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CRÍTICA | The Curse, de Kenichi Ugana (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 15 de jan.
  • 3 min de leitura

Em The Curse, Kenichi Ugana usa de maldição e redes sociais para descontruir as convenções do J-Horror, em terror criativo ancorado na subversão de expectativas.


 

Ao longo dos últimos dois anos (2024 e 2025), o cineasta japonês Kenichi Ugana tem cada vez mais se provado um dos nomes mais promissores de uma nova geração do cinema no país. Com uma filmografia recente, porém desde já bastante vasta, e vestido com o manto do terror, a cada novo filme o diretor busca adentrar em novos territórios, experimentar com o gênero tratando de assuntos da atualidade, e retrabalhando formatos e cartilhas do horror com novos olhares – e sobretudo, frescor.

 

Seguindo na mesma linha de seu recente, e também inédito Incomplete Chairs, The Curse se aproveita de muitos elementos básicos e estilísticos do J-Horror dos anos 2000, que, junto à influências oriundas posteriormente do cinema norte-americano em suas refilmagens, propõe uma verdadeira subversão, quase em formato metalinguístico, ao passo que o objetivo primário do diretor, para além da história sendo contada em tela, é de surpreender o espectador caminhando no sentido contrário do clichê e da expectativa.

 

A narrativa segue, em um primeiro momento, uma série dos elementos mais batidos do gênero, quando trata-se de um terror de maldição, cuja entidade chega à protagonista na medida em que ela decide investigar – se assim podemos dizer – o falecimento de uma amiga, aparentemente vítima de forças sobrenaturais que se manifestam através das redes sociais (mais precisamente, o Instagram). Muito antes de propriamente chegar na notícia da morte, o filme já nos deixa indícios da maneira como infectará sua personagem, já que o celular parece ocupar um ponto central em sua rotina, como um vício em se aventurar na “perfeição” da vida alheia, e da própria através das fotos que publica, mostrando-se vulnerável, e aberta em aceitar mentiras que a imagem do próximo à vende naquele ambiente virtual onde nem tudo (ou quase nada) é realidade.

 

Quando “infectada” pela maldição, o desespero leva a protagonista a contatar um antigo amigo, residente em Taiwan, com quem há anos não tinha contato, e por quem é informada do falecimento da amiga, próxima a ele. Essa figura, que atua de certa forma como um interesse romântico, ainda que platônico e sem real envolvimento, representa mais um elemento comum ao típico horror de maldição, que posteriormente a levará a um terceiro – no caso, um sacerdote exorcista -, o verdadeiro ápice da disrupção de Ugana para com a fórmula do gênero.

 

A partir da falha no exorcismo, The Curse muda por completo seu direcionamento dentro do gênero, na medida em que desconstrói do último elemento capaz de conectá-lo diretamente ao horror típico dos anos 2000. Tratando um momento cuja cartilha descreveria como tenso sob uma veia relativamente humorística, pautada no descrédito da solução óbvia e na necessidade de uma reinvenção, o diretor dá continuidade à sua investigação, ao passo que deixa clara a falta de tempo aos personagens em se resolverem, e descobrirem uma forma de quebrar a maldição.

 

Fato é que, enquanto acerta na quebra de expectativas, em especial com os batidos jumpscares que ameaçam, mas quase nunca acontecem (ao menos da forma como esperamos), e mesmo no capricho da violência, entre maquiagem e o aspecto gráfico dos efeitos, The Curse também encontra algumas dificuldades no desenrolar de sua narrativa. Por vezes, personagens acabam simplesmente descartados ou esquecidos, como a garota do prólogo, e eventualmente pontas soltas dentro da própria mitologia indicam certa dose de conveniência excessiva do roteiro em algumas oportunidades, seja em como protege personagens em demasia, ou os direciona, artificialmente, ao caminho pretendido, ao passo que certos mistérios permanecem sem uma exata solução.

 

Apesar disso, enquanto rejeita o uso de fórmulas batidas e propõe uma reinvenção ao J-Horror, do início promissor ao ótimo desfecho, The Curse acaba criticando com criatividade o uso excessivo das redes sociais, e sobretudo questiona as realidades montadas, divulgadas em um ambiente onde tudo é falsamente perfeito. Ao ancorar tal contexto a uma misteriosa maldição, e subverter expectativas no desenrolar da história sendo contada, Kenichi Ugana prova domínio e conhecimento do gênero ao qual se aventura, tal como ao histórico cinema de seu país, em uma bem-sucedida tentativa de esquivar-se dos caminhos óbvios em prol de um divertido – e violento – refresco, e assim conseguindo se sobressair no meio de um mar de filmes idênticos e sem criatividade.

 

Avaliação: 3.5/5

 

The Curse (Idem, 2025)

Direção: Kenichi Ugana

Roteiro: Kenichi Ugana

Gênero: Terror

Origem: Japão

Duração: 95 minutos (1h57)

Disponível: Cinemas (no Japão)

 

Sinopse: Riko leva uma vida tranquila com sua colega de casa. Certo dia, ao navegar por uma rede social, ela descobre vídeos estranhos e enigmáticos publicados por uma amiga taiwanesa. Então, Riko descobre que sua amiga falecera há seis meses, mas suas contas nas redes sociais continuam sendo misteriosamente atualizadas.

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