CRÍTICA | O Drama, de Kristoffer Borgli (The Drama, 2026)
- Henrique Debski

- há 3 dias
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Em O Drama, Kristoffer Borgli explora as consequências de um segredo capaz de abalar a relação de um casal, com comédia afiada que toca em alguns dos mais delicados assuntos da sociedade norte-americana.

Desde sua chegada aos Estados Unidos, para a realização de seu terceiro longa-metragem, o cineasta norueguês Kristoffer Borgli demonstrou um interesse profundo na exploração de um dos mais incômodos costumes da sociedade contemporânea: o cancelamento. Em O Homem dos Sonhos, baseou-se em uma antiga lenda da internet, sobre um homem misterioso que aparece nos sonhos das pessoas, para trabalhar a ideia no plano concreto, voltado às consequências do fenômeno, a partir de uma comédia que colocava Nicolas Cage na pele de um professor universitário que, sem explicações, começara a aparecer nos sonhos de diversas pessoas ao redor do mundo. No decorrer do filme, o personagem passa pelos diversos estágios de um fenômeno online: o reconhecimento, a celebração, a fama, as notícias falsas, e então, o cancelamento, em um ciclo de destruição – da vida privada, e da própria reputação do protagonista.
Em escala reduzida, Borgli volta à temática em O Drama, agora ainda mais afiado na proposta crítica, e sobretudo provocativa, para com a sociedade norte-americana. Na trama, um casal prestes a se casar, vivido por Robert Pattinson e Zendaya, tem a relação abalada por um segredo revelado em um jantar com os padrinhos.
O cineasta demonstra, ao longo de todo o primeiro ato, muita habilidade na maneira como, suscintamente, é capaz de imergir o espectador adentro daquele universo. Começando no primeiro contato entre o casal, em uma cena tão romântica quanto estranha (em razão da maneira como se aproximam) em uma cafeteria, assistimos, paralelamente, à ambos preparando seus discursos e votos de casamento, junto dos melhores amigos, em separado. Enquanto relembram seus melhores momentos juntos até então, pensam e contar as melhores características que veem um no outro, justamente aqueles que os fazem acreditar estarem se casando com a pessoa certa. É como um perfil dos personagens Charlie e Emma, feitos aos olhos um do outro. A montagem, neste momento, intercala as conversas dos personagens com cenas, em flashes, dos momentos que viveram juntos, ilustrando um amor genuíno existente dentro daquela casa, fruto da relação que tende a se fortalecer com o casamento.
Quando conhecemos os personagens, e firmemente temos uma imagem clara de suas características, entre qualidades e até defeitos, Borgli solta sua bomba. Curiosamente, a priori, dada a própria revelação, não se parece algo tão complexo ou impactante, visto o lapso temporal existente entre o fato, suas praticamente inexistentes consequências, e tudo o que o cerca. No entanto, não é assim que os demais enxergam, então se iniciando o verdadeiro drama.
Um simples diálogo sincero, de mante aberta, seria suficiente para resolver uma questão como a proposta. Mas não nos Estados Unidos de 2026, e menos ainda diante de uma sociedade acostumada às redes sociais, incapaz de ouvir o próximo ou qualquer opinião contrária, e acostumada a simplesmente apertar o botão do “bloquear” como se fosse resolver o problema – algo que se estendeu às relações pessoais também – sem que percebam, no entanto, estar nelas parte do cerne da questão.
A ansiedade toma conta da narrativa a partir deste momento. Não apenas abalando a relação entre o casal enquanto juntos, torna-se também parte do caos social em que se afundam, entre as várias faces que a problemática torna – às pessoas ao redor, como sociedade, e o próprio seio familiar que estão prestes a construir. O diretor trabalha esse sentimento não só a partir das feições dos personagens, mas especialmente através da montagem, que começa a aprofundar-se na mente dos protagonistas – um fantasiando as consequências, o “e se”, e o medo do estarem juntos, diante da descoberta; e o outro, o receio daquilo que o parceiro pode pensar, do que pode fazer, diante da situação, e do que irá acontecer dali em diante.
Ainda que haja uma boa dose de exagero nos arquétipos, reações e consequências dos caminhos tomados pela narrativa, Borgli estabelece O Drama como uma sátira do mundo contemporâneo – logo, o espectador médio conhece, e compreende, o funcionamento daquele mundo, no geral, a partir da verossimilhança com a realidade. É justamente o que faz com que as ansiedades materializadas em tela, frutos das mentes dos protagonistas, se diferenciem tão bem do que efetivamente está acontecendo no plano concreto.
A câmera busca pelo humor ao aproximar-se dos personagens, explorar de perto suas vulnerabilidades, e o desespero quando o tempo está acabando, e precisam tomar decisões. Enquanto a realidade é retratada com frieza pela fotografia em cores azuladas ou acinzentadas, com ar deprimente, as fantasias pessoais se distinguem pelo aspecto surrealista das situações, incondizentes com toda a construção elaborada no primeiro ato em relação ao perfil do casal, em cores mais fortes e por vezes até vibrantes. Além disso, há todo um processo de ressignificação de brincadeiras, gestos e características estabelecidos pelo roteiro, ao longo da desconstrução do relacionamento ocasionado pela revelação, como uma espécie de via de mão dupla entre a realidade e a paranoia.
E por incrível que pareça, ao mesmo tempo que o longa coloca o casal no centro do caos, ocasionado pelo botão de “bloquear” acionado na vida real, com seus melhores amigos, os próprios protagonistas, sem talvez se dar conta, igualmente o fazem em determinada situação, no decorrer da própria obra, com outra pessoa, revelando um hábito tão internalizado – e normalizado – que nem se dão conta da própria hipocrisia.
Dessa maneira, O Drama retorna à temática abordada por Kristoffer Borgli em seu longa anterior, porém em outro espaço social – reduzido, mas igualmente destruidor às vidas dos envolvidos –, ao propor uma sátira perspicaz ao mundo contemporâneo, na ausência do diálogo entre as pessoas, e de um sentimento paranoico que atua entre duas mentes, uma contra a outra, com humor afiado disposto a provocar a sociedade norte-americana no cerne de um assunto extremamente delicado ao país (que pouparei, para evitar spoilers). Ao mesmo tempo, em menor medida, igualmente explora comportamentos hipócritas neste mesmo ambiente, e a própria valoração de “problemas”, deixando, então, a pergunta: o que mais importa, um fato absurdo cogitado, porém jamais consumado, ou um fato um tanto menos “horrível”, mas ainda criminoso, porém consumado, que por uma série de fatores não gerou consequências, mas poderia ter ocasionado uma tragédia? A resposta para essa dúvida, então, cabe ao espectador, como um bom exercício de reflexão.
Avaliação: 4.5/5
O Drama (The Drama, 2026)
Direção: Kristoffer Borgli
Roteiro: Kristoffer Borgli
Gênero: Comédia, Drama, Romance, Thriller
Origem: EUA
Duração: 105 minutos (1h45)
Disponível: Cinemas
Sinopse: Profundamente apaixonados e em meio aos preparativos finais para o grande dia do casamento, um casal tem sua felicidade ameaçada quando um grande segredo vem à tona.



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