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10º OVERLOOK FILM FESTIVAL | Parasomnia, de James Ross II (Idem, 2026)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Ancorado em pontos de vista, Parasomnia mescla possessão com passagens em found-footage para se aprofundar em traumas, em terror que convida o espectador a juntar as peças do mistério.


 

Acredito que, quando em breve chegar ao circuito comercial norte-americano, com distribuição do streaming Shudder, a montagem de Parasomnia será o elemento de maior alvo das críticas direcionadas ao filme. Em tempos nos quais pessoas não conseguem mais ficar poucos minutos longe das telas dos celulares, ou hiperconectadas às redes, urge uma necessidade de chamar a atenção do espectador a todo o tempo, o que tem levado, ainda mais agora na era dos streamings, à produção de inúmeras obras com roteiros manipulativos, com subsequentes reviravoltas, justamente na intenção de fisgar o público e tentar afastá-lo, ao máximo, da distração. Por outro lado, essa tendência igualmente tem gerado má vontade em seleta parte do público mais ávido, cansado de ser surpreendido com revelações a cada tantos minutos, e mais ainda de ser manipulado excessivamente pelos filmes.

 

O que fará Parasomnia sofrer é justamente o fato de ser um filme excessivamente manipulativo. Particularmente, não me considero uma pessoa que se incomoda com tal escolha - pelo contrário, adoro -, quando a obra deixa espaço para o espectador também resolver o mistério por conta própria, junto do personagem, antes da revelação. É talvez um empecilho aqui, já que até o público mais atento pode encontrar certa dificuldade em juntar e posicionar todas as peças, quando o filme não revela a totalidade do tabuleiro em uma “primeira jogada”, deixando espaços inacessíveis, propositalmente.

 

Isto porque adota-se, para além de uma estrutura não-linear, entre o passado e o presente, em três momentos distintos, também uma abordagem de diferentes pontos de vista, o que limita uma completa visualização do que acontece em um primeiro momento. Por outro lado, tais escolhas criativas atenuam um excesso de exposição que poderia acontecer, tornando as revelações mais instigantes, na medida em que se privilegia mostrar muito mais do que apenas dizer.

 

É justamente o que faz a direção de James Ross II, em sua primeira experiência em longa-metragem, ao aventurar-se na exploração de uma mescla de temáticas e subgêneros distintos do cinema de terror, fixando-se, primordialmente, no sobrenatural e na possessão. Quando precisa colocar a protagonista na posição de vulnerável à entidade, trabalha o ponto de vista da criatura no mundo real, a partir de um olhar voyeurístico na busca pela vítima da vez, sob uma lente de ampla angular, perseguindo silenciosamente uma pessoa distraída, ao passo que também materializa em tela o olhar da personagem nessa conexão, presa ao mundo da entidade, em passagens que trabalham enigmáticos sonhos, reflexos de traumas do passado, dos quais se alimenta, com a prisão na forma de um grande labirinto, filmado em formato "found-footage", retratando um ambiente sujo, abandonado, que sempre culmina em uma grande e desesperadora perseguição.

 

Na medida em que avança, alterna e reúne os dois pontos de vista, mais ou menos simultâneos, Ross habilidosamente conecta os elementos que aparentemente ficaram soltos ao longo da narrativa. É a partir da segunda metade, e quando adentra justamente ao segundo olhar, que Parasomnia oferece, então, a possiblidade do espectador juntar todas as ideias trazidas antes mesmo da protagonista, culminando na grande sequência final, e uma nova revelação.

 

Para além apenas da abordagem criativa das visões construídas pela obra, as proporções tomadas pelo terror também transportam os sentimentos da protagonista ao espectador, a partir da maneira como se ancoram no trauma e no luto pelo qual passou em pelo menos dois momentos de sua vida, os revivendo, tomada por uma culpa que não lhe pertence, enquanto presa ao labirinto da criatura; ao mesmo tempo que as pessoas com as quais se preocupa encontram-se perseguidas pela mesma.

 

Dessa maneira, em certo aspecto, a experiência de Parasomnia recordou-me de Traumatika, dirigido por Pierre Tsigaridis, pela maneira como mescla uma experimentação visual com diferentes subgêneros do cinema de terror, e também pontos de vista que conectam a todos os eventos. No entanto, James Ross II, com menos orçamento e uma produção ainda menor, foi capaz de não apenas conectar mais habilidosamente os pontos e elementos narrativos, como também surpreender o espectador a partir de reviravoltas, aos poucos oferecendo também a oportunidade de investigar junto da personagem, através dos flashbacks imersos em sonhos, e novas peças que revelam o verdadeiro tabuleiro pelo qual opera o filme.

 

Avaliação: 4/5

 

Parasomnia (Idem, 2026)

Direção: James Ross II

Roteiro: James Ross II

Gênero: Terror, Thriller

Origem: EUA

Duração: 85 minutos (1h25)

Exibido no 10º Overlook Film Festival

 

Sinopse: Após o desaparecimento de seu amigo, Riley precisa confrontar o demônio de seus pesadelos, que pode ter atravessado para a realidade, enquanto enfrenta seu próprio passado trágico.

 

English review

 

Anchored in shifting points of view, Parasomnia blends possession with found-footage passages to delve into trauma, crafting a kind of horror that invites the viewer to piece together its mystery.

 

I believe that, when it soon reaches the North American market with distribution by Shudder, the film’s editing will be the primary target of criticism. In a time when people can barely stay away from their phones for a few minutes, constantly immersed in social media, there is an increasing need to capture the viewer’s attention at all times. This has led - especially in the streaming era - to the production of highly manipulative narratives, filled with successive twists designed to hook audiences and keep them from distraction. On the other hand, this same trend has generated resistance among more discerning viewers, who have grown weary of constant surprises and excessive manipulation.

 

What may ultimately work against Parasomnia is precisely how overtly manipulative it is. Personally, I am not bothered by this choice - on the contrary, I enjoy it - when a film leaves room for the audience to solve the mystery alongside the protagonist before the reveal. That may be the main issue here, as even attentive viewers may struggle to assemble all the pieces when the film deliberately withholds parts of the board from its “first move,” leaving certain spaces inaccessible.

 

This is due not only to its non-linear structure - moving between past and present across three distinct timelines - but also to its use of multiple points of view, which initially prevents a full understanding of events. At the same time, these creative decisions help avoid excessive exposition, making the revelations more engaging, as the film prioritizes showing over telling.

 

That is precisely where the direction of James Ross II, in his feature debut, proves effective. He ventures into a blend of themes and subgenres within horror, primarily grounded in the supernatural and possession. When placing the protagonist in a vulnerable position, he adopts the entity’s perspective in the real world - a voyeuristic gaze hunting its next victim through a wide-angle lens, silently pursuing distracted individuals - while also visualizing the protagonist’s connection to this force, trapped within the entity’s realm. These sequences unfold through dreamlike, enigmatic passages that reflect past traumas, which the entity feeds upon, rendered as a vast labyrinth filmed in a found-footage style, depicting a dirty, abandoned environment that inevitably culminates in frantic, desperate chases.

 

As the film progresses, it alternates and gradually merges these two perspectives, with Ross skillfully connecting elements that initially seem disjointed. It is particularly in the second half - when the narrative fully embraces this second viewpoint - that Parasomnia allows the audience to piece together its ideas even before the protagonist does, leading to its climactic final sequence and a new revelation.

 

Beyond its formal experimentation, the scale of its horror also translates the protagonist’s emotions to the viewer, rooted in trauma and grief from at least two defining moments in her life. She relives these experiences, burdened by a guilt that is not hers, while trapped within the creature’s labyrinth, even as those she cares about are simultaneously pursued by the same entity.

 

In this sense, Parasomnia recalls Traumatika, directed by Pierre Tsigaridis, in how it combines visual experimentation with multiple horror subgenres and interconnected perspectives. However, even with a smaller budget and production scale, James Ross II manages not only to tie its narrative threads together more effectively, but also to surprise the viewer through its twists, gradually offering the opportunity to investigate alongside the protagonist through dreamlike flashbacks and new pieces that ultimately reveal the true board on which the film operates.

 

Parasomnia was screened at the 10th edition of the Overlook Film Festival and will be available soon on Shudder.

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