CRÍTICA | Um. Natal. Surreal., de Michael Showalter (Oh. What. Fun., 2025)
- Henrique Debski
- 24 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Com elenco estelar, e na intenção de direcionar os olhos do público às matriarcas das famílias, Um. Natal. Surreal. joga no seguro em comédia divertida, mas esquecível.

Desde o princípio, Um. Natal. Surreal. não esconde sua pretensão em explorar os mais básicos arquétipos do “cinema natalino norte-americano”. Apesar de não constituir-se propriamente como um gênero, ou sequer um subgênero cinematográfico, é nítida a existência de uma enorme quantidade de lançamentos, nos EUA, relacionados à data nesta época do ano. Afinal, o Natal é uma época de reunião familiar, de perdões, reflexão e união – ao menos é o que se vende desde antes mesmo do cinema nascer, quando Charles Dickens outrora, ainda no século XIX, na Inglaterra Vitoriana, escreveu A Christmas Carol com esses mesmos valores em mente, provando serem essas ideias muito mais antigas do que parece.
Ao elencar, a partir de uma narração da protagonista interpretada por Michelle Pfeiffer, uma série de filmes natalinos protagonizados por homens, a intenção de Michael Showalter para com seu novo projeto ficava mais do que clara: a partir da subversão pautada na questão do gênero, entregar o protagonismo da aventura deste ano não ao pai da família, e nem a algum homem, seja adulto ou criança (como menciona para o caso de Esqueceram de Mim), mas direcionar a atenção justamente à matriarca. A reflexão é bastante válida, mas igualmente é também a provocação: a direção também poderia incluir assinatura de uma mulher – afinal, mais interessante ainda seria essa subversão correr também por detrás das câmeras – que ao menos conta no roteiro, assinado em conjunto com a estreante Chandler Baker.
Superada essa provocação, em tom de reflexão, é também inegável, desde os primeiros minutos, a falta de interesse do longa em fugir do óbvio, em se tratando de um filme de Natal. Pelo contrário, ao mencionar uma série de obras natalinas nos instantes iniciais, existe uma nítida inspiração em elementos clássicos, do conflito inspirado pelo esquecimento de McCallister em casa pela família, até a própria revolta da protagonista em buscar por distância do marido e filhos.
O estabelecimento desse ambiente familiar é bem construído pela direção de Showalter a partir de uma fotografia que valoriza as cores quentes, no interior de uma residência tipicamente norte-americana, repleta de ornamentos em comemoração ao feriado, onde, a partir de um aspecto acolhedor habilmente transmitido, é fácil sentir as recordações de uma família feliz pairando sobre o ar a todo instante.
No entanto, a dinâmica se transforma sutilmente com a chegada dos filhos, que parecem pouco interessados – e até incapazes – de enxergar os esforços realizados pela mãe em tornar aquele um feriado especial para todos, reagindo com desdém ou como se estivessem sendo obrigados a estarem juntos, quando gostariam de estar em qualquer outro lugar.
É uma quebra que aos poucos suscita o grande conflito da narrativa, que leva quase uma hora a surgir. É de uma grande preocupação por parte dos realizadores o estabelecimento dos motivos que levam ao conflito central, mas, por outro lado, pouca dedicação a resolver cada uma dessas ideias que trazem à tona, acelerando para encerrar a projeção em apenas mais quarenta minutos.
Ainda que por muito se divirta com a família definhando em um Natal sem a matriarca presente, percebendo sua importância e o quanto devem valorizá-la, o filme perde pela maneira como pouco acaba desenvolvendo os membros da família individualmente, depois de apresentar uma problemática pessoal para cada um que pouco se aproveita de fato. É como o filme deseja mostrar que todos são tomados pelas próprias questões, com as quais devem lidar, sozinhos ou em conjunto, mas sem saber como fazer isso, e menos ainda dedica algum tempo e atenção a esse desenvolvimento.
E com isso, um elenco muito talentoso acaba desperdiçado em uma narrativa que acelera o passo, e abraça consequentes “deuses ex-machina”, para chegar logo ao final. A própria protagonista de Michelle Pfeiffer acaba se afogando pelas mãos do próprio longa, que aposta, na reta final, em uma repentina suspensão da descrença no clímax do terceiro ato.
No entanto, seria injusto de minha parte dizer que Um. Natal. Surreal. não é um filme divertido, pois no limite do possível, e da criatividade, é, mas que poderia muito ir além se abandonasse essa fórmula batida da comédia natalina para apostar em algo, pelo menos, mais arriscado. Citam-se tantos filmes que, ao final de contas, trata-se de uma grande junção de clichês com o objetivo de valorizar o trabalho desempenhado pelas mães no seio da reunião familiar, na forma de uma sátira tímida e segura da cultura e sociedade norte-americana. Com elenco estelar (ainda que nem sempre tão bem aproveitado), e algumas piadas boas na manga (como a discussão na mesa de Natal, em uma ceia sem a matriarca), dá para sorrir e dar algumas risadas, embora todos saibam que se esquecerão do filme assim que a projeção terminar, e rolarem os créditos finais.
Avaliação: 3/5
Um. Natal. Surreal. (Oh. What. Fun., 2025)
Direção: Michael Showalter
Roteiro: Michael Showalter e Chandler Baker
Gênero: Comédia, Drama
Origem: EUA
Duração: 106 minutos (1h46)
Disponível: Prime Video
Sinopse: Claire planeja um Natal especial, mas é esquecida por sua família, e vai embora para espairecer e buscar distância de sua vida. Quando eles percebem que ela está desaparecida, o feriado fica em risco até que ela retorne para dar a eles a comemoração que acreditam merecer.

