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CRÍTICA | Backrooms – Um Não-Lugar, de Kane Parsons (The Backrooms, 2026)

Foto do escritor: Henrique Debski
Henrique Debski
1 de jun.
9 min de leitura

A mitologia da internet encontra horror, reflexão e existencialismo em Backrooms, na estreia de Kane Parsons como diretor, em adaptação de seus próprios curtas para o cinema. 



Sempre fui fascinado pela mitologia de horror da internet, e qualquer obra que traga algum elemento relacionado tem naturalmente minha atenção. Lembro-me como se fosse ontem de quando era adolescente, e me sentava no quarto, à noite, para jogar videogame ouvindo creepypastas, algumas que posteriormente se tornaram jogos (como Slenderman, à época uma febre), e até receberam adaptações para o cinema e televisão (a série Channel Zero, criada por Nick Antosca, é uma ótima pedida, ao menos em suas duas primeiras temporadas).

 

Com as Backrooms não foi diferente. Já adulto, tenho em vívida memória o dia no qual assisti ao curta de Kane Parsons pela primeira vez, assustado pela atmosfera perturbadora de um labirinto tomado por espaços “perfeitos”, excessivamente limpos, incrivelmente parecidos, e sob uma constante paranoia, como se algo observasse o protagonista e sua câmera, sem que ele conseguisse enxergar. O medo de seu projeto não advém do receio de um susto, mas de uma imersão ao sentir-se tão perdido no lugar quanto aquele que nos representa em tela. Aos poucos, a ideia evoluiu para ambientes cada vez mais bizarros, tomando proporções maiores, e por vezes, megalomaníacas, ao saírem do controle de Parsons rumo a uma infinidade de vídeos na internet acerca do assunto – desde infinitos condomínios de casas completamente vazios, shopping centers, lojas, e até piscinas (que inspiraram o excelente jogo Pools, que capta perfeitamente o espírito de horror dos espaços limiares e a sensação paranoica de vigilância, sem recorrer a qualquer perseguição ou entidade).

 

O anúncio de um longa-metragem sobre as Backrooms, com direção do próprio Kane Parsons, hoje com vinte anos de idade, foi surpreendente pela confiança do estúdio A24 no trabalho do cineasta, o mais jovem contratado por eles até então, com custo aproximado de dez milhões de dólares, elenco estrelado, e produção assinada também por outros cineastas de renome do cinema de gênero, como James Wan e Osgood Perkins – este último que sugeriu boa parte da equipe criativa do longa, como fotografia, direção de arte, figurinos, profissionais de som, maquiagem, e por aí vai.

 

Neste sentido, é inegável que o longa de Parsons fez valer o voto de confiança, porquanto manteve integralmente a estética de sua série de curtas, atrelada a um exercício de experimentação cinematográfica até rara para filmes de estúdio, com médio investimento (já não é mais possível considerar a A24 aquele estúdio independente de dez anos atrás, que dava liberdade criativa irrestrita aos seus cineastas). Quando nesses ambientes, o diretor trabalha a claustrofobia de maneiras distintas, enquanto constrói tensão ora a partir do found-footage, formato que o consagrou em sua série de curtas, com o qual já se encontra mais acostumado a trabalhar; e ora de maneira mais tradicional, seguindo seus personagens enquanto exploram as backrooms, na elaboração de um sentimento labiríntico de fácil identificação com o espectador, através de um aspecto imersivo, sobre o qual somos capazes de acompanhar e seguir os caminhos percorridos, ao mesmo tempo em que facilmente conseguimos nos perder.

 

Torna-se um diferencial a escolha por filmar com uma lente de angular mais ampla, especialmente o rosto dos personagens, na curiosidade com o mistério das backrooms ou na agonia dos momentos mais intensos, enquanto os acompanha de frente captando suas reações e sentimentos mais profundos, ao mesmo tempo que também torna a montagem, assinada por Greg Ng, muito mais dinâmica nas passagens de exploração e mistério. A trilha musical, assinada por Parsons e Edo van Breemen, acrescenta generosas camadas à experiência sensorial de se estar perdido nas backrooms, na calmaria de uma simples caminhada com sensação de estranhamento, e tornando-se mais tensa nos momentos decisivos, de forma a se adaptar diante do contexto.

 

O único ponto, entretanto, que se distancia do controle de Parsons é o roteiro, assinado por Will Soodik, acostumado às séries de televisão, agora em seu primeiro trabalho no cinema. O grande desafio enfrentado por ele no trabalho de adaptação é o de construir uma narrativa no entorno de algo que não necessariamente encontra uma narrativa por si só. Com um conceito abstrato em mãos, de mitologia propositalmente vaga, e múltiplas possibilidades interpretativas, não bastaria que apenas adaptasse genericamente a série de curtas, sob o risco de voltar-se, em excesso, apenas aos fãs do projeto original e do diretor. Havia uma necessidade, possivelmente imposta pelo estúdio, de tentar atrair um novo público, captar a atenção das pessoas, para chamar o máximo de pessoas às salas de cinema.

 

O resultado é que na tentativa de explicar o conceito por detrás da ideia, Backrooms encontra sua maior fragilidade, ao concluir pela impossibilidade de chegar a uma resposta por meio de filosofias redundantes, em tentativas falhas, batendo sempre à mesma tecla. O tom existencialista deixado por Soodik casa muito bem à proposta de um labirinto, em constante transformação, na definição dos espaços limiares como um tudo e nada ao mesmo tempo, algo que existe e inexiste, como uma grande metáfora ao tempo e à materialização de sua passagem enquanto memória, o que Parsons elabora muito bem no plano da imagem.

 

O estabelecimento de dramas e traumas aos personagens é outro elemento interessante trazido à narrativa, como forma de individualiza-los e construí-los como pessoas reais, a serem posteriormente abordados no interior das backrooms, em seus comportamentos, a partir dos espaços físicos. Ainda que Renate Reinsve não seja tão aproveitada quanto Chiwetel Ejiofor, ambos em ótimos trabalhos, são suficientes enquanto representantes do espectador em tela para explorar aquele mundo sem fim, cuja direção de arte estabelece criativamente a passagem do tempo e a ideia de memória e existência que percorre os ambientes, entre seus formatos e objetos de cena, que dizem muito mais do que parece.

 

Dessa forma, Backrooms consegue habilmente unir tanto os fãs e conhecedores do projeto original quanto atrair um novo público através de uma ressignificação do conceito, que mantém-se incerto, pouco explorado pelo texto (construído na base de pretextos), e mais pela imagem, através dos espaços físicos, objetos e materialização das ideias de tempo e memória como metáforas à existência. Ainda que tente se explicar demais, sem saber onde chegar com isso, é um ótimo filme de terror ao tocar no cerne do que mais amedronta o ser humano: o desconhecido. Em um ambiente labiríntico, habitado por entidades misteriosas, incertas e desconhecidas, funciona idealmente, e talvez até de maneira acidental, ao não saber como explicar seus mistérios, oferecendo apenas ideias e sugestões de caminhos que talvez possam chegar a uma solução – esta que fica a cargo do espectador. Ao fim, oferece horror e reflexão na medida certa, em uma grande estreia de Kane Parsons como diretor de longa-metragem.

 

Avaliação: 4/5

 

Backrooms – Um Não-Lugar (Backrooms, 2026)

Direção: Kane Parsons

Roteiro: Will Soodik

Gênero: Terror, Thriller

Origem: EUA, Canadá

Duração: 110 minutos (1h50)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: O vendedor de móveis Clark descobre em sua loja um portal para os "Backrooms", um labirinto infinito de escritórios surreais. Fascinado, ele convence sua funcionária Kat e o namorado dela a mapearem as anomalias do local. Após o desaparecimento de Clark, sua terapeuta, a Dra. Mary Kline, mergulha na dimensão impossível para resgatá-lo, sendo forçada a confrontar seus próprios traumas enquanto busca uma saída.


 

English review

Backrooms blends internet mythology with horror, reflection, and existentialism in Kane Parsons’ feature-film debut, adapting his own short films for the big screen.

 

I have always been fascinated by internet horror mythology, and any work that incorporates elements of it naturally captures my attention. I remember as if it were yesterday being a teenager, sitting in my room at night playing video games while listening to creepypastas, some of which later became games themselves (such as Slender Man, which was a phenomenon at the time), and even received film and television adaptations. The series Channel Zero, created by Nick Antosca, remains an excellent recommendation, at least in its first two seasons.

 

The Backrooms were no different. As an adult, I still vividly remember the day I watched Kane Parsons’ short film for the first time, disturbed by the unsettling atmosphere of a labyrinth filled with “perfect” spaces - excessively clean, eerily similar, and permeated by constant paranoia, as though something were watching both the protagonist and his camera without ever being seen. The horror of the project does not come from the expectation of a jump scare, but from the immersion of feeling just as lost within that place as the person representing us on screen. Over time, the concept evolved into increasingly bizarre environments, growing larger and sometimes almost megalomaniacal, escaping Parsons’ control and spreading into countless internet videos on the subject - from endless empty suburban neighborhoods and shopping malls to stores and even swimming pools. The latter inspired the excellent Pools, which perfectly captures the spirit of liminal-space horror and the paranoid sensation of being watched without relying on any chases or monsters.

 

The announcement of a Backrooms feature film directed by Kane Parsons himself - now only twenty years old - was surprising because of the confidence placed in him by A24. Parsons became the youngest filmmaker ever hired by the studio, entrusted with a production budget of roughly ten million dollars, a notable cast, and producers that included genre heavyweights such as James Wan and Osgood Perkins. Perkins reportedly contributed significantly to assembling much of the film’s creative team, including personnel in cinematography, production design, costume design, sound, makeup, and beyond.

 

In this regard, it is undeniable that Parsons justified that vote of confidence, as the film fully preserves the aesthetic identity of his short-film series while embracing a level of cinematic experimentation rarely seen in studio productions with a medium-sized budget. When operating within these environments, the director approaches claustrophobia through multiple techniques, generating tension at times through the found-footage style that made his shorts famous and with which he is clearly most comfortable, and at others through more traditional filmmaking, following the characters as they explore the Backrooms. This creates a labyrinthine sensation that is immediately relatable to the audience through a deeply immersive approach, allowing us to follow the paths being taken while simultaneously becoming lost within them ourselves.

 

One particularly effective choice is the use of wider-angle lenses, especially when photographing the characters’ faces, whether they are driven by curiosity about the mystery of the Backrooms or overwhelmed by the anxiety of the film’s most intense moments. By following them from the front and capturing their reactions and deepest emotions, Parsons also enables editor Greg Ng to create a much more dynamic rhythm throughout the sequences of exploration and mystery. The score, composed by Parsons alongside Edo van Breemen, adds generous layers to the sensory experience of being lost within the Backrooms, shifting seamlessly from the uneasy calm of wandering through unfamiliar spaces to heightened tension during the story’s decisive moments.

 

The only aspect that ultimately escapes Parsons’ control is the screenplay, written by Will Soodik, who comes from television and is making his feature-film debut. His greatest challenge was constructing a narrative around something that does not inherently possess one. Faced with an abstract concept, intentionally vague mythology, and countless possible interpretations, merely adapting the short films would have risked appealing exclusively to existing fans of Parsons and the original project. There was an evident need - perhaps encouraged by the studio - to attract a broader audience and bring as many people as possible into theaters.

 

As a result, the film’s greatest weakness emerges precisely when it attempts to explain the concept behind the Backrooms. It ultimately arrives at the conclusion that no definitive answer can be found, relying instead on repetitive philosophical discussions that repeatedly circle the same ideas. The existentialist tone introduced by Soodik fits perfectly with the concept of an ever-changing labyrinth, defining liminal spaces as simultaneously everything and nothing, something that both exists and does not exist - a grand metaphor for time and the materialization of memory through its passage, an idea Parsons expresses far more effectively through imagery than through dialogue.

 

The decision to provide the characters with personal dramas and traumas is another valuable addition, helping to individualize them and establish them as believable people whose emotional struggles later manifest within the Backrooms through their interactions with physical space. Although Renate Reinsve is not utilized as effectively as Chiwetel Ejiofor, both deliver strong performances and function effectively as audience surrogates while exploring this endless world. The production design, meanwhile, creatively conveys the passage of time and the film’s broader ideas regarding memory and existence through its environments, architecture, and carefully selected objects, all of which communicate far more than initially appears.

 

In this way, Backrooms successfully manages to satisfy fans of the original project while also attracting newcomers through a reinterpretation of the concept that remains ambiguous, explored less through the screenplay and more through imagery, physical spaces, objects, and the materialization of time and memory as metaphors for existence. Even if it occasionally tries too hard to explain itself without truly knowing where those explanations lead, it remains an excellent horror film because it touches upon what frightens human beings most deeply: the unknown.

 

Within a labyrinthine environment inhabited by mysterious, uncertain, and unknowable entities, the film functions remarkably well, perhaps even accidentally, precisely because it never fully explains its mysteries. Instead, it offers only ideas, possibilities, and suggested paths that might lead toward an answer - one that is ultimately left for the audience to discover. In the end, it delivers horror and reflection in equal measure, marking a tremendous feature-film debut for Kane Parsons.

 
 
 

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