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CRÍTICA | Eles Vão Te Matar, de Kirill Sokolov (They Will Kill You, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 30 de mar.
  • 4 min de leitura

Com referências à Tarantino e faroestes, Eles Vão te Matar subverte o uso da “imortalidade” no cinema, em um desafio de sobrevivência regado à ação, terror e humor satírico.


 

Nem todos os filmes precisam reinventar a roda cinematográfica, ou sequer do próprio gênero. Muitas vezes, referências bem trabalhadas e ambição artística podem dar origem a algo novo e igualmente surpreendente, sem necessariamente abalar as bases sobre as quais se constrói. É nesse sentido que se fez a estreia do inventivo cineasta russo Kirill Sokolov em solo norte-americano, a partir de uma clara noção de seu projeto, escrito em conjunto a Alex Litvak, e com apadrinhamento dos irmãos Barbara e Andy Muschietti, enquanto uma comédia de ação e terror no formato “exército de uma pessoa”.

 

Os primeiros instantes do longa nos levam ao passado, para o momento divisor de águas na vida protagonista e sua irmã. A atmosfera séria imposta pelo contexto da violência familiar de um pai em face das filhas leva a uma ruptura entre as personagens, no catastrófico ponto de ebulição que as separou durante uma década. O clima denso, cuja fotografia constrói a partir de tons escuros, e a direção com olhar de empatia e apreensão a partir das faces das personagens, e da própria situação, logo dá lugar ao estranhamento do presente. Em Nova York, para onde as irmãs pretendiam fugir, Asia, vivida com excelência pela cada vez melhor Zazie Beetz, chega à porta de um prédio, onde trabalhará como faxineira.

 

O ambiente, imponente pela idade do edifício, em suas paredes requintadas e moradores esnobes transforma-se, continuamente, em algo além. O excesso de trancas na porta da frente sugere que algo se esconde entre aquelas paredes, e o olhar de cada pessoa que encontra no caminho de sua recepção, por vezes excessivamente amigável, suscitando aquela ideia de “bom demais para ser verdade”, leva a ainda mais suspeitas. Não demora muito para a confirmação de que algo não dito jaz por debaixo de tanta perfeição – afinal, como dito à ela, sem que, porém, consiga perceber, Eles Vão Te Matar.

 

É no desfecho desse trecho inicial, de estabelecimento das bases sobre as quais a ação irá se desenrolar, que Sokolov revela suas surpresas iniciais. Elas atuam em duas frentes distintas, a fim de pegar o espectador desprevenido, sobre as quais serei suscinto a fim de tentar preservá-las ao máximo. Que a protagonista será atacada é algo certo desde o princípio, porém não contamos, e nem os antagonistas, com suas afiadas habilidades de luta; ao passo que, por outro lado, ela, e tampouco nós, temos conhecimento dos poderes sobrenaturais dos vilões.

 

Ao propor à protagonista uma batalha da qual a princípio não tem chance de vencer, invertendo a fórmula típica, concedendo a invencibilidade aos inimigos, e não à heroína, o risco da missão não apenas aumenta, para a alegria do espectador, que desde os instantes iniciais sabe que pode esperar qualquer coisa da narrativa, como também faz da estratégia arma elementar para que a personagem possa ter uma chance de vencer a luta em que se inseriu. O texto é claro quanto às regras que estabelece, e brinca com suas exceções sem subestimar o espectador, mas incentivando a lógica e a experimentação da protagonista frente às possibilidades que possui para atingir seus objetivos, quase apostando em um verdadeiro esquema de tentativa e erro, porém letal, e, de certa forma, decisivo.

 

Desse modo, a ação e o combate, majoritariamente corpo a corpo, tomam a maior parte do longa, em não somente divertidas sequências violentas, quase sem limites, de uma forma até surpreendente para o próprio cinema norte-americano, como também milimetricamente calculadas a partir da câmera de Kirill Sokolov. Os ambientes em que articula tais cenas não se constroem em vão, algo demonstrado pela decupagem ao investigar o espaço, junto do espectador, até como uma forma de nos situar ao ambiente, e por ele transitar, muito livremente, no entorno das lutas. Encontramos elementos que nos remetem ao cinema de Tarantino, e dinâmicas que lembram faroestes – a partir dos olhares e duelos, especialmente entre Beetz e a vilã de Patricia Arquette –, e até jogos de videogame, pele progressão narrativa, sempre com novos desafios, e até um “chefão”, na reta final, bem como coreografias circenses.

 

Assim, Kirill Sokolov estreia em terras norte-americanas repleto de surpresas, violência e um estilo muito característico com Eles Vão Te Matar, ao trabalhar elementos básicos, e ideias até genéricas, com inventividade sob uma câmera livre, quase sem limitações para correr pelos ambientes, enquanto a ação visceral se desenrola sempre sob novos desafios, renovando-se constantemente, e bom humor satírico. É certamente uma das grandes surpresas de 2026, enquanto um filme de narrativa simples, porém coesa, bem amarrada, emotiva e divertida na medida certa, que não apenas sabe como surpreender, como também quando acabar, próximo aos noventa minutos de duração, sem se desgastar.

 

Avaliação: 4.5/5

 

Eles Vão Te Matar (They Will Kill You, 2026)

Direção: Kirill Sokolov

Roteiro: Kirill Sokolov e Alex Litvak

Gênero: Ação, Comédia, Terror

Origem: EUA, Canadá, África do Sul

Duração: 94 minutos (1h34)

Disponível: Cinemas

 

Sinopse: Uma jovem precisa sobreviver à noite no Virgil, o misterioso e mortal esconderijo de um culto demoníaco, para evitar se tornar a próxima oferenda.

 
 
 

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