CRÍTICA | De Volta à Ação, de Seth Gordon (Back in Action, 2025)
- Henrique Debski

- 27 de jan. de 2025
- 4 min de leitura
Cameron Dias e Jamie Foxx se reúnem como um casal de agentes secretos aposentados em mais uma comédia de ação genérica da Netflix.

Confesso que ando um pouco cansado dessa falta de criatividade de Hollywood para as comédias de ação voltadas aos streamings. Que a indústria surfa em tendências nós sabemos desde sempre, mas o que tem acontecido com mais frequência é o lançamento de filmes preguiçosos, que não parecem ter ambição para ir além do óbvio, daquele “arroz com feijão” já preparado sem nem mais tempero.
Se olharmos para os últimos anos, veremos que filmes como Ghosted e Plano em Família (de 2023); A Liga e O Jogo do Disfarce (de 2024) se constroem sob as mesmas bases. Apesar das naturais diferenças que existem entre si, notamos obras que envolvem vidas duplas, casais/família, e a exposição de um grande segredo. Tudo bem, lá em 2003 isso já existia – vide Sr. e Sra. Smith, que agora também virou série – mas pelo menos era algo diferente.
Como era de se esperar, este ano de 2025 já começou com um exemplar no estilo, e De Volta à Ação traz um duplo retorno no protagonismo: Jamie Foxx, afastado desde 2023 por questões de saúde; e o grande destaque, Cameron Dias, em seu primeiro papel em mais de onze anos.
Após um prólogo bastante protocolar, De Volta à Ação projeta seu espectador para uma vida de família norte-americana comum. Um casal com dois filhos adolescentes, casa grande, e vida normal. Mas por detrás daquilo existe um segredo enterrado no passado: eles são ex-agentes da CIA. E tudo está prestes a ruir quando, depois de um “pequeno” incidente, o casal acaba se expondo e atraindo antigos inimigos de outra vida.
A premissa batida por si só não chamaria qualquer atenção se não fosse pelos protagonistas, interpretados por atores talentosos, cada qual em seu próprio retorno. E de longe, eles são o melhor que a direção de Seth Gordon pode contar com, enquanto as tiradas cômicas do roteiro, assinado pelo diretor, ao lado de Brendan O'Brien, brinca com as diferenças geracionais entre os personagens, a partir da barreira que se estabelece na comunicação, incluindo, até mesmo para o desenrolar da ação, elementos como o vício em telas, e a excessiva exposição na internet, utilizada como arma contra reputações.
Tudo isso fica melhor pela química fácil entre Foxx e Dias, evidentemente muito confortáveis um com o outro, e entrando de cabeça no projeto e na relação entre eles como um casal, da mesma forma que a jovem McKenna Roberts, junto com Rylan Jackson, também demonstram conforto.
Durante cerca de uma hora, o longa se sustenta bem em seu jogo de gato e rato, no clima sarcástico e no estranhamento dos filhos em relação aos pais, com até alguma criatividade nas coreografias de ação e trilha musical. Mas isso cai por terra a partir de que uma reviravolta muda os rumos da narrativa, e da inspiração também. Depois de uma revelação que subestima o espectador, e abala a confiança, parece que todo o restante foi escrito às pressas, ou até por uma inteligência artificial.
O aspecto sarcástico do texto torna-se ausente, e dá lugar a um corre-corre sem qualquer intensidade, e uma comédia pastelona que não combina com o que havia sido visto antes. Não só isso, tudo no que tange à teia criminosa e a própria ameaça fica desajeitado – não existe mais um risco verdadeiro (a cena do leilão chega a ser constrangedora); um dos vilões, que já estava perdido naquele mar de ideias, simplesmente desaparece, e não fica clara sua participação nos eventos para além do prólogo; as sequências de ação ficam estranhamente vazias e sem criatividade nas coreografias, sem uma grandiosidade pedida por um final (ou pelo menos no nível da cena no posto de gasolina); as questões familiares ficam de lado, e se resumem a poucas linhas de diálogos artificiais; e, como não poderia faltar, um gancho para sequência.
E assim, De Volta à Ação, que mesmo sem se esforçar conseguia arrancar algumas risadas em sua primeira hora, parece abraçar de vez o óbvio e o genérico em sua segunda metade, ao deixar de lado todos os seus atributos em prol de algo que já vimos tantas outras vezes, sem nem buscar por algum diferencial. Às vezes, o que parece mesmo é uma reescrita de roteiro de última hora, por alguma razão, que, de tão apressada, destoa tanto do que havia sido feito que soa, lamentavelmente, como dois filmes (inacabados) em um.
Avaliação: 2.5/5
De Volta à Ação (Back in Action, 2025)
Direção: Seth Gordon
Roteiro: Seth Gordon e Brendan O'Brien
Gênero: Ação, Comédia, Thriller
Origem: EUA
Duração: 114 minutos (1h54)
Disponível: Netflix
Sinopse: Quinze anos depois de abandonar a CIA para formar uma família, os ex-agentes de elite Matt e Emily voltam ao mundo da espionagem ao terem seus disfarces revelados. (Fonte: IMDB)



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