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49ª MOSTRA DE SP | Amiga Silenciosa, de Ildikó Enyedi (Stille Freundin, 2025)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 8 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Em Amiga Silenciosa, Ildikó Enyedi intercala épocas distintas em um mesmo espaço para explorar as evoluções da sociedade, a partir de drama intimista e poético.


 

Uma universidade em algum lugar da Alemanha torna-se o palco de uma jornada intimista através dos tempos. Passeando por seu campus, no início de 2020, um veterano cientista recém-chegado de Hong Kong conhece o local, andando entre seus jardins, admirando a beleza exuberante de suas altas árvores centenárias, de um verde penetrante e vívido entre os quais milhares de pessoas caminharam ao longo dos séculos. Cerca de cinquenta anos antes, um tímido jovem, vindo de uma zona rural do interior da Alemanha, timidamente se aproxima desse ambiente universitário, repleto de pessoas de sua idade e experiências sociais e de vida prontas para serem descobertas em plena década de 70/80. E aproximadamente cem anos antes dele, uma mulher batalhava contra todas as adversidades de uma sociedade patriarcal para se tornar a primeira aluna da universidade, enfrentando todo o preconceito e estereótipos de gênero, provando ser tão ou até mais capaz do que todos os demais estudantes a se tornar uma grande, e importante, cientista.

 

Apesar de personagens que nunca, em vida, tiveram ou terão a oportunidade de se conhecer, os três compartilham, por razões e contextos diversos, uma inesperada relação com a natureza que os cerca. Na solidão que os momentos de suas vidas os impõem perante a sociedade, as escolhas que fazem ou os tempos de calamidade (como no caso da pandemia, na história mais recente), a natureza faz-se o tempo todo presente como uma companheira solidária, que aos poucos torna-se o objeto de interesse dessas três pessoas, de maneiras distintas, mas igualmente engrandecedoras em suas formações pessoais e jornadas de autodescobrimento.

 

Os conhecemos precisamente no início de seus desafios, quando colocam o pé no campus universitário, em seus primeiros dias naquele ambiente novo. Cada qual enfrenta uma adversidade, seja uma sociedade ainda muito conservadora e definitivamente machista, destinada a impedir o acesso de mulheres ao ambiente universitário, em uma luta que Luna Wedler compra muito bem na pele de Grete; um espaço cheio de jovens sedentos por prazer e novas experiências, ensaiando ser necessário colocar a timidez para o lado a fim de abraçar esse novo local (personalidade essa que Enzo Brumm constrói muito bem, e de certa forma até me identifico com); ou mesmo o isolamento ocasionado por uma pandemia mundial, sendo um estrangeiro, que não domina a língua local, confinado em um país distante, em outro continente, pois não mais existe, por enquanto, a possibilidade de voltar para casa.

 

A direção de Ildikó Enyedi alterna com muito cuidado entre essas três épocas distintas, as evoluindo em conjunto e construindo as experiências dos personagens a partir das relações que tecem com a natureza ao redor. Mesmo que separados ao longo de aproximadamente cento e cinquenta anos, uma linha tênue conecta suas descobertas, e mais, as condiciona umas as outras. Uma foto do passado incentiva o personagem do presente mais recente (vivido inclusive pelo mestre Tony Leung Chiu-wai) a alterar toda sua linha de pesquisa, e ir além, e usando conhecimentos talvez firmados pelo personagem dos anos 70/80, descobre ligações entre bebês e plantas que pode transformar a humanidade a depender da maneira como for empregada.

 

Mais do que isso, a partir de certo ponto conseguimos enxergar como o tempo e o espaço os concentra sobre uma mesma linha, o que a diretora faz constantemente a partir da imagem ao trabalhar os movimentos de sua câmera como uma forma de transição entre tempos a partir do mesmo local, empregando por cima uma película preto e branco ou com pequenos “riscos”, como de um antigo rolo de filme. É como enxergar um mesmo ponto da universidade e suas mudanças ao longo de décadas, rumo a uma sociedade cada vez mais plural e progressista, de uma humanidade mais unida e acolhedora. Na mesma medida, é também sobre o que a natureza pode trazer ao ser humano enquanto espécie, e enquanto uma árvore pode se tornar uma amiga silenciosa, mas presente e amável quando mais se precisa.

 

Assim, Amiga Silenciosa pode em determinados momentos até parecer um filme um tanto perdida, especialmente quando não conclui de maneira completa o arco de seus personagens, mas a partir disso revela, por outro lado, seu interesse estar muito mais voltado à perpetuação da espécie e ao estreitamento de laços com a natureza do que propriamente as histórias das pessoas retratadas. É muito mais sobre o coletivo, a totalidade dessas pessoas em conjunto e a relação que estabelecem sem saber, sobre o poder do tempo, do que de fato sobre elas individualmente. Torna-se o reflexo de uma vida, a relevância das conexões estabelecidas pelo tempo, e do legado que deixamos, sem que saibamos – e sobretudo, da importância da natureza, nessa relação de cooperação e perpetuação de nossa própria espécie. E mais, torna-se poético a partir de uma rima narrativa que firma entre seus personagens e a grande árvore central, sobretudo pela maneira como amarra suas três histórias no entorno desse monumento da universidade, como uma grande figura inspiradora. O ar anticlimático da ausência de resolução às histórias reforça que não o longa não é sobre cada um, mas influências e inspirações para que continuemos a prosperar enquanto espécie, e dessa necessidade que temos de estar sempre junto da natureza, da qual inclusive nos esforçamos para destruir. Quem sabe não possa suscitar reflexões para um futuro melhor?

 

Avaliação: 4.5/5

 

Amiga Silenciosa (Stille Freundin, 2025)

Direção: Ildikó Enyedi

Roteiro: Ildikó Enyedi e Tina Kaiser

Gênero: Drama

Origem: Alemanha, Hungria, França, China

Duração: 147 minutos (2h27)

49ª Mostra de São Paulo

 

Sinopse: No coração de um jardim botânico em uma cidade universitária medieval da Alemanha ergue-se um majestoso gingko. Testemunha silenciosa, acompanhou por mais de um século os discretos ritmos de transformação de três vidas humanas. Em 2020, um neurocientista de Hong Kong, dedicado a estudar a mente dos bebês, inicia um experimento inesperado com a antiga árvore. Em 1972, uma jovem estudante é profundamente marcada pelo simples gesto de observar um gerânio e se conectar a ele. Em 1908, a primeira aluna mulher da universidade descobre, pelas lentes de uma câmera fotográfica, padrões sagrados do universo escondido nas plantas mais simples. Acompanhamos suas tentativas desajeitadas de estabelecer laços — cada um enraizado em seu próprio tempo — enquanto são transformados pela força discreta, duradoura e misteriosa da natureza. O velho gingko nos aproxima do que significa ser humano, e de nossa busca por pertencimento.

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