29ยบ FANTASIA | COMPILADO โ โEvery Heavy Thingโ, โThe Wellโ, โSugar Rotโ, โGood Gameโ, โTaroman Expo Explosionโ, โFlushโ, โHoneko Akabaneโs Bodyguardsโ e โLe Tour de Canadaโ
- Henrique Debski
- 20 de ago. de 2025
- 9 min de leitura
Nesta publicaรงรฃo, o objetivo รฉ trazer crรญticas em formato reduzido sobre esses longas que assisti durante minha cobertura da 29ยช Fantasia Film Festival!

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Every Heavy Thing (Idem, 2025)
Direรงรฃo: Mickey Reece
Origem: EUA
Avaliaรงรฃo: 3/5
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Por um lado, รฉ muito interessante a proposta de Every Heavy Thingย em trabalhar a construรงรฃo do peso na consciรชncia de seu protagonista atravรฉs de uma manipulaรงรฃo mental, possรญvel por meio da ficรงรฃo cientรญfica. ร uma culpa crescente enquanto o personagem, testemunha de um fato criminoso, fica impossibilitado de comunicar as autoridades em razรฃo de uma ameaรงa que sofre de um assassino que mal conhece, mas cujas palavras prometidas certamente podem se concretizar a qualquer tempo โ o que รฉ assustadoramente bem estabelecido desde o princรญpio, cuja sensaรงรฃo sobretudo transcende a barreira da tela e chega, facilmente, ao prรณprio espectador.
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Nesse sentido, a narrativa cyberpunk de Mickey Reece se situa em um universo contemporรขneo, entre simbรณlicas metrรณpoles genรฉricas norte-americanas, alegรณricas, mas sob o manto de uma constante atmosfera analรณgica oitentista, que vai da trilha musical a passagens de sonho experimentais e provocativas da espiral de manipulaรงรฃo sobre a qual ficamos imersos junto ao protagonista.
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Mas apesar dessa ameaรงa constante, e do clima de paranoia, o rumo tomado pela narrativa caminha para um final nรฃo apenas apressado, mas que tambรฉm nรฃo aproveita do prรณprio universo da ficรงรฃo cientรญfica e do terror, com uma resoluรงรฃo simplista e fรกcil demais para algo que aparenta ser tรฃo grande. Claro, existe uma limitaรงรฃo orรงamentรกria que notavelmente impede o filme de extrapolar algumas barreiras, mas ainda assim decepciona por uma falta de inventividade, que pelo menos poderia encerrar o filme de maneira nรฃo tรฃo convencional.

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The Well (Idem, 2025)
Direรงรฃo: Hubert Davis
Origem: Canadรก
Avaliaรงรฃo: 2/5
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The Wellย รฉ um filme cansado. Estabelece todo um mundo pรณs-apocalรญptico, onde a รกgua foi contaminada e dizimou em boa parte a populaรงรฃo mundial. Uma famรญlia vive isolada na floresta, em uma casa onde hรก um poรงo, de onde extraem รกgua potรกvel. Mas quando o filtro do poรงo quebra, precisam ir atrรกs de algo para consertรก-lo - e a filha acaba fugindo, escondida, em busca dessa ajuda, enquanto os pais, desesperados, a procuram.
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Com alguns elementos a mais, รฉ notรกvel estarmos diante de uma sinopse genรฉrica, jรก reproduzida um outro tanto de vezes no cinema, com universos mais complexos, e conflitos mais bem estruturados โ posso facilmente citar, de cabeรงa, Um Lugar Silencioso (A Quiet Place, 2018), Bird Box (2018), A Luz no Fim do Mundo (Light of My Life, 2019), Arcadian (2024), e, de certa maneira, atรฉ mesmo Extermรญnio 2 (28 Weeks Later, 2007) -, e ainda que nem todos sejam tรฃo memorรกveis, apresentam uma construรงรฃo de narrativa ao menos mais coesa.
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O problema aqui nรฃo รฉ orรงamento - atรฉ porque a produรงรฃo, visualmente, รฉ muito boa, e contou com uma equipe dedicada - mas sim o que fazer com essa histรณria. Nรฃo existem personagens profundos, senรฃo um constante clima de desconfianรงa da protagonista em relaรงรฃo a comunidade que encontra, resumida em frases absolutamente vazias, que numa certa forma poรฉtica pela qual sรฃo colocadas, apenas parecem significar alguma coisa; e menos ainda alguma inspiraรงรฃo por parte da direรงรฃo de Hubert Davis para dar a essas pessoas um ar verdadeiramente humano, e nรฃo meras funรงรตes em uma trama jรก prรฉ-estabelecida.
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ร um filme que avanรงa pouco, num ritmo lento, de maneira bastante mecรขnica, quase robรณtica, seguindo a risca os passos de um roteiro, e que nรฃo sabe o que ou como debater as poucas questรตes que coloca na mesa. Nรฃo parece ter interesse, vontade ou competรชncia para seguir alรฉm do รณbvio, e nem se esforรงa para propor algo. Atรฉ pode ter alguns poucos momentos interessantes, mas na maior parte do tempo รฉ sรณ desinteressante, e, sem criatividade, รฉ incapaz de cativar um espectador dedicado, restando apenas o sono.

Sugar Rot (Idem, 2025)
Direรงรฃo: Becca Kozak
Origem: EUA
Avaliaรงรฃo: 0.5/5
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Foram poucas as vezes na vida em que tive a infelicidade de me deparar com algo como Sugar Rot. Ano passado achava que tinha atingido o fundo do poรงo com o problemรกtico (Iconic), no Fantaspoa, mas por mais absurdo que aquele filme pudesse ser, nรฃo havia oito cenas de estupro em apenas 80 minutos. Isso sem contar os infinitos assรฉdios, e outras tantas situaรงรตes que exploram o corpo feminino de maneira fetichista, simplesmente objetificando sua protagonista em um suposto body horror desprovido de qualquer contexto, ao ponto de fazer referรชncias atรฉ a necrofilia, sem nenhuma uma ideia narrativa, que nรฃo apenas fazer a protagonista sofrer e ser abusada gratuitamente em frente ร cรขmera, sob um nรญvel de violรชncia irresponsรกvel.
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O pior de tudo รฉ que nem como exploitation Sugar Rotย consegue extrair algo, na medida em que as provocaรงรตes da diretora Becca Kozak sรฃo meras violรชncias sexuais misturadas a referรชncias vazias para A Moscaย de Cronenberg, sem uma metรกfora por detrรกs. ร tรฃo somente um filme vazio, machista e problemรกtico, cuja proposta nunca parece ser atingida, se รฉ que tinha alguma.
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Talvez a intenรงรฃo fosse de fato trabalhar, de forma escrachada e visual, o assรฉdio sexual constantemente sofrido por mulheres pelas mรฃos masculinas โ seja de seu parceiro, por algum colega de trabalho ou atรฉ mesmo do prรณprio mรฉdico. Mas nada do que foi feito nos leva a enxergar como uma crรญtica, mas tรฃo somente sob o olhar fetichista para o ato sexual forรงado, cujo desconforto do espectador nรฃo reside apenas no choque, mas tambรฉm com a ausรชncia do senso crรญtico por parte da obra.
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Eu simplesmente nรฃo consigo sair inerte de um filme como esses, que dรก risada e se diverte com tamanho sadismo, sem nada a dizer. Confesso que gostaria muito entender a intenรงรฃo da diretora Becca Kozak por detrรกs do projeto.

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Good Game (่งธ้ป, 2025)
Direรงรฃo: Dickson Leung Kwok-Fai
Origem: Hong Kong
Avaliaรงรฃo: 2/5
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Good Gameย tem atรฉ alguns momentos muito divertidos, ancorados em um elenco carismรกtico e que consegue, atravรฉs do notรกvel conforto em trabalhar juntos, transparecer um espรญrito de equipe. ร uma pena, porรฉm, que o restante do filme nรฃo dรช conta de aproveitar esse acerto na escolha dos atores, enquanto segue pelos trilhos de um drama esportivo de superaรงรฃo frรกgil, que tenta equilibrar um pouco de cada personagem, mas sem conseguir imprimir ou explorar profundidade em qualquer deles, adotando soluรงรตes fรกceis, sem que os desafios soem reais.
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A ideia de trabalhar com e-sports tambรฉm tem sua importรขncia, ainda mais diante da cada vez maior popularizaรงรฃo da modalidade, e reconhecimento enquanto prรกtica esportiva, a qual o longa reforรงa, com o discurso de nรฃo ser apenas videogame, mas uma modalidade esportiva de fato, tentando quebrar esse estigma e preconceito.
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O que o enfraquece, porรฉm, รฉ que, apesar das tentativas do longa em soar imersivo atravรฉs da aรงรฃo para simular o videogame, o jogo em si jogado pelos personagens carece de sentido na maior parte do tempo, e a ausรชncia de regras bem estabelecidas ao espectador nรฃo sรณ cria a possibilidade, como dela tambรฉm abusa, do elemento "deus ex-machina" em todos os momentos decisivos, soando atรฉ desonesto, quase como um โcheatโ (trapaรงa) enquanto filme.
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Fora que a versรฃo do filme que assisti, via screener, nรฃo parece finalizada, repleta de falhas nas sincronizaรงรตes da trilha musical e ausรชncia de crรฉditos finais. Talvez haja tempo para ajustar o longa, a fim de que soe menos engessado e mais natural na construรงรฃo de sua narrativa, jรก que atรฉ pode ser divertido - sobretudo pela aรงรฃo -, mas dramรกtico em demasia e, ao mesmo tempo, incrivelmente vazio.

Taroman Expo Explosion (ๅคง้ท็ทจใใฟใญใผใใณใไธๅๅคง็็บ, 2025)
Direรงรฃo: Ryo Fujii
Origem: Japรฃo
Avaliaรงรฃo: 3/5
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O aspecto demasiadamente exagerado de Taroman Expo Explosionย pode, por um lado, tornar-se cansativo ao longo da projeรงรฃo pelo excesso de estรญmulos visuais em tela a todo momento. O exagero do nonsense, dos inรบmeros eventos acontecendo a todo momento facilmente nos fazem ficar perdidos no meio de tanta informaรงรฃo.
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Porรฉm, na medida em que a narrativa toma forma, parece que de alguma maneira tudo faz sentido. Falamos sobre um ponto muito especรญfico da histรณria e da cultura japonesa, no tocante ao Expo 70, e especialmente, a Torre do Sol de Taro Okamoto. Inspirando-se nesse visual setentista, e sobretudo em personagens clรกssicos do cinema e televisรฃo do paรญs, como Godzilla e, especialmente, Ultraman, o filme, do passado, se direciona ao longรญnquo ano de 2025, numa versรฃo retrofuturista, para enfrentar uma ameaรงa que pode destruir a linha do tempo.
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O que se percebe รฉ que, com isso, a humanidade tornou-se mais austera, infeliz, enquanto um futuro distรณpico, dominado pelo "senso comum", todos perderam a individualidade, a prรณpria luz, e o nonsense se tornou ilegal. ร sobre olharmos para trรกs e procurarmos por essa luz, por esse mundo colorido novamente, pela busca por uma originalidade como seres humanos naturalmente diferentes, e a rejeiรงรฃo ao senso comum absoluto.
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Acaba sendo um filme de Ryo Fujii revelador de uma preocupaรงรฃo com o ser humano, com a criatividade, e a liberdade de pensamento, na beleza da possibilidade de sermos infinitamente diferentes uns dos outros, como seres รบnicos - afinal, cada um de nรณs รฉ um universo, ou um microcosmo, como bem diz o filme.

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Flush (Idem,ย 2025)
Direรงรฃo: Grรฉgory Morin
Origem: Franรงa
Avaliaรงรฃo: 4/5
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Nas mรฃos de um realizador com criatividade, premissas absurdas como a Flush se tornam ouro. Enquanto um filme sobre um homem preso num banheiro de um bar, com a cabeรงa enfiada no buraco do vaso sanitรกrio, aqui nรฃo se busca por um debate aprofundado sobre as razรตes pelas quais se encontra envolvido naquela situaรงรฃo, mas sim em como sairรก dela. A partir de suas tentativas de contato com o mundo exterior, รฉ possรญvel compreender o fundo do poรงo no qual se encontra o protagonista Luke, no relacionamento com sua famรญlia, uma filha crianรงa que nรฃo quer vรช-lo, e problemas com sua (ex-)esposa, que tenta ajudรก-lo, enquanto garรงonete no estabelecimento em que se encontra.
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O mais divertido รฉ que Grรฉgory Morin compreende a bizarrice da situaรงรฃo, e se aproveita dela com humor para complicar a teia de relaรงรตes envolvidas, entre o casal e dois traficantes, responsรกveis por praticamente tudo o que acontece. Hรก muita inventividade na maneira como a narrativa รฉ filmada, entre o interior do buraco e a box do banheiro, de forma a transpor para a tela a claustrofobia em estar com a cabeรงa presa em um buraco no chรฃo, bem como o cineasta se diverte com a violรชncia que a oportunidade proporciona, sobretudo grรกfica, enquanto brinca com a causalidade para nรฃo apenas abraรงar o sarcasmo, mas tambรฉm levar o problema ร s รบltimas consequรชncias para o personagem.
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Em apenas 65 minutos de duraรงรฃo, com o tempo muito bem aproveitado, levando a ideia ao limite sem soar cansativa, รฉ possรญvel rir, se desesperar e atรฉ emocionar. Uma baita surpresa do Fantasia.

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Honeko Akabaneโs Bodyguards (่ตค็พฝ้ชจๅญใฎใใใฃใฌใผใ, 2025)
Direรงรฃo: Junichi Ishikawa
Origem: Japรฃo
Avaliaรงรฃo: 1.5/5
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Enquanto um mangรก, Honeko Akabane's Bodyguardsย certamente encontra espaรงo entre suas inรบmeras ediรงรตes e capรญtulos para explorar um enorme grupo de personagens e integrรก-los como guarda-costas secretos da personagem-tรญtulo. O presente longa atรฉ mantรฉm com certa eficรกcia a atmosfera tรญpica desse tipo de literatura, ao mesmo tempo que adota, de maneira semelhante, traรงos de anime, na prรณpria narrativa e sobretudo na forma como รฉ filmada, sob um exagero fantasioso bastante alinhado ร prรณpria cultura japonesa.
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Mas o verdadeiro problema estรก na complexidade do que se pretende contar, em contraponto com a linguagem escolhida. Trata-se, na verdade, de uma dificuldade da direรงรฃo de Junichi Ishikawa em selecionar arcos para a construรงรฃo de uma adaptaรงรฃo live-action que mantenha uma coerรชncia e consiga desenvolver personagens e situaรงรตes, e nรฃo apenas insira montes de informaรงรฃo amontoadas artificialmente, onde o excesso de diรกlogos expositivos, na prรกtica, toma tempo da aรงรฃo e empaca o avanรงar da histรณria.
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ร um filme completamente perdido naquilo que se deseja contar, sem saber em que focar de verdade, ou o que explorar dentro daquele universo. Talvez para o fรฃ atรฉ possa funcionar, mas para alguรฉm de fora do nicho, como eu, o maior sentimento foi de sono em meio a uma bagunรงa completa.
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Curiosamente, nesta mesma ediรงรฃo do Fantasia, sob um estilo muito semelhante, Takashi Miike fez algo parecido, e infinitamente mais consciente, em Blazing Fists, tambรฉm no formato de "anime live-action", mas com arcos e delimitaรงรตes muito mais bem definidas. ร o exemplo de que pode funcionar, com organizaรงรฃo e consciรชncia de estilo cinematogrรกfico.

Le Tour De Canada (Idem, 2025) (Curta-metragem)
Direรงรฃo: John Hollands
Origem: Canadรก
Avaliaรงรฃo: 3/5
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Le Tour de Canadaย รฉ bem divertido na medida em que se desenrola atravรฉs de uma colagem e sobreposiรงรฃo de imagens, em um aspecto bastante experimental. A natural artificialidade que a forma confere a obra permite que a histรณria sobre a rivalidade entre dois ciclistas competidores seja trabalhada com bastante exagero, sobretudo pelas atuaรงรตes caricatas, que suprem a ausรชncia de palavras por meios das expressรตes corporais e faciais, como um filme do cinema mudo, mas com som - sรณ nรฃo temos vozes.
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Sรฃo escolhas criativas que saem daquela caixa da obviedade, ainda que a narrativa acabe, no fim, soando muito mais secundรกria, e assim, nรฃo muito mais interessante, ou mesmo cativante, do que sua forma experimental, que parece ser o foco principal da direรงรฃo de John Hollands, nรฃo aproveitando, assim, todo o potencial de sua prรณpria ideia, quando o prรณprio Canadรก as vezes parece tambรฉm ficar de lado.
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Ainda assim, um curta bem diferente do comum e um bom exercรญcio de montagem.
