CRÍTICA | Lobisomem, de Leigh Whannell (Wolf Man, 2025)

O Lobisomem de Leigh Whannell clama por um debate que nunca acontece, pincelando boas ideias em um filme que parece incompleto.

Lembro-me como se fosse ontem de minha última ida ao cinema antes da pandemia. Era março de 2020, fui ver O Homem Invisível sem qualquer expectativa, e fiquei surpreso pela maneira como o talentoso Leigh Whannell reconstruiu a figura do clássico monstro sob as bases de temas contemporâneos, a partir da violência doméstica e do stalking, sem repetir aquela mesma fórmula replicada em tantas sequências e refilmagens, que já estavam desgastadas.
Com a repercussão de sucesso do filme, a Universal, em parceria com a Blumhouse, parecia finalmente ter encontrado uma solução para suas tentativas em estabelecer um grande universo compartilhado com seus monstros (ainda mais depois do desastre de A Múmia em 2017). A solução talvez seria com filmes de menor investimento financeiro, na busca por um público adulto, com mais impacto na violência e no próprio terror e, sobretudo, uma readaptação ao mundo atual, sob as lentes de cineastas com ampla liberdade criativa – mais ou menos o que chamam de “método Blumhouse” (filmes baratos, retorno fácil nas bilheterias, e liberdade criativa).
Por estas razões, existia uma certa expectativa – ao menos de minha parte – em cima de Lobisomem, afinal, trata-se de um filme que conta, essencialmente, com a mesma equipe criativa de O Homem Invisível, incluindo o diretor, além da “continuidade” do universo de monstros. Acontece que o resultado, em algum momento, até tentou se aproximar do outro filme, mas sem o mesmo impacto, e menos ainda, eficiência para deixar qualquer marca, que não o esquecimento repentino posterior.
Desta vez, sua ideia era uma abordagem mais próxima da figura e representações originais da criatura, cuja agressividade não faz distinção entre amigo e inimigo, tornando o transformado em alguém propício a atacar a própria família sem nem se dar conta. A partir disso, o roteiro de Whannell e Corbett Tuck busca explorar o Lobisomem justamente no seio da relação familiar, trabalhado como uma doença, que, metaforicamente, se desenvolve através da superproteção dos pais (e neste caso, figuras masculinas) em relação aos filhos, que, inicialmente como uma nobre intenção, pouco a pouco se torna algo violento e maléfico, sem nem perceber, apoiado pelo medo de que algum mal aconteça com eles.
Mas apesar dessa boa ideia, e o eixo temático relevante, o filme, em diversos momentos, parece incompleto. Desde de o estabelecimento do protagonista, em um prólogo longo, focado na relação conturbada com o pai, até o momento posterior, nos dias atuais, com sua própria família, nada é propriamente desenvolvido para além do óbvio. Todos os personagens em cena são vazios e podem ser resumidos em poucos adjetivos, suficientes para verificarmos neles uma função narrativa, mas sem conseguir propriamente torna-los pessoas de verdade, como as que conhecemos no mundo real. Por consequência, todas as decisões tomadas soam artificiais e até robóticas, como se seguissem à risca um roteiro pré-estabelecido, que os leva do ponto A ao ponto B sem deixar que tenham alguma liberdade para agir como seres humanos em situação de desespero.
Nesse meio, o monstro, que deveria ser o grande destaque, acaba perdendo a relevância, primeiro porque não representa uma ameaça verdadeira, enquanto o texto, se contradizendo dentro da própria ideia, superprotege seus personagens e controla exageradamente as rédeas dos acontecimentos, inclusive temporais e comportamentais; e também porque a transformação, parte do fator “terror”, acaba mal aproveitada, pela progressão acelerada e visualmente pouco atraente, cujo momento chave, repentino, é apenas mais um no meio de um corre-corre interminável – ainda que tente algo novo, mostrando os dois lados da moeda (do transformado e de sua família), através de uma barreira na comunicação. Até existe espaço para ampliar a discussão – e tudo o que gira em torno da reviravolta reforça isso – mas parece que nada saiu do plano das ideias, sobretudo pelo caráter inverossímil da narrativa e das frágeis relações entre os personagens, baseadas em uma superficialidade latente.
E assim, com a fotografia escura, e a montagem que se atrapalha nos momentos de ação, nem a violência encontra algum espaço para se destacar, tornando o Lobisomem apenas mais um filme de monstro genérico, como tantos outros, ainda que apresente algumas ideias próprias e uma tentativa de construção mitológica de um novo lobisomem, tal como fora feito com o Homem Invisível. Mas é tudo tão pouco aproveitado, soando até incompleto, que, se havia plano para algo mais, como havia espaço, infelizmente nunca aconteceu, e tornou o presente filme em apenas mais um, esquecido num mar de semelhantes.
Avaliação: 2/5
Lobisomem (Wolf Man, 2025)
Direção: Leigh Whannell
Roteiro: Leigh Whannell e Corbett Tuck
Gênero: Terror, Thriller, Drama
Origem: EUA
Duração: 103 minutos (1h43)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Blake deve proteger a si e a sua família quando eles são perseguidos por um lobisomem em uma floresta no estado do Oregon. Mas conforme a noite avança, o ele começa a se comportar de forma estranha. (Fonte: IMDB - Adaptado)



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