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CRÍTICA | Feios, de McG (Uglies, 2024)

  • Foto do escritor: Henrique Debski
    Henrique Debski
  • 10 de dez. de 2024
  • 4 min de leitura

Com quase uma década de atraso, Feios faz jus ao título, em uma distopia adolescente genérica que, ao criticar a superficialidade do ser humano, não consegue aprofundar sua discussão.



Em 2008, o lançamento de Jogos Vorazes na literatura parece ter sido o estopim de um grande movimento responsável por levar as distopias ao mundo dos jovens, a partir de elementos românticos, com heróis e vilões lutando por uma nação ou, quiçá, um universo inteiro. No fundo, foi como adaptar e reformular um estilo que já havia cultivado grandes frutos no século anterior, com o brilhantismo das obras de Orwell, Huxley, Bradbury e outros, que o desenvolviam a partir de um estilo mais filosófico, e sem necessariamente grandes maniqueísmos, ou pelo menos um antagonista personificado, colocando os pensamentos de uma pessoa contra um grande sistema sem face.

 

Quando, em 2012, o primeiro Jogos Vorazes foi levado para os cinemas, essa onda se transportou dos livros também para as telas. Foram inúmeras franquias semelhantes na literatura que também receberam adaptações, como Divergente, Maze Runner e O Doador de Memórias, algumas com sucesso e outras sem qualquer repercussão.

 

Para minha surpresa, Scott Westerfeld escreveu Feios (obra essa que eu não conhecia) em 2005, antes de tudo isso, mas até então não havia recebido uma adaptação. Aos fãs que aguardavam por isso, o momento chegou, praticamente com uma década de atraso em relação à era das distopias adolescentes, e em uma obra que não se esforça para ser diferente em absolutamente nada.

 

Talvez até pudesse reacender uma chama de interesse pelo estilo se a adaptação buscasse por uma identidade, ou ao menos oferecesse uma boa aventura de ficção-científica, com um debate profundo acerca de identidade.

 

É notável a intenção de Feios em debater a sociedade das aparências, algo que vivemos nos dias de hoje a partir das redes sociais, com a constante necessidade de perfeição do ser humano, sem contar os cada vez mais comuns procedimentos estéticos, as técnicas para retardar o envelhecimento e tudo o mais. E a base criada para colocar esse debate em prática é intrigante, enquanto uma distopia onde o Estado não apenas incentiva, mas cria sua juventude justamente com esse pensamento, de, quando adultos, serem todos perfeitos através de uma cirurgia plástica completa e gratuita ao completar dos 16 anos. Mas é claro que isso esconde segundas intenções.

 

E está justamente nos segredos da perfeição onde Feios trabalha seu clímax, ou pelo menos tenta, já que falta ao longa uma série de esclarecimentos e desenvolvimentos para nos permitir a compreensão desse universo distópico. A verdade é que, da maneira como explorado, à base de intermináveis exposições verbais, o filme não dá conta sequer de explicar as razões para ser uma distopia, quando diante da aparente inexistência de fome, falta de agua, oxigênio ou até moradia e desigualdades, seu mundo mais se parece uma grande utopia, perfeita, onde a presença de um Estado talvez nem se fizesse necessária (e ainda assim, da maneira como é, não parece exatamente algo ruim, sem querer, de maneira alguma, defender um governo totalitário).

 

Isso, por si só, já deslegitima em boa parte sua antagonista, uma figura bastante genérica de cientista obcecada e caricaturalmente vilanesca, em um filme sério, a qual sequer conhecemos seus planos ou verdadeiras motivações (apesar das intermináveis explicações), senão um poder que, dado o contexto, parece ser completamente inútil, senão por mero capricho e megalomania.

 

Não apenas essa figura antagonista é frágil, mas toda a sua teoria de controle social parece ineficaz dentro da proposta, diante de um mundo perfeito onde a personagem só se faz necessária para o estabelecimento de um conflito banal. Sem ela, não haveria a necessidade de um grupo que vive, propositalmente, às margens desse Estado e que busca derrubá-lo, pois sabe de seus meios para manter o equilíbrio. Na verdade, eles seriam os reais vilões se a obra não fizesse dos planos da cientista algo tão maléfico e absurdo, que, a bem da verdade, naquele contexto específico, nem parece tão ruim quanto soa.

 

E como se não bastasse todo o roteiro caótico de Jacob Forman, Vanessa Taylor e Whit Anderson, a direção de McG, que poderia ser o ar da diferença do projeto – como já fora para outros, dentro da própria Netflix - filma essa narrativa da maneira mais feia possível, com o perdão do trocadilho. Desde a fotografia escura até a ação confusa, não há qualquer apelo visual que torne o universo atraente, permeado por uma tonalidade cinza e decadente padrão de distopias, para realçar a suposta atmosfera deprimente, junto de grandes fundos verdes artificiais e uma direção de arte sem inspiração, nos figurinos ou em quaisquer ambientes daquele mundo futurista e tecnológico, no qual nem mesmo o elenco parece acreditar nos dramas de seus personagens.

 

Assim, com exceção da beleza dos atores envolvidos, todos os demais elementos do filme fazem jus ao título, Feios, que, sugerindo um debate sobre a superficialidade das relações e o culto a beleza, consegue abraçar suas próprias críticas ao não aprofundar, em momento algum, o debate que propõe, em prol de mais uma distopia adolescente genérica que viu a luz do dia em um momento completamente inoportuno.

 

Avaliação: 1/5

 

Feios (Uglies, 2024)

Direção: McG

Roteiro: Jacob Forman, Vanessa Taylor e Whit Anderson, adaptado de Scott Westerfeld (livro).

Gênero: Ação, Thriller, Drama

Origem: EUA

Duração: 100 minutos (1h40)

Disponível: Netflix

 

Sinopse: Em um mundo distópico que impõe rígidos padrões de beleza, uma adolescente aguardando sua cirurgia plástica obrigatória sai em busca da amiga desaparecida, e descobre que nem tudo é o que parece ser.

(Fonte: Google - Adaptado)

 
 
 

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