10º OVERLOOK FILM FESTIVAL | Suffocation, de Louis Chan e Stone Chang (晚窒息, 2026)
- Henrique Debski

- 22 de abr.
- 7 min de leitura
Com câmera na mão, em sucessivos planos-sequência, Suffocation teme assumir-se como um “found-footage”, se tornando um terror de maldição confuso – e pior, genérico.

Nos primeiros minutos de Suffocation, os créditos iniciais aparecem em tela sob uma música instrumental suave, com uma adolescente nadando, e a câmera, estática, posicionada ao fundo da piscina. Assim se mantém durante alguns poucos minutos, até que a garota é fortemente puxada para dentro d’água, acompanhada de uma grande mancha avermelhada, em tom escarlate. Sem cortes, a câmera sai da água, passa pelo chão, ao lado da piscina, que revela um ritual, e chega, de relance, à imagem de uma espécie de fantasma. Em uma transição criativa, que busca manter o plano sequência, escondendo o corte, a noite passa, e a polícia se encontra no local, que descobrimos ser uma escola, pela manhã.
É quando, de um personagem a outro, somos introduzidos ao grupo protagonista, composto em sua maioria por garotas populares, parte do time de natação; dois amigos delas; e mais uma colega, que ficara de ajudá-las com o estudo de matemática no período da noite, quando ficarão na escola até mais tarde. Durante todo o tempo, a decupagem trabalha com planos-sequência, sob uma estética “câmera na mão”, como se não houvesse quaisquer cortes, mesmo diante das passagens de tempo ou quando alterna entre personagens em locais distintos. Essa fotografia ininterrupta, no decorrer da projeção, alterna em suas propostas, ora seguindo os personagens como uma espécie de observadora oculta, registrando os fatos, e em outras oportunidades atua como uma primeira pessoa, buscando apavorar tanto o espectador quanto aquele à frente da câmera.
Ainda que essa abordagem possa trazer, em teoria, uma diferença formal do filme para com tantos outros, que abordam temáticas de maldição em escola, bullying e grupos de maneira parecidas, na prática, além de não contribuir para que Suffocation seja apenas um filme genérico, a dupla de diretores Louis Chan e Stone Chang apresentam grande dificuldade em tornar a experiência imersiva, e por uma série de fatores.
A começar pelo próprio texto, cujos personagens, ainda que apresentados, sequer se distinguem entre si, no tocante às personalidades, interesses, características, históricos, graus de amizade entre si e reações diante da situação de perigo que enfrentam. Todos se parecem com um simples nome escrito em uma folha de papel, com uma função narrativa a desempenhar – qual seja: ser possuído, assombrado, correr para um lado, tentar ajudar o outro ou iniciar uma briga entre o grupo por alguma razão. O próprio elenco se mostra igualmente perdido em suas intepretações, algo em que a direção também falha, sem saber se devem agir com mais ou menos medo, tentar enfrentar o perigo ou recuar – eles nunca parecem confortáveis ou conscientes de quem interpretam, e na pele deles, sobre como devem agir e reagir.
O próprio mistério sobre o que está acontecendo naquela escola, e por quem ou pelo que estão sendo assombrados igualmente não parece ser interessante ao longa, na medida em que as pistas simplesmente aparecem nas mãos dos personagens, quase sempre espontaneamente e por sorte, ao passo que em momento algum encontram alguma forma de enfrentar aquilo que os persegue.
Na verdade, a própria entidade também carece de destaque, enquanto desnorteada em suas intenções, eventualmente aparecendo para assustar – alguns dos poucos momentos mais inspirados do filme, que realmente funcionam pelo jumpscare fácil de pular em frente à câmera –, mas sem qualquer padrão ou mesmo poderes delimitados. Ela possui personagens, abre e fecha portas, arremessa pessoas, liga e desliga luzes, como uma força onipresente que nunca se materializa, e somente surge quando o roteiro precisa, totalmente vinculada à necessidade do filme preencher seus noventa minutos de duração, estendendo a chegada de um debate sobre bullying que apenas acontece superficialmente nos instantes finais.
Se toda a história contada em tela já não soa interessante – seja pela obviedade ou ausência de qualquer desenvolvimento –, a execução por planos-sequência, ainda que ousada, torna a experiência exaustiva pela maneira como dirigida. A confusão geográfica ocasionada pela câmera na mão, excessivamente próxima aos personagens, confunde o espectador quando os ambientes pelos quais transitam nunca são explorados. Por vezes, eles reagem a algo que veem ao lado, cuja câmera demora a girar, e portanto, não capta precisamente o que os apavorou, enquanto já o faz correndo novamente para acompanhá-los (isto quando não está apontada para o chão, o que acontece por diversas vezes).
Essa necessidade constante de filmar, nunca desligar, e esconder seus cortes faz Suffocation parecer um filme “found-footage”, mesmo sem ter qualquer personagem segurando a câmera. Suas escolhas formais, que pensa serem ousadas, e assim tentam se propor, tornam-se incomodas, a partir do momento que atrapalham o desenrolar do terror. Somado a narrativa pouco interessante, personagens unidimensionais, conveniências e muita suspensão da descrença (como “por que não tem uma única pessoa responsável na escola junto com eles, como um professor ou um zelador?” ou “onde estava a polícia, já que tinham carros do lado de fora?”), trata-se um longa que até tenta se diferenciar de tantos outros, mas jamais consegue ir além de um filme de maldição genérico, que acredita inovar o gênero, quando toda sua execução nos remete a uma estética “found-footage” que nunca se assume como tal.
Avaliação: 1.5/5
Suffocation (晚窒息, 2026)
Direção: Louis Chan e Stone Chang
Roteiro: Chang Keng-ming
Gênero: Terror
Origem: Taiwan
Duração: 96 minutos (1h36)
Exibido no 10º Overlook Film Festival
Sinopse: Em uma equipe de natação de uma escola de elite assolada por uma maldição sinistra, cinco adolescentes desencadeiam, sem querer, uma série de eventos fatais após exporem um relacionamento proibido entre professor e aluna por meio de um vídeo vazado. À medida que a maldição desperta novamente, eles precisam enfrentar traições e o desespero enquanto correm para descobrir a verdade e romper o ciclo de mortes, apenas para perceber que estão destinados a se tornarem a ruína uns dos outros.
English review
With a handheld camera and successive long takes, Suffocation hesitates to fully embrace itself as found footage, resulting in a confusing - and worse, generic - curse-driven horror film.
In its opening minutes, the film presents its credits over a soft instrumental track, showing a teenage girl swimming while the camera remains static at the bottom of a pool. This holds for a few moments until she is violently pulled underwater, accompanied by a spreading scarlet stain. Without cuts, the camera emerges from the water, glides across the poolside floor - revealing a ritual - and briefly captures the image of a ghostly figure. Through a creative transition that attempts to preserve the long take by masking a cut, night turns into day, and police arrive at the scene, which we soon learn is a school.
From there, we are introduced to the central group: mostly popular girls from the swim team, two male friends, and another classmate who has agreed to help them study math later that evening, when they will remain at the school after hours. Throughout, the film relies on long takes within a handheld aesthetic, as if there were no cuts at all - even across time jumps or when shifting between characters in different locations. This uninterrupted cinematography alternates between functioning as an invisible observer and as a first-person perspective, attempting to frighten both the audience and the characters on screen.
While this approach might, in theory, distinguish the film from other school-set curse narratives involving bullying and group dynamics, in practice it fails to elevate Suffocation beyond generic territory. Directors Louis Chan and Stone Chang struggle to create an immersive experience for several reasons.
The script is the most immediate issue: although the characters are introduced, they are never meaningfully differentiated. They lack distinct personalities, motivations, backstories, or even clear dynamics among themselves. Each feels like a name on paper assigned a basic function - to be possessed, to run, to argue, or to react. The cast, in turn, appears equally lost in their performances, with the direction failing to guide them toward consistent emotional responses. They never seem comfortable or fully aware of who they are portraying, nor how to react to the escalating danger.
The central mystery - what is happening in the school and what is haunting them - is treated with little interest. Clues simply fall into the characters’ hands, often by chance, and at no point do they attempt to understand or confront the threat in any meaningful way.
The entity itself is equally underdeveloped. It appears sporadically, mostly to deliver cheap jump scares - among the few moments that effectively startle - but without any consistent logic or defined abilities. It possesses characters, manipulates objects, opens and closes doors, throws people, controls lights - an omnipresent force that never fully materializes and only appears when the script demands it, clearly serving to stretch the film’s runtime rather than deepen its mythology. A potential discussion about bullying emerges only superficially in the final moments.
If the story itself already feels unengaging - whether due to predictability or lack of development - the execution through long takes makes the experience even more exhausting. The handheld camera, constantly pressed against the characters, creates geographical confusion, as the environments are never properly established. Characters often react to something off-screen, but the camera takes too long to follow, failing to capture what frightened them - or worse, is pointed at the ground, which happens repeatedly.
This constant need to keep filming, never cut, and conceal transitions makes Suffocation resemble a found-footage film, despite the absence of an in-world camera operator. Its formal choices, which aim for boldness, instead become distracting, undermining the horror. Combined with an uninteresting narrative, one-dimensional characters, contrivances, and a heavy reliance on suspended disbelief (such as the absence of any responsible adult in the school, or the unexplained disappearance of the police seen earlier), the film ultimately tries to set itself apart but never rises above being a generic curse horror - one that mistakes imitation of found-footage aesthetics for genuine innovation.
Suffocation was screened at the 10th edition of the Overlook Film Festival.


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