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30º FANTASIA FILM FESTIVAL | Sour Minnows, de Harrison Atkins (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 5 dias
  • 6 min de leitura

Entre muitas ideias absurdas e surrealistas, Sour Minnows nunca se agarra a nada. Transita entre espaços e conecta arcos narrativos com pouco a extrair sobre cada um, como uma série de argumentos de longas nunca finalizados.


 

Se um dia me pedissem para dizer uma palavra capaz de definir Sour Minnows, diria “loucura”. Seus minutos iniciais são um reflexo ideal do que tem a oferecer no decorrer de seus oitenta minutos, e suficientes para o espectador médio comprar ou rejeitar a ideia. Dois personagens, que juntos dividem um apartamento, caminham pela rua, após passar no mercado, carregando sacolas de compras. Ao virar a esquina, avistam diversas pessoas agachadas ou deitadas ao chão, lambendo o asfalto, como zumbis, agindo impulsivamente. Um deles grita e solta os pacotes ao chão, assustado. Em seguida, já de volta em casa, conversam, e o protagonista percebe que seu amigo não se lembra de nada do que viram.

 

Sucede esta constatação outros fenômenos sobrenaturais, que perpassam as vidas de outros personagens - um homem corre nu através de uma escura passarela subterrânea, e se depara com uma figura misteriosa vestindo uma máscara de bico alongado (como um médico do período da peste bubônica), e uma mulher cospe, quase de forma inconsciente, em roupas dentro de um provador, enquanto as experimenta numa loja. São todas ideias que, no decorrer da narrativa, encontram pontos de conexão, enquanto o protagonista, um dos homens da primeira cena, busca compreender o que acontece ao seu entorno, vez que se sente perseguido por forças misteriosas.

 

Existe todo um ar de experimentação que perpassa a narrativa escrita e dirigida por Harrison Atkins (montador do recente thriller Manual Prático da Vingança Lucrativa, de John Patton Ford). Em meio a fenômenos misteriosos, explora de maneira surrealista e nonsense uma ruptura para com a realidade concreta, ao colocar em xeque noções de tempo e espaço.

 

Por muitas vezes, o cineasta diverte-se ao flertar com a metalinguagem, enquanto situa seus personagens no centro de Los Angeles, e os coloca em contato direto com a indústria do entretenimento. Explora em seus diálogos as diferentes percepções sobre um filme, quando debatido, e usa da própria televisão como objeto de provocação ao protagonista, que, ao mesmo tempo em que assiste a um filme, percebe-se refletido na tela, como se a câmera o observasse, e estivesse consciente de encontrar-se dentro de um filme, que nós espectadores assistimos das telas de cinemas, televisores de nossas residências, ou até em nossos computadores, tablets e celulares.

 

Em certa oportunidade, até os espaços limiares, tão em alta pela internet e no cinema de terror hollywoodiano, com Backrooms, de Kane Parsons, tornam-se objeto de horror quando o protagonista transita por corredores e salas de cinema vazias e desativadas.

 

Mas veja, ainda que composto de muitas ideias surrealistas interessantes, elaboradas através de uma câmera que se desloca ativamente pelos espaços, capaz até de genuinamente assustar em sua infinita paciência (a cena do rosto à porta é tenebrosa), Sour Minnows nunca consegue se agarrar a uma única coisa, e tampouco conectar verdadeiramente suas histórias, senão de maneiras estritamente forçadas.

 

Usando-se da justificativa do nonsense e do absurdo surrealista, contenta-se mesmo sem ir além das reflexões superficiais que propõe acerca da tecnologia, do mundo contemporâneo, do cinema, oferecendo, no mais, uma série de experiências estranhas, sem um grande fio condutor capaz de uni-las. Tudo funciona muito isoladamente, como uma coleção de esquetes, que sozinhas poderiam render por si um curta, ou quem sabe até um longa; mas juntas, dessa maneira, pouco se sustentam, enquanto uma série de argumentos narrativos que parecem inacabados, como se desistisse de desenvolvê-los sempre que surge um empecilho. No final, Sour Minnows pouco me valeu, seja pela experiência ou pela ausência de uma história a ser realmente contada, senão por uma experimentação vazia, que aos poucos se torna cansativa e pretensiosa.

 

Avaliação: ★★

 

Sour Minnows (Idem, 2026)

Direção: Harrison Atkins

Roteiro: Harrison Atkins

Gênero: Thriller, Comédia, Terror

Origem: EUA

Duração: 83 minutos (1h23)

Exibido no 30º Fantasia Film Festival

 

Sinopse: Dois amigos se deparam com uma cena inusitada: seis homens lambendo o asfalto de uma rua deserta em Los Angeles. Para Ricky, esse momento desencadeia uma ruptura. À medida que sua percepção da realidade se torna cada vez mais instável e suas memórias começam a se embaralhar, ele entra em contato com "A Coisa Amarela", uma entidade que veste pessoas como se fossem fantasias. Enquanto Ricky se adapta à sua visão de mundo em expansão, uma nova e delirante lógica passa a dominar sua realidade.


English review

 

Amid countless absurd and surrealist ideas, Sour Minnows never fully commits to any of them. Constantly shifting between spaces and loosely connecting narrative threads, it offers little of substance to extract from each one, resembling a collection of feature-length concepts that were never fully developed.

 

If someone ever asked me to summarize Sour Minnows in a single word, my answer would be "madness." Its opening minutes perfectly encapsulate everything the film has to offer throughout its eighty-minute runtime and are more than enough for the average viewer to either embrace or reject its proposition. Two roommates walk home from the grocery store carrying shopping bags when, upon turning a corner, they come across dozens of people crouching or lying on the pavement, compulsively licking the asphalt like zombies. One of them screams, dropping the groceries in shock. Moments later, back at home, the two discuss what happened, only for the protagonist to realize that his friend has absolutely no memory of the bizarre event they had just witnessed.

 

This realization is followed by a series of increasingly strange supernatural phenomena affecting the lives of other characters - a naked man runs through a dark underground passageway before encountering a mysterious figure wearing a long-beaked mask reminiscent of a plague doctor, while a woman, seemingly without realizing it, spits on clothes inside a fitting room as she tries them on. Throughout the narrative, these disconnected ideas gradually reveal points of intersection as the protagonist - one of the men from the opening scene - attempts to understand the increasingly disturbing events unfolding around him, convinced that mysterious forces are following him.

 

An unmistakable spirit of experimentation permeates Harrison Atkins' screenplay and direction (the editor of John Patton Ford's recent thriller The Manual of Practical Profitable Revenge). Amid these inexplicable phenomena, the film embraces surrealism and nonsense as vehicles for dismantling conventional reality itself, constantly questioning familiar notions of time and space.

 

On several occasions, Atkins amusingly flirts with metacinema by placing his characters in the heart of Los Angeles and directly within the orbit of the entertainment industry. Through dialogue, he explores the many ways people interpret films, while television itself becomes an instrument of provocation for the protagonist. As he watches a movie, he suddenly notices his own reflection appearing on the screen, as though the camera were observing him, fully aware that he exists inside the very film we, the audience, are watching from cinema screens, televisions, computers, tablets, or smartphones.

 

At one point, even liminal spaces - so popular across both internet culture and contemporary horror cinema, particularly through Kane Parsons' Backrooms - become objects of terror as the protagonist wanders through abandoned hallways and empty movie theaters.

 

The problem is that, despite containing numerous fascinating surrealist concepts and presenting them through a camera that actively explores physical space - occasionally generating genuine fear through its remarkable patience (the sequence involving the face at the doorway is truly unsettling) - Sour Minnows never manages to anchor itself to any single idea, nor does it truly connect its many stories in any meaningful way beyond rather forced narrative links.

 

Sheltering behind the excuse of surrealist absurdity and deliberate nonsense, the film ultimately settles for offering only superficial reflections on technology, contemporary society, and cinema itself, while presenting little more than a succession of strange experiences lacking any substantial narrative thread capable of binding them together. Everything functions in isolation, resembling a collection of sketches that could each sustain an individual short film - perhaps even a feature-length one - but which struggle to coexist within the same work. The result feels like a series of unfinished narrative premises, abandoned whenever they begin demanding deeper development. In the end, Sour Minnows offered me very little, whether as a cinematic experience or as a story genuinely worth telling, becoming instead an increasingly exhausting and pretentious exercise in empty experimentation.


★★

 

Sour Minnows premièred at 30th Fantasia Film Festival.

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