território rural e urbano. Naturalmente, um evento como o dia 07 de outubro de 2023 em Israel, marcado como uma das mais violentas invasões ao país desde sua formação, até hoje ainda não totalmente cicatrizado, seria objeto de interesse para cineastas, ao voltar-se às vidas interrompidas a partir do ataque terrorista em uma rave e ao kibutz Nir Oz, que, para além de mortos e feridos, ainda levou inúmeras pessoas sequestradas, incluindo idosos, mulheres e crianças. No ano passado, a tragédia já havia sido objeto do excelente documentário Holding Liat, de Brandon Kramer, e agora, em um drama de ficção, baseado em histórias reais, foi a vez do veterano israelense Avi Nesher retornar a este dia.


Abrindo a narrativa justamente no festival de música atacado, Our Loves começa dois dias antes do fatídico momento. É uma oportunidade para o cineasta apresentar seus muitos personagens, em uma estrutura de diversos arcos - no mais, pessoas comuns, vivendo suas vidas, entre trabalho, conflitos familiares e relações amorosas -, todas bastante distintas, cujas vidas de alguma maneira acabarão se intercalando pela tragédia anunciada pelo destino. 


De certa maneira, existe uma sensibilidade que permeou minha experiência em relação à proximidade comunitária pelos fatos narrados. De toda forma, não é fácil assistir a pessoas vivendo suas vidas normalmente conosco sabendo que poderão acabar em um piscar de olhos, em um ataque terrorista covardemente orquestrado, mirando civis, e com intenções primárias de sequestros violentos. No entanto, existe uma barreira no meio de tudo: há muita dificuldade por parte do filme em construir personagens verossímeis. Não é um problema que decorre dos conflitos em si, até realistas, mas na forma como são articulados, desde o texto falado até a sequência de acontecimentos.


Nota-se um desconforto por parte do elenco em proferir aquelas palavras, como quem não acredita no que é realmente dito. Por muitas vezes se comportam de maneiras robóticas, não encontram a entonação correta, e assim não passam a credibilidade de que sentem aquilo que é dito. Não é uma culpa exclusiva do texto, até bastante artificial, mas sobretudo de uma direção que não encontra verdade naquilo que está sendo filmado, muitas vezes com uma sensação de pressa.


Se já é complicado comprar aquelas pessoas como verdadeiras, a articulação dos arcos pela montagem não consegue equilibrar os eventos narrados. Não há necessariamente uma linha cronológica que coloca a todos para caminhar adiante, às vezes voltando, e por outras avançando no decorrer do dia, sem grandes indicações de tempo. 


Quando então volta-se ao retrato da violência e do terror do dia 07 de outubro, durante os ataques, a decupagem de Avi Nesher filma sequências de ação dignas de esquetes de comédia, ou paródias dirigidas pelo trio ZAZ, onde a falta de lógica, ou de proporção geográfica constituem o centro da cena. Nunca existem lutas ou o enfrentamento real entre os personagens e os vilões terroristas em um mesmo quadro, sempre repleto de cortes, com o disparo de tiros, e eventualmente, um contraplano mostrando se foram acertados ou não (quando acontecem), com atuações que beiram o amadorismo, incluindo personagens militares que mal conseguem segurar uma arma corretamente. Não são fruto necessariamente de um mau trabalho do elenco, mas novamente da falta de direção para o retrato sério supostamente pretendido.


A tensão, que deveria ser o foco de tais momentos delicados, sequer existe. Em algumas passagens, perseguições se articulam em tela como um desenho animado, com os protagonistas da cena passando por detrás dos antagonistas, que nem os notam, como se não os vissem ou ouvissem. A encenação é toda muito precária, tanto pela forma como é filmada, em planos cuja câmera parece mal posicionada, com os personagens fora do campo de visão durante muito tempo, quanto pela própria falta de direcionamento aos atores, constantemente em descompasso.


São problemas que se esperam, eventualmente, de um diretor inexperiente, mas não alguém como Avi Nesher, com décadas de carreira, e inúmeros créditos nas costas. Our Loves acaba se tornando mais uma paródia não intencional do 07 de outubro pela forma como articulado, do que uma ode e homenagem às memórias das vítimas e suas famílias. A intenção é de certo muito boa, com o amor permeando os momentos de desespero, capaz de fazer pessoas caminharem rumo ao inimaginável, e nos minutos finais até consegue extrair um pouco de emoção, mas durante a maior parte do tempo não faz ideia de como aproveitar do potencial que tem em mãos. São muitos personagens e arcos que o filme coloca em mente a necessidade de conexões que não precisavam acontecer, e dedicando duas horas aos dramas de tantas pessoas, tudo se torna superficial, ainda mais para uma produção de orçamento modesto, que não reconhece de suas limitações e acaba buscando por algo que não consegue atingir. No fundo, chega até mesmo perto de desrespeitar as memórias e histórias reais que serviram como base à narrativa, e não homenageá-las como pretendia. É uma das grandes decepções desta edição do TIFF.


Avaliação: ★★

 

Our Loves (האהבות שלנו ,2026)

Direção: Avi Nesher

Roteiro: Avi Nesher

Gênero: Drama, Thriller, Guerra

Origem: Israel

Duração: 117 minutos (1h57)

51th Toronto International Film Festival (TIFF) 


Sinopse: Cinco homens e mulheres comuns, presos em relacionamentos marcados por conflitos amorosos, familiares ou pessoais, acreditam estar vivendo o pior dia de suas vidas. No dia seguinte, os acontecimentos de 7 de outubro transformam radicalmente suas vidas, obrigando-os a enfrentar seus traumas, buscar redenção e encontrar uma possibilidade de recomeço.


English review


In its proposal of a drama surrounding the events of October 7, Our Loves fails to balance so many stories throughout its runtime, and through precarious direction, loses its dramatic potential.



It is a common practice in cinema to explore a traumatic and painful event through the eyes of its victims. While many war films, for example, have the viewer follow soldiers in combat on the battlefronts, others direct their gaze toward civilians and victims of the conflict in rural and urban territories. Naturally, an event such as October 7, 2023, in Israel, marked as one of the most violent invasions of the country since its formation, still not fully healed to this day, would be of interest to filmmakers, turning their attention to the lives interrupted by the terrorist attack at a rave and at Kibbutz Nir Oz, which, beyond those killed and wounded, also resulted in numerous people being kidnapped, including elderly people, women, and children. Last year, the tragedy had already been the subject of Brandon Kramer's excellent documentary Holding Liat, and now, in a fictional drama based on real stories, it was veteran Israeli filmmaker Avi Nesher's turn to return to that day.


Opening the narrative precisely at the attacked music festival, Our Loves begins two days before the fateful moment. It is an opportunity for the filmmaker to introduce his many characters, in a structure of several arcs - ordinary people, after all, living their lives amid work, family conflicts, and romantic relationships -, all quite distinct, whose lives will somehow end up intersecting through the tragedy announced by fate.


In a certain way, there is a sensitivity that permeated my experience regarding the sense of community surrounding the events portrayed. In any case, it is not easy to watch people living their lives normally alongside us while knowing that they could be gone in the blink of an eye, in a cowardly orchestrated terrorist attack, targeting civilians, with the primary intention of carrying out violent kidnappings. However, there is a barrier in the middle of everything: the film has great difficulty constructing believable characters. This is not a problem that stems from the conflicts themselves, which are even realistic, but from the way they are articulated, from the spoken dialogue to the sequence of events.


One can notice a discomfort on the part of the cast in delivering those words, as if they do not believe what is actually being said. They often behave robotically, fail to find the correct intonation, and therefore do not convey the credibility that they feel what is being said. It is not exclusively the fault of the dialogue, which is itself quite artificial, but above all of a direction that fails to find truth in what is being filmed, often creating a sense of haste.


If it is already difficult to accept those people as real, the articulation of the arcs through the editing fails to balance the events being narrated. There is not necessarily a chronological line that makes everyone move forward, sometimes going back, and at other times moving ahead throughout the day, without any major indications of time.


When it then turns to portraying the violence and terror of October 7 during the attacks, Avi Nesher's découpage films action sequences worthy of comedy sketches, or parodies directed by the ZAZ trio, in which the lack of logic or geographical proportion becomes the center of the scene. There are never fights or actual confrontations between the characters and the terrorist villains within the same shot, always filled with cuts, with gunshots being fired, and eventually a reverse shot showing whether they were hit or not (when that happens), with performances that border on amateurism, including military characters who can barely hold a weapon properly. These are not necessarily the result of poor work by the cast, but once again of the lack of direction for the serious portrayal supposedly intended.


The tension, which should be the focus of such delicate moments, does not even exist. In some passages, chases unfold on screen like a cartoon, with the protagonists of the scene passing behind the antagonists, who do not even notice them, as if they could neither see nor hear them. The staging is all very precarious, both in the way it is filmed, in shots where the camera seems poorly positioned, with the characters remaining outside the frame for long periods, and in the very lack of direction given to the actors, who are constantly out of sync.


These are problems one might eventually expect from an inexperienced director, but not from someone like Avi Nesher, with decades of career and countless credits to his name. Our Loves ends up becoming more of an unintentional parody of October 7 because of the way it is articulated than an ode to and tribute to the memories of the victims and their families. The intention is certainly very good, with love permeating moments of despair, capable of making people walk toward the unimaginable, and in the final minutes it even manages to extract some emotion, but for most of its runtime it has no idea how to take advantage of the potential it has in its hands. There are too many characters and arcs, which makes the film feel compelled to create connections that did not need to happen, and by devoting two hours to the dramas of so many people, everything becomes superficial, even more so for a modest-budget production that does not recognize its limitations and ends up reaching for something it cannot achieve. At its core, it even comes close to disrespecting the memories and real stories that served as the basis for the narrative, rather than honoring them as it intended. It is one of the great disappointments of this edition of TIFF.


★★


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