CRÍTICA | Blades of the Guardians, de Yuen Woo-Ping (Biao Ren, 2026)
- Henrique Debski

- 23 de fev.
- 8 min de leitura
Com vistas a criação de uma grande franquia, Blades of the Guardians sacrifica parte de sua narrativa e deixa aberturas para todos os lados, mas funciona enquanto um épico de ação wuxia pelas mãos do mestre Yuen Woo-Ping.

Longe da direção de longas-metragens desde 2018, a notícia do retorno de Yuen Woo-Ping ao cinema de ação era animadora. Responsável por consagrar alguns dos melhores wuxia do cinema de Hong Kong nas décadas de 1970/80/90, ao lado de King Hu, Tsui Hark e até John Woo, sua contribuição vai muito além da direção, quando também um prolífico coreografo de lutas, que deixou profundas marcas no cinema norte-americano a partir de seu trabalho em Matrix (1999), como uma das mais icônicas sequências de ação de todos os tempos, e até Kill Bill (2004); tal como também influenciou clássicos modernos de Hong Kong como O Tigre e o Dragão (2000), cuja ação fantasiosa por ele dirigida, enquanto coreógrafo da produção, se articula de maneiras semelhantes ao seu clássico Iron Monkey (1993), um grande exemplar do gênero de artes marciais.
Adaptando uma série de quadrinhos (manhua) criada por Xianzhe Xu, a base de Blades of the Guardians evidentemente se inspira no clássico japonês de Akira Kurosawa Os Sete Samurais (1954). No entanto, constitui-se um projeto de ambições ainda maiores, ao desviar-se da proposta concentrada em um único ambiente – uma cidade a ser defendida – para estabelecer um panorama político e social tão mais delicado quanto complexo no entorno daquela realidade, cujo poder fragilizado torna-se alvo de forças antagônicas que se esgueiram pelas beiradas, e se encontram mais próximas e prontas para atacar do que se pode imaginar. O protagonista Dao Ma, excelente espadachim e caçador de recompensas vivido por Jing Wu, procurado pelo assassinato de um governador corrupto, aceita a missão de escoltar o homem mais procurado do país, líder de uma rebelião que pode levar a paz para a China continental.
Ao longo do caminho, Ma, acompanhado de uma criança que cria como se fosse seu filho, reencontra amigos, enfrenta antigos inimigos, e acaba formando um grupo de heróis improváveis que, mesmo com interesses aparentemente opostos e talvez inconciliáveis, acabam por necessidade lutando em conjunto por um bem maior. No decorrer da narrativa, explora-se um pouco de cada um, olhando para o passado, e as maneiras como interagiram em outros tempos, ao passo que tais memórias refletem no futuro para a construção dessa teia que conecta a todos.
No entanto, como o filme inicial de uma franquia que nasce a partir de Blades of the Guardians, o excesso de arcos e ganchos para outros projetos soa incomodo por nunca terminar, de fato, nada do que inicia. Ainda que estabelecida a missão principal, o roteiro assinado em conjunto por Tai-Lee Chan, Chao-Bin Su, Larry Yang e Baimei Yu mostra dificuldade em equilibrar todas as histórias e arcos que decide contar de uma única vez. Em que pese, por exemplo, Zhi Shilang ser o líder de uma revolução, o homem mais procurado da região, e um possível nome a trazer paz para a China, mesmo estando quase o tempo todo em cena pouco de fato se fala sobre ele. Em momento algum se trata em relação ao mistério de sua identidade, ou o que de fato representa à nação enquanto um símbolo político e de combate ao corrupto governo central. Isso também vale em relação a Lao Mo, líder de uma cidade local e mentor do protagonista, cuja história continua nas mãos de sua filha, que acaba dando espaço ao surgimento do principal vilão do filme – uma ameaça passageira a ser enfrentada –, quase na forma de um desvio do objetivo central da trama.
Conforme avança para o final, sabemos que a narrativa está longe de terminar de fato, na medida em que continua a apresentar novos personagens, para tornar o panorama mais complexo. Mas a cada vez que acrescenta uma camada, assume o desafio de amarrar tudo, e acaba por deixar pontas inúmeras pontas soltas a serem amarradas em outras sequências.
Ainda assim, mesmo em se tratando de um épico wuxia que não vai além do que já vimos do gênero, em tantos outros exemplares, inclusive pelas mãos do mesmo cineasta, uma direção atenciosa para a ação como a de Yuen Woo-Ping faz a diferença. Com um altíssimo orçamento, e as facilidades do digital, assiste-se a uma integração das clássicas lutas típicas do realizador em abordagens ainda mais fabulares, em meio a golpes voadores, espadas flamejantes e tempestades de areia, em referências à seus próprios clássicos, e também a passagens que evocam de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), em um de seus grandes momentos de ação, até A Lista de Schindler (1993) em um flashback dramático, a partir da fotografia que mescla o preto e branco acinzentado com tonalidades de vermelho em um figurino específico.
Mesmo que Blades of the Guardians possa não ser um longa revolucionário, ou muito diferente do que já vimos outras vezes, a partir de bases já bem conhecidas, e construa-se repleto de pontas soltas deixadas com vistas a produção de sequências, spin-offs, e o desenvolvimento de uma grande franquia, não deixa de ser um wuxia com o toque de Woo-Ping, um dos grandes mestres da ação na China e Hong Kong. De cenários imensos a um toque de ação megalomaníaca, é um filme que reúne parte dos melhores elementos do gênero sob um grande orçamento, e trabalha sabiamente a fantasia a partir das coreografias e combates sanguinários sob o escopo de um verdadeiro épico, que marca o retorno do cineasta a cadeira de diretor. Confesso que estou curioso pelos próximos passos da jornada de Dao Ma em sua missão de reestabelecer o equilíbrio no país.
Avaliação: 3.5/5
Blades of the Guardians (Biao Ren, 2026)
Direção: Yuen Woo-Ping
Roteiro: Tai-Lee Chan, Chao-Bin Su, Larry Yang e Baimei Yu, adaptado de Xianzhe Xu (quadrinhos/manhua)
Gênero: Ação, Thriller (Wuxia)
Origem: China
Duração: 126 minutos (1h39)
Disponível: Cinemas (EUA, Canadá e China)
Sinopse: Dao Ma, o segundo fugitivo mais procurado, recebe uma misteriosa missão de escolta do chefe do clã Mo: levar o fugitivo mais procurado, líder de uma rebelião, para Chang'an.
English review
With the ambition of creating a major franchise, Blades of the Guardians sacrifices part of its narrative and leaves openings in every direction, but it still works as a wuxia action epic in the hands of master filmmaker Yuen Woo-Ping.

Away from feature-film directing since 2018, the news of Yuen Woo-Ping’s return to action cinema was exciting. Responsible for consecrating some of the finest wuxia films in Hong Kong cinema across the 1970s, 80s, and 90s, alongside figures such as King Hu, Tsui Hark, and even John Woo, his contribution goes far beyond directing. He is also a prolific fight choreographer who left deep marks on north-american cinema through his work on The Matrix (1999), one of the most iconic action sequences of all time, as well as Kill Bill (2004). He also influenced modern Hong Kong classics such as Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000), whose fantastical action, directed by him as the production’s choreographer, articulates itself in ways similar to his classic Iron Monkey (1993), a landmark example of the martial arts genre.
Adapting a comic series (manhua) created by Xianzhe Xu, the foundation of Blades of the Guardians is clearly inspired by Akira Kurosawa’s Japanese classic Seven Samurai (1954). However, it constitutes a project of even greater ambitions, as it moves away from a structure concentrated on a single setting - a city to be defended - and instead establishes a broader, more delicate and complex political and social panorama surrounding that reality. Fragile power becomes the target of antagonistic forces that creep along the edges, closer and more ready to strike than one might expect.
The protagonist Dao Ma, an excellent swordsman and bounty hunter played by Jing Wu, wanted for the murder of a corrupt governor, accepts the mission of escorting the most wanted man in the country, leader of a rebellion that could bring peace to mainland China.
Along the journey, Ma, accompanied by a child he raises as his own son, reunites with old friends, confronts former enemies, and gradually forms a group of unlikely heroes who, despite seemingly opposed and perhaps irreconcilable interests, end up fighting together out of necessity for a greater good. Throughout the narrative, the film explores fragments of each character, looking into their pasts and the ways they once interacted, while these memories reflect forward into the future, building a web that connects them all.
However, as the first film of a franchise born from Blades of the Guardians, the excess of arcs and narrative hooks for future projects becomes uncomfortable, as the film rarely truly concludes what it begins. Even though the main mission is established, the screenplay, jointly written by Tai-Lee Chan, Chao-Bin Su, Larry Yang, and Baimei Yu, struggles to balance all the stories and arcs it attempts to tell at once.
For instance, although Zhi Shilang is the leader of a revolution, the most wanted man in the region, and a potential figure capable of bringing peace to China, very little is actually said about him, despite his near-constant presence on screen. At no point does the film truly address the mystery of his identity, or what he represents to the nation as a political symbol and as a figure of resistance against the corrupt central government. The same applies to Lao Mo, leader of a local city and mentor to the protagonist, whose story is transferred to his daughter and ultimately gives way to the emergence of the film’s main villain, a temporary threat to be confronted, almost as a narrative detour from the central objective of the plot.
As the film moves toward its ending, it becomes clear that the narrative is far from truly concluding, as it continues to introduce new characters in order to further complicate the panorama. But with every new layer added, the challenge of tying everything together grows, and the film ends up leaving countless loose threads to be resolved in future sequels.
Still, even as a wuxia epic that does not go beyond what we have already seen in the genre in many other examples, including works by the same filmaker, a director as attentive to action as Yuen Woo-Ping makes a difference. With a very high budget and the possibilities of digital filmmaking, the film integrates the director’s classic fight choreography into even more fabulous approaches, amid flying strikes, flaming swords, and sandstorms, referencing both his own classics and other cinematic moments. It evokes Mad Max: Fury Road (2015) in one of its major action sequences, and even Schindler’s List (1993) in a dramatic flashback, through cinematography that blends grayish black-and-white tones with striking touches of red in specific costume elements.
Even if Blades of the Guardians is not a revolutionary film, nor radically different from what we have seen before, and even though it is built on familiar foundations and filled with loose ends clearly designed for sequels, spin-offs, and the development of a large franchise, it remains a wuxia film with the unmistakable touch of Woo-Ping—one of the great masters of action cinema in China and Hong Kong. From vast landscapes to a sense of megalomaniacal action, it is a film that brings together some of the best elements of the genre under a large budget, skillfully working fantasy through choreography and bloody combat on the scale of a true epic. It marks the director’s return to the director’s chair, and I confess that I am curious to see the next steps of Dao Ma’s journey in his mission to restore balance to the country.
The film is currently screening in theaters in the United States, the United Kingdom, and China.



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