CRÍTICA | Blitz, de Steve McQueen (Idem, 2024)
- Henrique Debski

- 3 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Reciclando ideias de tantos outros filmes, em Blitz Steve McQueen pincela temáticas relevantes, mas apenas em uma tentativa de "Oscar bait" bem aquém de seu talento.

Quando descubro que determinado projeto é assinado por Steve McQueen, sempre é gerada, naturalmente, alguma boa expectativa, com ele sendo um diretor que sabe trabalhar temas complexos, colocando o dedo nas feridas, mas sempre com sensibilidade, seja em dramas históricos como 12 Anos de Escravidão, ou mesmo em thrillers como As Viúvas.
Em sua retomada ao cinema de ficção depois da direção da minissérie antológica Small Axe e do (literalmente) grande documentário Occupied City, Blitz não à toa teve sua estreia no Festival de Londres, como filme de abertura. Longe dos Estados Unidos, mirando seu olhar para o velho continente, McQueen situa sua narrativa no centro de um dos momentos recentes mais sombrios da cidade de Londres: a blitzkrig alemã (guerra-relâmpago), movida por ataques aéreos repentinos, violentos e brutais durante as noites, que impediam a cidade e seu povo de dormir e descansar em paz.
No meio de todo o caos, insegurança, das mortes e destruições, uma mãe toma uma decisão difícil: colocar seu filho em um trem, rumo ao interior inglês, pensando na segurança do menor. Mas a criança, com oito ou nove anos de idade, se recusa a deixar a cidade, e no meio do caminho escolhe pular do trem e buscar por sua casa novamente.
A partir dessa premissa, McQueen divide sua obra em dois arcos centrais, que fixam como objetivo central se encontrar. A ideia por si é interessante, na proposta de explorar uma cidade de Londres em um momento histórico de calamidade, com condições bastante específicas que tornam esta uma jornada mais arriscada do que o de costume. Fora isso, somos apresentados a dois personagens completamente diferentes, sobretudo para efeitos do ponto de vista a ser adotado, ainda mais quando lidamos com uma mãe branca e uma criança negra.
Dessa forma, McQueen coloca para discussão, também, e com certa parcela de importância frente as outras, uma temática recorrente em sua filmografia, o racismo, agora em um contexto historicamente diverso que o de costume, e sobretudo trabalhando diante de outra cultura, em outro país, cuja problemática não demora muito para revelar ser a mesma, ou ao menos, muito parecida com o que se encontrava (e ainda encontra) nos Estados Unidos, desde as apropriações culturais até a celebração do imperialismo, algo tipicamente britânico e europeu.
Entretanto, estas são apenas pinceladas dos vários pontos temáticos diferentes que o diretor aqui deseja trabalhar, encontrando dificuldades em estabelecer seu verdadeiro protagonismo quando diante dos dois arcos. Não que a busca de um filho pela mãe e vice-versa não seja algo naturalmente emocionante, mas pela forma como tudo é trabalhado aqui, o público encontra-se frente a um filme de guerra que se mostra incapaz de usar seu contexto como forma de construir uma ameaça crível para a separação da família.
Todo o texto escrito por McQueen parece blindar seus protagonistas contra qualquer mal físico, assistindo, ao longo do caminho, a inúmeras tragédias que nunca os atinge, mas apenas aos que estão ao redor. A partir dos coadjuvantes e demais personagens de apoio, a direção tenta desesperadamente arrancar a lágrimas do espectador, sem perceber, contudo, o quão artificial é a construção das situações que propõe, seja por ações heroicas desesperadas ou mudanças de ideia repentinas que culminam na desconstrução de alguém que, até então, se estabelecera como antagonista, sem qualquer indicativo prévio.
Esses muitos facilitadores de roteiro, conveniências e pequenos saltos temporais que levam os personagens de um lugar ao outro são aquilo que tira justamente os elementos que deveriam ser os mais relevantes de Blitz: o senso de urgência e a verossimilhança, se esvaindo de vez com a inserção da fantasia, por meio de sonho, em determinado momento (uma cena visualmente bacana, que até lembra de algo feito por Matteo Garrone em Eu, Capitão, mas que aqui não combina com a proposta).
As perspectivas do cineasta para aquele contexto histórico até soam interessantes, sobretudo pela temática racial abordada, e existe todo um capricho da direção de arte em reconstruir uma Londres durante a Segunda Grande Guerra, mas tudo soa apagado demais por uma narrativa que não parece procurar por uma conexão natural com seu público, através de uma fotografia escura e sem vida (escolha que até faz sentido), senão buscando por estímulos pontuais bastante artificiais, ao ponto de nem mesmo a excelente Saoirse Ronan se destacar com seu bom trabalho, e menos ainda Harris Dickinson, outro ótimo ator, completamente escanteado (e até esquecido).
É uma pena que Steve McQueen tenha se deixado perder com um filme tão aquém de suas habilidades como roteirista e diretor, já muito bem demonstrada por diversas vezes em outras tantas oportunidades. O que parece mesmo é que Blitz não se interessa muito pela história que conta, e nem pelos personagens, mas sim por pincelar superficialmente alguns temas e tentar arrancar lágrimas de seu público com situações tristes, é verdade, mas forçadas e até genéricas, recicladas de tantos outros filmes parecidos. Acaba que vira, no fim das contas, uma tentativa descarada e pouco inventiva de “Oscar bait”. Veremos se funcionou ou não quando saírem as indicações.
Avaliação: 2.5/5
Blitz (Idem, 2024)
Direção: Steve McQueen
Roteiro: Steve McQueen
Gênero: Drama, Thriller, Guerra
Origem: EUA, Reino Unido
Duração: 120 minutos (2h00)
Disponível: AppleTV+
Sinopse: Na Londres da Segunda Guerra Mundial, George, de 9 anos, é evacuado para o campo por sua mãe, Rita, para escapar dos bombardeios. Desafiador e determinado para voltar para sua família, o garoto embarca em uma perigosa jornada para casa enquanto é procurado pela mãe.
(Fonte: Apple - Adaptado)



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